www.cmjornal.ptPadre António Rego - 13 out 01:30

Espada de guerreiro

Espada de guerreiro

João XXIII ensinou a Igreja a falar com o mundo com a doçura das suas palavras.
Um rápido olhar sobre o nosso mundo deixa-nos algum desencanto pelo espetáculo de confrontos onde nós próprios entramos como atores aguerridos. O conflito entrou nos cenários da vida e não deixa de esgrimir os seus atributos de agressão gratuita.

Vendo melhor, talvez acabemos por deslindar as cenas e perceber que o mundo não é tanto assim. Um pouco mais de atenção faz-nos descobrir gestos de conciliação e pessoas vocacionadas para ouvir, responder serenamente, atenuar as iras e construir a paz. Nunca faremos bem essas contas pois a reconciliação é menos vistosa que a guerra e constrói-se numa troca inteligente de olhares que os cronistas da espada habitualmente não sabem descrever.

Acabo de rever, na liturgia, um dos santos mais silenciosos do céu, João XXIII, profeta do impossível. Despertou a Igreja adormecida com a doçura das suas palavras, na instância mais complexa da sua orgânica - o Concílio - que ele reuniu em nome do Espírito e ensinou a Igreja a falar com o mundo e consigo mesma, na maior revolução espiritual do século XX.

Obrigado, bom Papa João, pelo que nos ensinaste com a eloquência do teu silêncio, do teu diálogo, do teu ecumenismo, da liturgia renovada, na relação com os não crentes, no espírito e no ânimo incutido aos sacerdotes, no entusiasmo pelos leigos, no respeito pela mulher, no despojamento de riquezas e ornatos inúteis para a salvação e para o diálogo com o nosso tempo.

Obrigado pelo teu testemunho sobre a bondade de Deus, a paixão pela paz, o diálogo ecuménico que estabeleceste nos sinuosos caminhos por onde andaste. E por teres feito da diplomacia um instrumento de paz. Obrigado pelos silêncios que guardaste e que acenderam a reconciliação dos teus próprios inimigos. Empresta-nos essa espada de guerreiro para também nós esgrimirmos a paz. A mesma espada que ofereceste ao Papa Francisco.
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