A declaração unilateral da independência da Catalunha fazia-se esperar, porém não se materializou. Do lado madrileno, a vice-primeira-ministra espanhola afirma que Carles Puigdemont está desorientado. Do lado catalão, os sentimentos dividem-se entre o desalento de uns, que aguardavam ansiosamente pela declaração da independência da Catalunha, e a prudência de outros, que acreditam que a reconciliação constitui, pelo menos por enquanto, a melhor saída para esta situação. Porém, em política nem tudo o que parece é e, como em qualquer negociação, o segredo é a alma do negócio. Em boa verdade, nenhum comentador político poderá deslindar com rigor o que ali se passou. Que fatores e que personalidades terão pesado nesta decisão aparentemente branda mas incisiva. Ninguém saberá. A verdade é que Carles Puigdemont surpreendeu tudo e todos ao jogar a carta do diálogo e do respeito, esperando assim granjear a atenção de atores internacionais que vão dando sinais de hesitação face aos repetidos apelos à mediação internacional. A União Europeia é o alvo a atingir, mas esta mantém-se firme perante o respeito pela soberania dos seus Estados membros. A estratégia de Puigdemont é inteligente, porém arriscada. Ao desferir um golpe aparentemente inofensivo, o governo catalão continua a apostar na guerra de nervos que, pelo lado inusitado da situação, surtiu o efeito pretendido. Se por um lado enfureceu o governo espanhol, ao desorientá-lo; por outro lado obriga a União Europeia a posicionar-se para que esta possa zelar pelo futuro do projeto europeu já de si fragilizado. A bola está agora em terreno espanhol, que deverá dar provas de alguma moderação perante este ato de boa vontade. Contudo, Mariano Rajoy limitou-se a assumir a sua desorientação, ao solicitar, no dia de ontem, a clarificação da declaração de Puigdemont para poder acionar o artigo 155.º da Constituição. Os próximos dias e semanas serão decisivos, e tudo indica que a intensidade do conflito não irá abrandar.