www.dn.ptJorge Cordeiro - 13 out 01:00

Opinião - Confusos e sem nexo

Opinião - Confusos e sem nexo

Por embalo de umas eleições que devendo ser locais houve quem as procurasse transmutar em legislativas, aí vemos prolongado o alimentar desse equívoco. De um lado lá se ouviu Cristas a proclamar do alto dos degraus de uma escada a sua condição de "líder da oposição" no Município de Lisboa. É verdade que a ocasião impelia àquela atitude altaneira de quem, por ilusão de óptica e julgando-se guindada para nível superior, se ajuíza a si própria. Ainda que desmerecendo daquela testada prevenção popular segundo a qual quanto mais se sobe, de mais alto se cai.

De outro lado, lá se vão repetindo opiniões e comentários que, entre o especulativo e o infundado, por confusão sobre a matéria em presença, injustificada ignorância ou por deliberada intenção de confundir, animam ideias de supostas "coligações pós eleitorais" ou hipotéticos "acordos de governação" nas autarquias. Há quem veja na arte de confundir o modo de disfarçar fragilidades na acção política. Sem que haja qualquer relação entre o milenar pensamento filosófico de Confúcio e a essência do confundir, ainda assim se relembra o que lhe é atribuído sobre o risco de "pensar sem aprender" e mais gravosamente do "desastre" que representa "aprender sem pensar".

Qualquer ideia de replicar uma suposta solução nacional para o plano local só pode ter origem numa persistente confusão sem cura à vista. Não se pode replicar o que não há. No plano nacional o que existe, do ponto de vista institucional, é um governo minoritário do PS, no quadro de uma correlação de forças na AR em que, com a sua integral independência, o PCP (e também o PEV), pesam para a construção de medidas que dêem resposta a problemas dos trabalhadores e do povo. Andar para aí a mediar supostas soluções de governação autárquica por sobreposição ao que imaginam, erradamente, existir noutros planos é como andar a exercitar a teoria dos conjuntos, desconhecendo a definição de conjunto vazio. Por mais que ambicionassem ser o elemento presente em conjuntos diversos.

Só quem desconhece a natureza e características do poder local democrático tem uma visão parlamentarista e governamentalizada do seu funcionamento. Alguém imaginar-se na primeira - e única - fila de uma sala de reuniões a desfiar discursos ou desdobrar-se em infindáveis figuras regimentais, a "liderar" o que tem à mão, no caso três vereadores, só pode revelar erro de casting.

Há quem não perceba o que o poder local representa de proximidade com as populações e também de espaço para não desperdiçar a contribuição de todos os que nas suas terras a partir do interesse local se dispõem a trabalhar para o realizar. É a partir desta concepção que se deve determinar o posicionamento no campo da acção local e não a partir de apelos ou da efectiva construção de coligações despropositadas e sem nexo. Os milhares de eleitos locais conferem às autarquias um factor de intervenção comum a partir do que, em concreto, se impõe fazer com as atribuições e competências dos órgãos locais. Isso não faz das autarquias algo politicamente híbrido. Coexistem projectos distintos e prioridades diversas, todos ditados por interesses diferentes. Não se rasura a avaliação política que cada um faz da sua compatibilização com os elementos centrais do que se defende e propõe, dos seus critérios de gestão e soluções concretas para os problemas. Mas fazer das autarquias, mesmo das maiores, uma miniatura política dos órgãos de soberania, em que se transporta para o plano local a noção de "oposição" e o confronto gratuito (quando não bloqueio de funcionamento dos órgãos e boicote à resolução dos problemas), só pode ter origem em dificuldades de percepção.

A composição plural e o funcionamento colegial das autarquias é uma marca genuína do poder local democrático, verdadeira conquista de Abril, que se afirmou como espaço de unidade de acção para a sua concretização. Uma marca que, há muito, alguns procuram atingir quer pela desvalorização dos seus elementos de participação (redução da composição dos órgãos deliberativos imposta na década de 1980) quer de proximidade (com a liquidação de mais de um milhar de freguesias). Mas que continua a afirmar-se como referência ímpar da dimensão democrática na vida política. Há quem ambicione subverter a sua dimensão democrática substituindo o carácter plural e representativo por um modelo de poder hegemónico e sem controlo democrático. Não alimentaremos os argumentos e as manobras dos que ambicionam essa alteração antidemocrática, acenando com arranjos artificiais. Onde estivermos, mesmo que entre muitos outros, estaremos a lutar pelos interesses da população, erguendo a voz contra atropelos, mas também para propor e trabalhar na construção de soluções.

Com maioria absoluta ou relativa, mantemos inalterável a forma de estar e de gerir o poder local: em diálogo, com apelo à participação e ao envolvimento no trabalho de todos os eleitos interessados na resolução dos problemas, com a tranquilidade de quem convive bem com opiniões e contribuições diversas.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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