www.dn.ptJoana Petiz - 12 out 01:00

Há cada vez mais miúdos a saber o que é fígado gordo

Há cada vez mais miúdos a saber o que é fígado gordo

Diabetes, fígado gordo, apneia do sono, colesterol, dores nas articulações. A maioria das crianças não faz ideia o que são estas doenças. Infelizmente, bem mais do que seria de pensar já vivem com elas desde uma idade precoce. O alerta é lançado numa belíssima campanha de um grupo de saúde português e a pertinência é absoluta quando sabemos que pelo menos um terço dos miúdos portugueses tem excesso de peso e que o número de jovens obesos no mundo será, em cinco anos, superior ao de subnutridos. O que parece até mais irónico numa época em que muitos adultos ocidentais tiraram da sua dieta carne ou peixe ou ambos, em que se cozinha sementes e grãos para substituir proteínas que já não entram pelos alimentos tradicionais e em que se fala de dietas pálio e de líquidos e de sopas e de mais 30 mil teorias de vida saudável.

E depois, falamos em obesidade uma vez por ano, ficamos todos chocados com as estatísticas brutais e achamos tudo incrível. Mas o que é que realmente se faz para inverter esta curva perigosa? Muito pouco e sem grande método.

Em Bruxelas ultimam-se agora as regras para acabar com o leite achocolatado nas escolas, mas nos bares das ditas ainda há bolos e fritos, máquinas com bebidas gaseificadas, chocolates e pacotes de batatas. E ali mesmo ao virar da esquina, não falha a loja de doces ou uma cadeia de fast food. E nem adianta pensar em legislar sobre áreas limpas destas tentações nas proximidades de onde os miúdos passam os dias - o que fariam, por exemplo, as escolas que têm centros comerciais mesmo ao lado?

Antes de mais, e independentemente de escolhas individuais, entendamos que o homem é um animal omnívoro, logo, tem o aparelho digestivo adaptado à ingestão de diferentes tipos de alimentos. Come de tudo e é natural que assim seja. Pode haver intolerâncias, alergias, gostos e preferências que merecem adaptações, mas por princípio deve comer de tudo, de forma equilibrada. Dito isto, a alimentação é uma questão de educação, pura e simples.

Da mesma maneira que simplesmente proibir um miúdo de tocar no ferro de engomar tem altas probabilidades de acabar em queimadura, é muito mais eficaz explicar-lhe o efeito dos excessos e educá-lo para comer melhor do que tirar-lhe alimentos que ele eventualmente consegue encontrar (e comer) sem grande esforço.

Tal como os pais que deixam que os miúdos não comam ervilhas ou brócolos porque são pequeninos, coitadinhos, dificilmente os farão gostar dessas coisas depois de adultos - ou mesmo convencê-los que não podem ser eles a decidir o que vão comer, independentemente do que está no prato do resto da família -, uma criança que não costuma ter bolachas em casa mas tem sempre fruta em quantidade e variedade, irá preferir, na maioria das vezes, fruta a doces. E quando quiser um bolo ou chocolate, não há razão para não ter esse prazer ocasional, desde que o entenda como a exceção e não a regra - ou pior, uma recompensa por ter comido meia dúzia das tais ervilhas.

Acima de tudo, o exemplo que se dá em casa é importantíssimo: antes de passarem para aquela fase em que desafiam tudo quanto veem e ouvem, os miúdos aprendem por imitação. E isto serve tanto para a comida como para o exercício físico, a forma como ocupam os tempos livres, o tempo que passam de olhos postos num ecrã.

Como diz o pediatra Mário Cordeiro, "quem tem fome e comida à frente, alimenta-se; o resto, é uma questão de educação".

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