www.sabado.ptFlash - 13 out 01:58

O nacional porreirismo de Estado

O nacional porreirismo de Estado

O que é que Pedrógão e a Operação Marquês têm em comum?

Enquanto o Presidente da República continua na sua campanha para bater o recorde do Guiness de mais beijos e abraços durante um mandato, o País vai sendo confrontado com a sua própria realidade: um antigo primeiro-ministro acusado de corrupção e um relatório de uma comissão independente, que arrasa o combate aos incêndios de Pedrógão, onde morreram 64 pessoas. Vamos lá repetir o número: 64 mortes.

Vamos por ordem cronológica: o que nos diz, salvaguardada a presunção de inocência, a acusação do processo "Operação Marquês"? Uma coisa simples: durante anos, este país foi tomado de assalto por um bando que, além de nos governar, governou-se bem. É porque as contas da Operação Marquês, como podem confirmar este sábado numa edição especial, não se fazem às centenas, nem milhares, mas sim aos milhões.

Decisões estratégicas numa grande empresa, como foi a PT, terão sido cozinhadas num subterrâneo que ligava a sede do BES à residência oficial do primeiro-ministro. O accionista não queria vender, não se vendia, desde que a decisão fosse muito bem compensada. Era preciso colocar pessoas de confiança no núcleo duro dos accionista da PT, emprestava-se dinheiro ao pessoal para comprar camiões de acções de um dia para o outro. Gestores da PT, de forma a satisfazer o interesse de um só accionista, acumularam milhões no estrangeiro. O tal primeiro-ministro idem. Ao mesmo tempo que administrava o banco público, um gestor movimentava milhões em contas pessoais em offshore e dava 200 milhões a um grupo de pessoas que queriam comprar casas. Abriu-se e fechou-se um concurso para um comboio super rápido e o que aconteceu? Um consórcio embolsou mais de 100 milhões. E o que chamar a isto se não o nacional porreirismo de Estado?

Só que, enquanto uns se orientaram com uns bons milhões, outros contentaram-se com umas migalhas, uma palavrinha, umas refeições, uma ilusão de acesso privilegiado, umas colunas nos jornais a defender o indefensável. Hoje, o silêncio ou as generalidades que espalham no espaço público é um claro sintoma de vergonha pessoal.

Se no passado, o nacional porreirismo de Estado teve uma dimensão de governo das finanças pessoais, hoje a questão é essencialmente política. Depois dos casos de Tancos e Pedrógão, a questão da responsabilidade política dos respectivos ministros colocou-se, tendo até o Presidente da República dos abraços sublinhado a importância desta matéria.

Há que separar os dois acontecimentos: se no caso do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, até se aceita que a sua responsabilidade política possa estar mitigada, porque um ministro não pode saber o que se passa em todos os paióis, as coisas mudam completamente de figura com Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna.

É que Constança esteve no terreno, acompanhou e sancionou as opções tomadas pela Protecção Civil, as tais que segundo a Comissão Independente tiveram "consequências catastróficas" em Pedrógão. Por isso, quando a ministra vem dizer "obviamente, não me demito", apenas se pode concluir que Constança Urbano de Sousa apenas esteve no centro de comando ao incêndio de Pedrógão para se pavonear com o colete da Protecção Civil. Convém lembrar novamente: morreram 64 pessoas.

Diz ainda o documento que um qualquer comandante da Protecção Civil mandou suspender a fita do tempo, ou seja a caixa negra que regista todos os passos dados no combate ao incêndio. Ainda não foi demitido. Confirma ainda o relatório que o sistema SIRESP não serve para nada, está "ultrapassado". O governo rescindiu o contrato, até por uma questão de segurança da população? Obviamente, citando a ministra, não.

E assim continuamos tranquilamente com o nacional porreirismo de Estado, alimentado por uma eventual baixa nos impostos e subidas nas pensões e uns abraços e selfies com o Presidente da República, que bem pede responsabilidades políticas, mas ninguém lhe liga. Afinal, é tudo isso que importa, mesmo que em Pedrógão tenham morrido 64 pessoas

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