www.jn.ptFelisbela Lopes - 13 out 00:00

Catalunha terá vencedores?

Catalunha terá vencedores?

Ainda não se sabe qual o desfecho do complexo processo referendário da Catalunha. Apenas se pressente aí uma colossal inabilidade política. Em Madrid e em Barcelona. Por enquanto, aguarda-se por segunda-feira para perceber o que Carles Puigdemont fará com o ultimato imposto pelo Governo central para esclarecer o que foi feito ao nível da declaração de independência, apesar de o próprio já ter vindo dar algumas pistas de (re)ação na sua conta de Twitter. Que não auguram um desenvolvimento pacífico de toda esta intricada situação.

Para muitos, o presidente da Generalitat cumpriu o que prometera: autoproclamou a independência da Catalunha. Para muitos também, o homem que anunciara uma verdadeira revolução no país abortou-a no momento do clímax: comunicou que o processo estaria suspenso para que, nestas semanas, houvesse um diálogo para uma solução acordada. Em Madrid, o primeiro-ministro espanhol também andou aos ziguezagues com a sua aparente firmeza de fazer cumprir a Constituição. Agora, sabe-se que há um acordo com o PSOE e com Ciudadanos para uma revisão da lei fundamental, apesar de não se conhecer o que verdadeiramente poderá ser aprovado. Custa testemunhar tanta indefinição. Custa observar uma classe política tão titubeante nas suas convicções.

Enquanto nada está definido, a rua continua ruidosa, quer na Catalunha quer em Madrid. Porque há um povo que vai seguindo cegamente promessas que se fazem sem antes se aprofundarem devidamente as respetivas consequências. A Catalunha tem direito de expressar por voto o que quer para o seu futuro. Também tem direito de reivindicar mais autonomia. Mas quem governa a região não pode pôr em marcha um referendo sem qualquer base legal, nem tão pouco o pode realizar de forma pouco transparente. Pior ainda é quando se percebe que não tenha havido uma antecipação cuidadosa daquilo que se faria com os resultados de uma consulta popular... Por seu lado, Mariano Rajoy não deveria ter demonstrado de forma tão radical uma posição de força. Quem governa deve ser engenhoso na arte dos compromissos. Quando duas legitimidades se apresentam como absolutas, colidem. E a catástrofe torna-se inevitável. É o caso.

"L"Express" escrevia ontem que o modo como a autoproclamação da independência se processou abriu uma caixa de Pandora que ninguém saberá bem como fechar. A revista "Courrier Internactional" colocava o tema em capa com a manchete "A grande confusão". No interior desta publicação, destacavam-se artigos a favor das posições da Generalitat e outros de clara oposição. Porque nesta questão os média assumiram linhas editoriais de intervenção. Em Madrid, o "El País" foi um dos órgãos de comunicação mais combativos das posições de Carles Puigdemont, indo mesmo ao ponto de dispensar colaboradores que ousaram produzir conteúdos contrários a esta linha hegemónica do diário madrileno. Na Catalunha, o periódico "El Punto Avui" tem feito o contraponto, colocando-se acriticamente ao lado do Governo da região. Também a TV pública espanhola entrou em crise com vários jornalistas a censurarem o diretor de informação por opções jornalísticas consideradas demasiado encostadas às posições da Moncloa.

Neste contexto, onde fica a democracia? Pergunta difícil para a Espanha por estes dias. Pergunta difícil em várias geografias. A edição desta semana do "Courrier International" pediu a algumas personalidades para refletirem acerca disto a partir dos seus países. Dos Estados Unidos, o ex-vice-presidente norte-americano Joe Biden fala de Donald Trump e da sua estratégia de explorar as profundas divisões do país para atacar valores fundamentais. Do Brasil, a ex-candidata ecologista à presidência Marina Silva assegura que a vontade de governar foi substituída pela vontade de permanecer no poder, colocando a sua esperança de um renascimento do país no povo e nos média. Cada um dos convidados desafiados a dissertar sobre a democracia partiu sempre de uma realidade concreta, mas aquilo que aponta cruza vários lugares. Porque há aqui uma crise de representação à escala global.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO

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