www.dn.ptRaj Persaud e Adrian Furnham - 13 out 01:00

Psiquiatria - Dentro da mente do assassino em massa

Psiquiatria - Dentro da mente do assassino em massa

Na noite de 1 de Outubro, Stephen Paddock abriu fogo contra um festival de música country em Las Vegas, Nevada, de um hotel em frente, matando pelo menos 59 pessoas e ferindo mais de 500. Paddock, um contabilista reformado de 64 anos sem antecedentes criminais, foi encontrado no seu quarto de hotel, morto, com cerca de 23 armas, incluindo mais de dez armas de assalto. A polícia encontrou mais 19 armas de fogo, explosivos e vários milhares de cartuchos de munições em casa de Paddock. Contudo, o que as autoridades ainda não encontraram foi um motivo.

Provavelmente serão divulgados nos próximos dias mais detalhes sobre o estado de espírito e os objectivos de Paddock. Mas os assassinos em massa conhecidos como "lobos solitários" - perpetradores individuais sem vínculos com qualquer movimento ou ideologia - não são um fenómeno novo, e esses episódios ofereceram pistas importantes sobre as motivações e os processos de pensamento dos assassinos em massa.

A maioria dos assassinos em massa não sobrevive aos seus próprios ataques, ou se suicidam ou deixam a polícia fazer o trabalho. Mas aqueles que sobreviveram mostraram algumas características comuns, sendo os dois diagnósticos mais frequentes o distúrbio da personalidade narcisista e a esquizofrenia paranóica. Foi esse o caso de Anders Breivik, o terrorista norueguês de extrema-direita que, em 2011, detonou um carro-bomba que matou oito pessoas, antes de matar a tiro 69 participantes num acampamento de verão para a juventude. Breivik continua preso na Noruega.

Uma análise ao comportamento anterior aos ataques reforça essa visão. Em The Wiley Handbook of the Psychology of Mass Shootings (O guia Wiley da psicologia dos assassínios em massa), Grant Duwe, director de investigação e avaliação do Departamento Correccional do Minnesota, analisou 160 casos de assassínios em massa nos Estados Unidos entre 1915 e 2013.

Duwe descobriu que 60% dos atacantes tinham sido diagnosticados com um distúrbio psiquiátrico ou exibiam sinais de perturbações mentais graves antes do ataque. Cerca de um terço teve contacto com profissionais de saúde mental, que os diagnosticaram, na maioria dos casos, com esquizofrenia paranóica. O segundo diagnóstico mais comum foi a depressão.

No entanto, dado que a maioria das pessoas que sofre com esses distúrbios é inofensiva para o público, esses diagnósticos não contam a história toda. Segundo Duwe, a diferença pode estar numa sensação aguda de perseguição e num profundo desejo de vingança.

Esta visão é corroborada por Paul Mullen, um psiquiatra forense australiano. Com base numa investigação pormenorizada de cinco assassinos em massa que examinou pessoalmente, Mullen concluiu que tais assassinos lutam para reconciliar as ideias grandiosas que têm de si próprios com uma incapacidade de sucesso no trabalho ou nas relações. Acabam por decidir que a única explicação é que os outros os estão a sabotar.

De facto, o estudo de Mullen revelou que o caminho para o assassínio em massa é bastante estereotipado. Todos os sujeitos estudados por Mullen foram intimidados ou socialmente excluídos na infância. Todos eram desconfiados e rígidos, características que ajudavam a aprofundar o seu isolamento. Eles culpavam constantemente os outros pelos seus problemas, acreditando que as suas comunidades os tinham rejeitado; não consideravam a hipótese de eles próprios serem muito cansativos ou autocentrados.

Os sujeitos de Mullen mantinham rancores obsessivos contra qualquer pessoa que vissem como parte do grupo ou comunidade que se recusava a aceitá-los. Ruminavam persistentemente sobre as humilhações passadas, um hábito que alimentava o ressentimento e, por fim, as fantasias de vingança, levando-os a usar o assassínio em massa para alcançar a notoriedade e ferir aqueles que eles achavam que os tinham magoado, mesmo que isso significasse uma "morte bem-vinda" para os próprios.

Dado isto, há geralmente uma espécie de lógica retorcida para a escolha das vítimas dos assassinos em massa. No caso de tiroteios em escolas, como o massacre da Secundária Columbine em 1999, essa lógica é clara: punir os que excluíram socialmente os perpetradores. Do mesmo modo, as matanças no local de trabalho são muitas vezes desencadeadas por um despedimento ou uma demissão. Mas mesmo nos casos em que os alvos parecem aleatórios, a lógica acaba normalmente por surgir, mesmo que se trate de punir toda uma comunidade ou sociedade.

No caso de Paddock, muitas questões, obviamente, permanecem sem resposta, começando pelo motivo pelo qual ele escolheu esse concerto em particular para atacar. Mas os contornos da sua história estão a começar a surgir. Reforçando a teoria do lobo solitário, um vizinho disse que o "estranho" Paddock "era muito reservado"; viver ao lado dele era "como viver ao lado de nada". Também foi revelado que, em 2012, Paddock interpôs uma ação de negligência contra um hotel de Las Vegas onde tinha caído; um carácter litigioso pode ser uma característica dos ressentidos e paranóicos.

Duwe argumenta que, contrariamente à crença popular, este tipo de homens armados não "se passam simplesmente". Embora cerca de dois terços dos assassinos em massa passem por um acontecimento traumático imediatamente antes de realizar o ataque - geralmente a perda de emprego ou relacionamento -, a maioria passa semanas ou mesmo anos deliberando e preparando a sua vingança. No caso de Paddock, esse planeamento silencioso pode explicar o arsenal encontrado em sua casa e no quarto de hotel, que ele alugou vários dias antes do ataque.

Após o massacre, mais de metade dos assassinos em massa cometem suicídio ou provocam a polícia para que esta os mate. Esta taxa é quase dez vezes superior à dos homicídios em geral. Será que isso revela, pergunta Duwe, o quanto esses assassinos estão mentalmente atormentados? Talvez eles acreditem que não conseguem suportar mais a agonia da vida; depois de "ajustarem contas" com os maus-tratos que causaram essa agonia deixa de haver razão para viver.

Mullen argumenta que o guião para este tipo particular de suicídio está muito enraizado na cultura moderna e continua a atrair protagonistas com essa predisposição. Se não formos capazes de usar o conhecimento que reunimos da experiência passada para evitar que eles tomem conta do palco, esses protagonistas continuarão a ter o público como alvo.

Raj Persaud é psiquiatra consultor e coautor do livro The Streetwise Person"s Guide of Mental Health Care

Adrian Furnham é professor de Psicologia no University College London e autor do livro The Psychology of Disenchantment

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