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A Presunção de Inocência e a Santinha da Ladeira

A Presunção de Inocência e a Santinha da Ladeira

Ora, o mesmo se passa com o Engenheiro. Enquanto aquilo não julgar em transístor, é como se nada se tivesse passado. Mesmo que entre por os olhos a dentro! Assim é que é um estado direito! E a gente não queremos cá estados que não sejam direitos!

E prontos, lá aconteceu aquilo que os portugueses andavam todos à espera há um ror de tempo!

Não, ainda não foi desta que a Irmã Lúcia foi feita santinha. O que é uma vergonha, diga-se já, que até os primos já são. E ela também devia de ser, nem que fosse, olha, por ser da família. Mas prontos, Nossa Senhora é que sabe e eu respeito muito essas coisas.

E o que eu também respeito muito é a presunção da inocência. Que é uma coisa que há e que é muito importante. É como o respeito.

Por exemplos, agora já sabemos todos quais são as acusações que os do Mistério Público fizeram ao Doutor Sócrates. Ou Engenheiro ou que é.

Quer dizer, era Mistério mas também era Público, que a gente já sabíamos todos o que era, mas prontos. Agora foi mesmo vindo lá deles.

E ainda são umas poucas de umas acusações. Trinta e uma. Contei eu. Até contei duas vezes, não fosse saltar alguma. Que podia passar, acontece. É como os talões de desconto do Minipreço. A gente pomos aquilo tudo no porte-moedas, e parece que é sempre o desconto que a gente queríamos que fica preso entre o cartão de cidadão e o passe. A mim, rais-me parta, é sempre o desconto do atum. O dinheiro que já perdi com essa brincadeira...

E por falar em brincadeira, as acusações não são brincadeira nenhuma. Ai pois não!

Ele é dinheiro, ele é casas, ele é livros, ele é tudo e mais alguma coisa.

E amigos, que diz que ele era muito amigo do seu amigo, e olha, o amigo dele diz que também era muito amigo do seu amigo, neste particular, dele, do Sócrates, não é do amigo.

O amigo, até era bem pouco amigo, pelo menos dele próprio, que estava sempre a emprestar dinheiro ao amigo. E isto, já se sabe, quem empresta dinheiro aos amigos, perde o dinheiro e perde os amigos, já dizia a minha avó. Não sei é baseada em quê, que dinheiro foi coisa que ela nunca teve. Nem amigos, que a velha, Deus me perdoe, era enxertada em corno de cabra. Mas olha, já lá está.

E quem também já lá está, é o tal dinheiro.

Diz aquilo, a acusação vá, que ele arrecebia as luvas, para dar trabalho lá à companhia do amigo, que era uma companhia de construção civil. Que ainda é das que fazem mais dinheiro.

Só quem nunca precisou de um canalizador para le vir desentupir a pia, de um electricista para le vir mudar o quadro ou de um mestre de obras para le vir fechar uma marquise é que não sabe o dinheiro que aquela gente ganha!

Este era o grupo Lena. Eu ainda não li em lado nenhum, mas tenho para mim que Lena deve de ser a mulher do tal amigo do Engenheiro. Ou a filha. Que esta gente é muito amiga de dar assim os nomes da família às empresas. Como é o caso da Carris, que diz que era o nome da filha do homem que inventou os autocarros.

Se calhar, estou a fazer confusão com a Mercedes. Mas também já não sei onde é que pus a revista das Selecções onde li isso... Na casa-de-banho, não está.  Olha, deve de ter ido para embrulhar qualquer coisa...

Bom, estes milhões todos, a ser verdade, até me espanta como é que o homem, o Engenheiro, desculpem, arranjou tanta casa. Ele era na Rua Brancã, ele era em Cascais, ele era em Paris, ele era mais não sei onde. Com o preço a que isto está, só se tinha muito bons conhecimentos na Remax. E quem diz Remax, diz outra companhia qualquer.

Olha, como o Doutor Salgado era dono disto tudo, por o menos, foi o que eu ouvi, por maioria de razão, também havia de ser dono da Remax. Deve de ter sido por aí.

Isto anda tudo ligado.

Agora, a gente não podemos tomar por bom tudo o que ouvimos na televisão. Isto é só uma acusação. Eu também podia acusar aqui a do terceiro esquerdo de ser uma grande porca, porque leva os labradores, ou que é, à rua às tantas da noite, já quando os bichos estão mesmo aflitos, e que me deixam sempre um presente no ólio do prédio. E apanhas tu? Assim apanha ela.

Mas uma coisa é a gente acusarmos a mulher, outra coisa é ela ser mesmo culpada. Lá porque só ela é que tem cães daquele tamanho cá na escada, e os outros bichos serem todos assim mais a atirar pró pequeno, que não fazem tanto... xixi, vá prá abreviar... não podemos dizer assim de caras que a culpa é da mulher. Isto só se pode falar quando julgar em transístor, ou transístor enjulgado, que foi o que eu ouvi na televisão.

Ora, o mesmo se passa com o Engenheiro. Enquanto aquilo não julgar em transístor, é como se nada se tivesse passado. Mesmo que entre por os olhos adentro! Assim é que é um estado direito! E a gente não queremos cá estados que não sejam direitos!

Ou queremos? Ah, pois não!

Eu tenho pra mim, que a presunção de inocência é tal e qual como a Santinha da Ladeira.

A gente sabemos que aquilo a senhora, coitadinha, já nem devia de ser boa da cabeça. E que le dava assim para inventar umas coisas. Mas não era por isso que a gente não íamos lá a ver se curávamos os bicos de papagaio. E tínhamos as medalhinhas. Eu ainda tenho a minha.

Lá se era santinha ou não, não sei. É a tal presunção de inocência, lá está. A gente agora temos é de esperar por o juízo final, para ver qual é a sentença. Até lá, calados que nem um rato, que é o que pertence.

E com o Engenheiro, é a mesma coisa. Quem é que nos garante a nós, que aquela dinheirama toda não le saiu numa raspadinha? Pois, nisso não pensam vocês! Levam logo tudo para o mal.

Quando a mim, cá aguardo por estes dois julgamentos: o final, e o do Engenheiro. Ou o que se verificar primeiro. A ver vamos.

E por falar em ver: está-se-me a começar na rtp memória uma réprise da Banqueira do Povo! E eu gosto muito de ver a Dona Ónice trabalhar!  

Com licença. 

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