www.cmjornal.ptLuís Campos Ferreira - 12 out 01:30

Justiça e confiança

Justiça e confiança

Fica provado que os muito ricos e os muito poderosos não estão acima da lei.
Os números que envolvem as acusações no âmbito da Operação Marquês, divulgadas ontem pelo Ministério Público ao fim de mais de quatro anos de investigações, são esmagadores: 28 acusados de um total de 164 crimes, despacho de acusação com cerca de 4 mil páginas, mais de 200 testemunhas ouvidas, mais de 200 buscas, transcrição de mais de 2600 escutas, análise de dados bancários de cerca de 500 contas, mais de 3 mil documentos em papel e 13 500 milhões de ficheiros informáticos de prova.

Acrescem o ‘peso’ dos principais arguidos, onde pontuam um ex-primeiro-ministro e o banqueiro mais poderoso do país da última década, e a natureza dos crimes de que são acusados.

A complexidade do caso está por demais patente no tempo que a investigação demorou e nos constantes adiamentos até chegar a esta fase. Devia e podia ter sido mais rápido? É difícil dizer, mas neste momento o mais importante, para todos os intervenientes, é que há acusações em cima da mesa.

Os arguidos, agora formalmente acusados, vão ter oportunidade de se defenderem, como é próprio de um Estado de direito.

O MP vai poder sustentar as suas acusações, sem a pressão dos prazos e da enorme mediatização. E, acima de tudo, a sociedade portuguesa vai poder reconciliar-se (se não totalmente, pelo menos em parte) com a Justiça, com a ideia de que se pode confiar nas instituições e de que o sistema – mesmo com os seus ritmos próprios e muitas vezes ‘injustos’ – está a funcionar.

Porque fica provado que os muito ricos e os muito poderosos não estão acima da lei e que também são investigados, acusados, julgados e, se forem considerados culpados, condenados.

Apesar de o desfecho definitivo deste caso estar ainda muito longe (há quem fale em mais uma década até haver sentenças finais), o essencial é que a confiança na Justiça saia reforçada, dê isto no que der.
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