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Os caminhos cruzados de Rio e Costa

Os caminhos cruzados de Rio e Costa

Rio construiu uma aura eleitoral que funcionaria na perfeição. Seria uma espécie de Cavaco pelo lado das contas públicas, mas com rosto humano, centrado socialmente em políticas habitualmente reivindicadas pela esquerda

Rui Rio avança finalmente para a luta pela liderança no PSD em termos que lhe são muito favoráveis. Depois de anos a alimentar o mito sebastiânico do homem capaz de endireitar o País, Rio construiu uma aura eleitoral que funcionaria na perfeição. Seria uma espécie de Cavaco pelo lado das contas públicas mas com rosto humano, centrado socialmente em políticas habitualmente reivindicadas pela esquerda. Talvez não esperasse, porém, aquilo que hoje se vive no País: um PS e um António Costa cada vez mais fortes.

A derrota de Passos, mas sobretudo a mortificação lenta de um PSD demasiado inclinado para a direita, criaram as condições ideais para o avanço de Rio. Aliás, em menos de duas semanas, o simples enunciar do seu avanço deixou as tropas do aparelho ainda dominado pelo passismo um pouco desgovernadas. Nem Luís Montenegro, nem Paulo Rangel, conseguiram avançar, deixando a tarefa para o voluntarismo de Santana Lopes que, pese embora a sua enorme experiência política, arrisca-se a travar um combate excessivamente marcado pela negativa.

Perante um partido que suspira por voltar a ver uma luz, pequena que seja, ao fundo de um túnel que leve ao poder, Santana Lopes terá de ir muito mais além da construção de um frentismo anti-Rio. Um dos trunfos poderá estar na desconstrução da empatia política entre Rui Rio e António Costa.

A luta entre os dois será uma antecâmara importantíssima daquilo que poderá ser ou não a margem de manobra de Rio, caso seja eleito, na construção de uma estratégia de oposição a Costa. Santana, nesse domínio, tem as mãos muito mais livres.

António Costa e Rui Rio têm um entendimento pessoal muito bom e também têm um programa político para o País a que chamam "Agenda de Reformas para a Década". Por isso mesmo, Rio tem sido visto como uma espécie de garantia reforçada para António Costa, que fica com uma alternativa à geringonça. Mas isso não é nada perante um Costa cada vez mais perto da maioria absoluta.

Rui Rio, por outro lado, é uma cartada eleitoral forte. Tem todos os ingredientes que uma vasta maioria de portugueses gosta. Apresenta-se como mais um mago das finanças que há-de tratar de tudo por nós, fala grosso com as corporações e desafiou velhos poderes como o de Pinto da Costa.

A sua concepção sobre a justiça, porém, é pouco democrática. Se fossem aplicadas algumas coisas que tem dito por aí pulverizava a separação de poderes e colocava tribunais, Ministério Público e Polícia Judiciária na mão do poder político.
Rio quer uma reforma da justiça feita por políticos, o que é correcto, mas contra magistrados e polícias. Seria o aliado perfeito de Sócrates, de Isaltino, de Duarte Lima e de tantas outras vítimas do poder maquiavélico dos procuradores. Rio representa, aliás, tudo o que António Costa repudia na sua acção política sobre a justiça. Quer no seu brilhante passado enquanto ministro da Justiça quer na condição actual de primeiro-ministro. Quererá Costa comprar um aliado destes? Não me parece. Conseguirá Santana Lopes entrar por esta linha de ataque, que é uma das maiores fragilidades de Rio? Provavelmente sim. O que fará deste combate uma importantíssima luta sobre o regime político.

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