www.sabado.ptFlash - 13 out 07:00

As manhãs sem filhos

As manhãs sem filhos

Na manhã seguinte, decidi tomar o pequeno-almoço na rua. Agarrei num livro e desci. Não estava sentada há cinco minutos quando a família entrou. Pai, mãe, mãe do pai e duas filhas - a preferida e a outra

Para termos mesa no restaurante, começámos a jantar ainda não tínhamos fome. Pela fila parecia que o iPhone 11 ia ser lançado ali e isso deve ter-nos acelerado o metabolismo porque ainda não eram 22h e já partilhávamos a sobremesa. Sumário: antes das 23h estávamos noutro lado a beber - água das pedras, como gente grande.

De onde estávamos sentados, vimos a nossa juventude apanhar um táxi com a nossa dignidade (outrora donos das pistas, reis das bebidas brancas, tínhamos pedido água com gás num bar). Sem filhos e/ou desculpas, recolhemos antes da meia-noite.

. Croissants para toda a gente, extra Nutella para as miúdas. De lado, a mãe começou a olhar-me como se eu fosse roupa suja para ela lavar.

Primeiro, ralhou com a mais velha como se me castigasse a mim. Depois, olhou o meu livro como se já não pegasse num desde a primeira ecografia e cobiçou o meu telemóvel como se pudesse, com ele, ligar para o passado a pedir as suas manhãs de volta. Durante todo o tempo, comeu como se eu tivesse culpa de que o Jardim Zoológico, a Kidzania e o Pavilhão do Conhecimento existam.

De repente, levantou-se. A família seguiu-a. Da porta, olhou ainda para mim. Não falou, mas enviou a mensagem: "A vingança é um prato que se come devagar." Sorri-lhe e lembrei-me da Gal Costa: "Sem mágoas, estamos aí."

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