www.jn.ptDavid Pontes - 13 out 00:02

Obviamente demitam-se

Obviamente demitam-se

Napa, na Califórnia, é uma das regiões vinícolas mais famosas do Mundo, mas por estes dias as imagens que correm por todo o lado não são no tom verde das suas vinhas, mas no tom cinza e vermelho dos brutais incêndios que assolam a região. Ontem eram 21 os fogos ativos naquele estado norte-americano e já tinham destruído 3500 edifícios e devorado mais de 77 mil hectares, uma área praticamente equivalente à cidade de Nova Iorque.

Com este volume de destruição, com povoações inteiramente arrasadas, até agora as autoridades contabilizavam 24 mortes, embora o número possa ainda aumentar, transformando-se no incêndio mais mortífero de sempre da Califórnia. Estes números ajudam-nos a enquadrar o gigantismo do incêndio de Pedrógão, onde num só concelho arderam 27 mil hectares, mas ajudam também a compreender a brutalidade da perda de vidas humanas, naquele fim de tarde trágico em que morreram 64 pessoas.

Até ontem, o Governo tinha um escudo para se defender da assunção de consequências políticas: o estudo pedido, com a concordância do maior partido da Oposição, a uma comissão técnica independente. O trabalho irrepreensível deste grupo de especialistas está aí e chegou a altura de prestar contas.

A avaliação diz-nos aquilo que já sabíamos, que existiram condições atmosféricas e de terreno excecionais para potenciar a tragédia, mas diz-nos aquilo que, no mínimo, pressentíamos: "às consequências catastróficas do incêndio não são alheias as opções táticas e estratégicas que foram tomadas".

Falhou estrategicamente o Governo que, apesar dos avisos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, não antecipou a Fase Charlie e por isso havia menos meios de prevenção do que seria desejável. Falhou taticamente o Comando Distrital de Leiria e o Comando Nacional de Proteção Civil no combate ao fogo numa série de decisões que revelam inconsciência e impreparação.

É evidente que se quisermos fixar atentamente o espelho falha muito mais coisas, do ordenamento florestal à limpeza das matas, da falta de carreiras na Proteção Civil ao desastre do SIRESP. Mas isso já não pode servir de álibi. É o momento de mostrar que aprendemos a lição, que queremos um futuro diferente e que ele começa agora, mostrando que há consequências pela má gestão que conduziu à morte de 64 portugueses. Por isso, deve demitir-se a cúpula da Proteção Civil e por isso deve demitir-se a ministra.

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