visao.sapo.ptMiguel Araújo - 12 out 08:33

The Night They Drove Old Dixie Down

The Night They Drove Old Dixie Down

Acabou o verão e a malta toda da banda chega ao fim de setembro num frangalho. Os magros mais magros, os gordos mais gordos, os cabelos mais brancos, olheiras de pirata

. Ontem viemos tocar a Londres e claro que depois meteu noitada em casa dum amigo nosso que mora cá. É fim de setembro e a malta está toda empenada. Acordei agora numa casa alugada nos arredores de Londres e da janela vê-se um casario óbvio daqueles de subúrbio inglês, de tijolo marron. Parece um cenário do Adrian Mole. Alguém lia os livros do Adrian Mole? Foram os primeiros livros que eu li na vida. Dormi três horas, estou a olhar pela janela e a lembrar-me das palavras do Robbie Robertson na Última Valsa do Scorcese. “The road was our school, it gave us a sense of survival and taught us all we know. You can’t press your luck, the road has taken a lot of the great ones…it’s a goddamn impossible way of life”. A estrada é realmente um campo de batalha. Mas estou-me a lembrar da Marcha dos Pinguins, aquele filme maravilhoso, e a pensar no concerto do Sardoal. Os pinguins atravessam a Antártida toda para ir desovar. Vão todos em cardume (claro que não se diz cardume, mas quem é que sabe como se chama um coletivo de pinguins?) Antártida afora, milhares deles, naquele andar de gigantone anão, toc toc, toc toc. Volta e meia cai um e os outros nem sequer olham. Morrem pinguins pelo caminho e os outros impávidos, a marcha não para, toc toc. O Nietzsche que me perdoe mas nós não somos assim. O advento do super-humano que aguente mais umas gerações mas quando cai um homem os outros deitam-lhe a mão. Seleção natural da espécie uma ova. Darwinismo my ass. Um tropeça e a marcha abranda, carrega-se o cocho. Por isso é que me lembrei do concerto do Sardoal. Foi agora há poucos dias, foi na primeira noite de outono. O Miguel Rodrigues, baterista, foi de ambulância para o hospital de Abrantes com uma gastroenterite de caixão à cova. Foi o verão, foi o verão, o verão é lixado, era o que nós dizíamos uns aos outros. Pronto, sem bateria não podia haver serviço. Mas o Bruno Ribeiro (o Bruninho da Graça, o Mass de Mira), que é o vibrafonista da banda, teve uma atitude de grande herói em combate. Uma atitude daquelas que dão sentido à nossa marcha, a dos homens. Ofereceu-se para o posto de baterista nessa noite, ele que nunca tinha sequer tinha posto a hipótese de alguma vez ensaiar estas músicas na bateria. A bateria não era dele e tudo ali lhe era obviamente desconfortável. Faltava uma hora para o concerto e ele foi-se sentar a um canto de baquetas na mão, pernas a tremer, a tamborilar no ar. É uma atitude bastante heroica porque, se corresse mal, corria mal para todos. Era mais do que a reputação de baterista do Bruno que estava em causa. Era a de todos. Qualquer pessoa teria dito, numa falsa modéstia paternalista, que não o faria, pois não queria por o coletivo (em última instância, o meu nome) em cheque, blá blá blá. Mas um gesto realmente heroico é assim. Ninguém lhe pediu concretamente que o fizesse, ele é que se ofereceu. Claro que não viria nenhum mal ao mundo se não houvesse concerto naquela noite. Mas para nós foi (é) importante saber que contamos uns com os outros para o que der e vier. Se um cai, a marcha abranda mas não para. A estrada é um campo de batalha mas não é nada Goddamn Impossible, Robbie. Tiveste galo. Não calhaste na nossa equipa. Se tivesses calhado com o Mass, com o Chico Francisco, com o Rómulo, com o Marito, com o Caruncho, com o Espada, com o Chiáça, com o Pedrito, com o Celso, com o Dioguinho, com o Pereira, com o Buraco, com o Miguel Ângelo, com o Martins, com o Rui Pedro, com o Gravato, com a Sofia, com o Perfeito, com o Bicalho, com o Ratinho, com o Ratão e com a Sardanisca, a vossa banda ainda aí andava.

Crónica publicada na VISÃO 1273 de 5 de outubro

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