www.dn.ptAna Rita Guerra - 13 out 01:00

Opinião - O mito liberal de Hollywood

Opinião - O mito liberal de Hollywood

Numa noite de gala, em Beverly Hills, esbarrei com o escritor e produtor Steven L. Sears, conhecido pela série televisiva Xena: A Princesa Guerreira. Conversámos sobre esse trabalho pioneiro que fez para a televisão, em que criou uma personagem feminina forte que tinha uma relação ambígua com a companheira Gabrielle. Na altura, anos noventa, era raro haver heroínas deste calibre no pequeno ecrã a deixar entrever homossexualidade. Sears foi contra a corrente desde o início. Nos primeiros tempos da sua carreira, tinha discussões escandalosas com os estúdios sobre a sexualidade das mulheres nas séries. "Uma vez pediram-me isto: "será que podes livrar-te dessa porcaria toda de personalidade? Está a desviar a atenção das mamas dela"", recordou. "Seguiu-se uma sessão de gritos."

Pouco ou nada mudou na forma rígida como Hollywood funciona do topo para baixo. Primeiro faz-se o casting dos homens que vão comandar o filme, depois escolhem-se as atrizes. Há dois anos, Maggie Gyllenhaal (Batman: O Cavaleiro das Trevas) viu recusado um papel porque, aos 37 anos, foi considerada muito velha para interpretar o interesse romântico de um ator de 55 anos. É comum pedirem às atrizes que vão fazer audições para irem de biquíni e tirarem a parte de cima. Ou para fazerem implantes. Zoe Kazan (Revolutionary Road) estava a filmar em estúdio quando um produtor lhe perguntou se ela cuspia ou engolia. Audições em que o produtor aparece de robe. Ou convida as atrizes para irem a casa dele em vez do escritório. Há uma expressão que se usa aqui em Hollywood para determinar a fasquia de determinada atriz - is she believably fuckable? Até os maiores nomes femininos da indústria chegam a um ponto em que percebem que passaram da idade em que são fuckable e os papéis escasseiam, como aconteceu a Geena Davis.

Hollywood, ao contrário da narrativa que a direita conservadora quer fazer passar, não é liberal. Não nas estruturas de topo, dominadas por homens mais velhos, cheios de dinheiro, que se habituaram a ter o que queriam quando queriam em tempos idos. O que mudou foi a audiência; o que mudou foi o efeito de grupo, com cada vez mais mulheres na indústria a fincarem o pé e a soarem os alarmes. As atrizes mais novas, que não têm poder no nome e estão entre a turba de aspirantes que todos os dias chegam a Los Angeles, calam-se porque não querem arruinar as suas hipóteses de trabalhar na indústria. Não querem ter a fama de "problemáticas". "Vais dar-me problemas, querida? Vais fazer uma cena?"

Entre as dezenas de entrevistas que fiz a atrizes novas e velhas nestes códigos postais famosos, o tema do machismo e da desigualdade em Hollywood veio sempre ao de cima. Sempre. Reese Witherspoon, que está na indústria há 25 anos, falou do "efeito estrunfina": quase sempre era a única mulher em estúdio, tal como nos estrunfes. "Quem é que deu à luz estes estrunfes todos, então?", questionou, num evento de promoção à sua série Big Little Lies que ganhou cinco Emmys no mês passado. Reese produziu esta série com Nicole Kidman porque estava farta de ver mulheres a serem as namoradas e esposas de Hollywood. Farta. E se é a televisão que está agora a alargar as fronteiras do que pode ser feito, graças ao poder do streaming, continua a ser difícil porque a mentalidade não muda de um dia para o outro. Quando Charlize Theron e Kay Cannon andaram de porta em porta a vender a série Girlboss, inspirada na história real de Sophia Amoruso, ouviram que a produção não podia chamar-se assim. Era muito girl power. Que homem ia querer ver esta série? Theron mandou-os à fava e conseguiu vender o produto à Netflix. Durou apenas uma temporada.

1
1