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Alimentar e orçamentar a saúde mental

Alimentar e orçamentar a saúde mental

É preciso prevenir e reduzir o alarmante número de doentes de depressão em Portugal. Este é o terceiro problema de saúde mais frequente nas consultas dos Cuidados de Saúde Primários

O Dia Mundial da Saúde Mental celebrou-se esta terça-feira com a ampla divulgação do alerta da Alzheimer Portugal. Esta uma área cada vez mais considerada no mundo e há cada vez mais consciência sobre o facto de todas as pequenas escolhas diárias terem comprovados impactos, positivos ou negativos, na nossa saúde mental. A revista científica The Lancet publicou estudos que defendem que é possível evitar um em cada três casos de demência mudando hábitos e factores de risco como é o caso da obesidade, da diabetes, da hipertensão e do sedentarismo. As evidências científicas referem que a alimentação é a chave para uma boa saúde mental e, por isso, torna-se cada vez mais fundamental aprender a comer, ou seja, comer de forma inteligente.

Para além disso, é preciso prevenir e reduzir o alarmante número de doentes de depressão em Portugal. Este é o terceiro problema de saúde mais frequente nas consultas dos Cuidados de Saúde Primários, correspondendo a 7,6% do total de doentes atendidos. Somos o terceiro país do mundo com a taxa mais alta de pessoas com perturbação psicológica, a seguir aos Estados Unidos da América e à Irlanda. Portugal é também um dos países onde a depressão assume maior gravidade e em que o intervalo de tempo entre o aparecimento dos sintomas e o início do tratamento é mais elevado: apenas 37% das pessoas com depressão teve uma consulta médica no primeiro ano da doença.

No nosso país, e apesar do anúncio do Governo de que tal realidade vai ser alterada, o financiamento dos hospitais quanto ao tratamento de doentes do foro mental é escasso. Ainda não há um programa de resposta efectivo às perturbações mentais e isto faz com que os tipos de intervenções adoptadas não sejam as mais correctas, o que, por sua vez, culmina na prescrição excessiva de ansiolíticos e antidepressivos. Relacionado, as mulheres portuguesas apresentam o valor mais alto de uso de ansiolíticos e antidepressivos na europa, sendo que os homens ocupam o segundo lugar.

Em paralelo, existem no Serviço Nacional de Saúde (SNS) apenas 553 psicólogos, sendo o rácio actual de 1 profissional para cada 16.638 habitantes. Ora, através de um cálculo moderado, deveria haver pelo menos 1 psicólogo por cada 5.000 habitantes, persistindo situações em que não existe sequer um psicólogo em alguns territórios.

Mais gravoso, apenas uma pequena parte das pessoas com problemas de Saúde Psicológica têm acesso a estes serviços de apoio. De acordo com os dados mais recentes, quase 65% das pessoas com uma perturbação mental não teve qualquer tratamento.

No seguimento do Dia Mundial de Saúde Mental, Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos, defendeu que "os 216 milhões de euros gastos em psicofármacos em 2016 arrasam qualquer lógica ou argumento financeiro para a não contratação de profissionais (psicólogos) que trabalhem preventivamente. (...) Não há saúde mental dos portugueses sem psicólogos no SNS".

Em suma, é importante deixarmos de pensar de forma compartimentada e começar a pensar no organismo (corpo e estado) como um todo. A nutrição e a psicologia andam de mãos dadas na prevenção da depressão e na preservação da saúde mental. O reforço de psicólogos e de nutricionistas para o SNS pode e deve ser uma prioridade do Governo para o Orçamento do Estado de 2018. Estas são medidas que o PAN tem estado a negociar. A certeza é esta: é preciso apostar mais na prevenção e menos na reação.

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