www.cmjornal.ptAntónio Sousa Homem - 13 out 01:30

Recordações de um céptico de serviço

Recordações de um céptico de serviço

O meu pai desconfiava da meteorologia como do género humano.
A relação da família com a meteorologia dava um romance – aborrecido em certas passagens mais descritivas, quando calhasse referir o denso volume das nuvens, a coloração das montanhas, mas um romance em que, mesmo em nota de rodapé – à maneira de Laurence Sterne – apareceria o nome do Dr. Anthímio de Azevedo.

Em Ponte de Lima, ainda nos tempos do augusto reinado da tia Benedita, a temida matriarca dos Homem, havia um catavento num dos torreões do velho casarão de granito e trepadeiras. Servia para o essencial, confirmando que o vento do Sul arrastaria consigo a chuva – o que se verificaria se houvesse nuvens e, no entender do velho Doutor Homem, meu pai (o sempiterno céptico de serviço), existisse nos Elementos a mínima predisposição para chover. Eu compreendo-o. Encarregado de alimentar uma família e preocupado com o dia de amanhã, todas as questões meteorológicas deveriam reduzir-se aos verbos pronunciados no passado: choveu, caiu granizo, trovejou, desceram as temperaturas, nevou na serra, trovejou. O futuro era uma incógnita, mesmo quando era previsto e anunciado pelo Dr. Anthímio de Azevedo.

O velho Doutor Homem, meu pai, considerava que uma parte da nossa natural apetência para a ninharia, para a inutilidade e para a indiferença em relação à vida em geral, provinha da abundância de meteorologistas que observavam as coisas celestes com o mesmo grau de fiabilidade com que os apostadores aguardavam os números da lotaria: as suas certezas eram alimentadas pela fé e pela suspeita. Por isso, sempre que se falava do tempo – no pico do Verão ou nas profundezas do Inverno, durante um temporal ou na companhia da canícula da sua quinzena de férias de Agosto, abandonava a leitura do jornal e declarava, com uma ironia disfarçada, que ia chover. "E granizo nas montanhas", acrescentava, mesmo quando o crepúsculo do Verão descia suave e alaranjado sobre aquelas paredes de granito, cobertas por trepadeiras de rosas de Santa Teresinha.

Na minha memória, esses momentos são doces e saudosos, mas sei que não regressam. A ironia e o cepticismo do velho Doutor Homem, meu pai, eram o topo de uma escala de valores que a generalidade da família não compreendia. Ele desconfiava das previsões da meteorologia como desconfiava do género humano – limitava-se a ficar sentado, observando como o fim se aproximava entre gargalhadas.
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