expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 13 out 17:08

Consolidação da dívida deve ser feita “mais devagar”

Consolidação da dívida deve ser feita “mais devagar”

Dois proeminentes economistas, Olivier Blanchard e Lawrence Summers, defendem numa conferência à margem da assembleia anual do FMI, que a discussão sobre a sustentabilidade da dívida pública dever ser revista

Chegou a hora de dar primazia à política orçamental como ferramenta de estabilização macroeconómica, relegando para segundo plano a política monetária, e é necessária uma atitude “mais flexível em relação à consolidação da divida”.

A mudança de estratégia global foi proposta numa conferência à margem da Assembleia anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) que decorre até domingo em Washington, por Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, atualmente no Peterson Institute for International Economics (PIIE), e Lawrence Summers, académico e presidente emérito da Universidade de Harvard, nos EUA.

Blanchard, quando esteve no FMI, ficou célebre por ter revelado o erro do multiplicador aplicado nos programas de resgate (inclusive em Portugal), que tendia a subestimar os efeitos negativos das medidas de austeridade defendidas pela troika (em que o próprio FMI estava envolvido). Summers tem defendido que as economias capitalistas atravessam uma "era" de “estagnação secular”, um tema que lançou num artigo na revista Foreign Affairs em fevereiro de 2016.

A conferência, organizada esta semana pelo PIIE, tinha como tema “Repensar a Política Macroeconómica”, e foi coordenada pelos dois académicos, e já intervieram nos seus painéis Mario Draghi (que veio reafirmar a política monetária do Banco Central Europeu) e Ben Bernanke, o anterior presidente da Reserva Federal norte-americana, que geriu o banco central no período crucial do colapso financeiro e da resposta a dar-lhe.

Papel principal para a política orçamental

Os dois académicos são particularmente claros sobre a gestão da dívida: “Um ambiente em que a taxa de juro provavelmente permanecerá abaixo da taxa de crescimento por algum tempo, a discussão habitual sobre a sustentabilidade da dívida deve ser revista. No mínimo, a consolidação da dívida deve ocorrer mais devagar, e há um forte argumento para o aumento do investimento público mesmo financiado por dívida”.

“Apesar dos altos níveis de endividamento, a política orçamental deve desempenhar um papel mais ativo na estabilização”, defendem os dois académicos, que consideram que é preciso “resistir à tentação de não usar a política orçamental”.

Por uma razão de fundo: “Consideramos que as lições básicas da grande crise financeira são similares às que a revolução Keynesiana deu em reposta à Grande Depressão [dos anos 1930] – as economias podem ser afetadas por fortes choques e não se pode esperar que se auto-estabilizem”. “Isto não quer dizer que devamos regressar ao Keynesianismo dos anos 1960 e 1970”, acrescentam.

Três recomendações fundamentais

Em termos de orientação de política macroeconómica, Blanchard e Summers defendem três recomendações fundamentais.

A política orçamental deve desempenhar, agora, um papel principal e a consolidação do endividamento deve ser feita “mais devagar”.

A estabilidade financeira não deve ficar a cargo da política monetária (através das mexidas para cima ou para baixo nas taxas de juro diretoras), mas deve ser garantida através da regulação financeira e de medidas macroprudênciais.

Finalmente, “em tempos normais” (como os de recuperação económica que já vivemos), a gestão dos problemas da dívida não deve ser exclusivamente operada através da política monetária com os programas de compra de ativos (os famosos QE, de quantitative easing), nomeadamente de dívida pública, que engordam os balanços dos bancos centrais, mas através dos departamentos do Tesouro/ministérios das Finanças (ou seja, pela política dos governos) e em coordenação com os bancos centrais.

Esta orientação global defendidad por Blanchard e Summers exige resistir a três tentações: diminuir a regulação financeira; desvalorizar a política orçamental como elemento principal de estabilização; e usar a politica monetária convencional (através da fixação das taxas de juro) para combater as bolhas financeiras e os disparos de crédito que se verifiquem.

1
1