www.dn.ptPedro Filipe Soares - 12 out 01:00

Opinião - A guerra dos tronos no PSD

Opinião - A guerra dos tronos no PSD

O inverno está a chegar." Os mais atentos a séries de ficção saberão que a frase anterior é a mais repetida ao longo da Guerra dos Tronos. Esta série televisiva tem tido um enorme sucesso e colado milhões ao sofá. Num cenário medieval fantástico, com clãs, cavaleiros, reis e rainhas, cavalos, dragões, feiticeiros e magia, o enredo desenrola-se com uma luta maquiavélica pelo poder.

A ideia de começar este artigo com o anúncio do inverno, quando o nosso atual outono foi ocupado por temperaturas de verão, poderá parecer estranha. E nem se explica apenas com o meu fascínio pela série televisiva. O mote é o tiro de partida para as eleições internas do PSD e a luta que se avizinha. Guerra dos tronos, versão laranja e o longo inverno à espreita.

A situação não é boa para o PSD, já sabemos. O legado de Passos Coelho culmina num desastre eleitoral nas autárquicas, mas é o desfecho inevitável de quem esgotou o seu programa político numa mensagem agoirenta. Descontente, amargurado, esperava o diabo para ganhar a razão que não tinha. Teve azar, o diabo não percebeu o pedido e, perante tanto clamor, foi bater-lhe à porta. O prémio saiu à casa e a fatura também.

Deposto Passos Coelho, outros barões se levantam. E não há partido que tenha tantos barões ou baronetes, nisso o PSD é recordista. Um deles é Rui Rio, que já se tinha insinuado e feito anunciar várias vezes, desesperando por uma oportunidade. Agora chegou mesmo a vez de fazer esse caminho. Fez uma convenção de barões para pedir a permissão, garantiu esse apoio e apresentou-se à corrida.

Outros barões se inquietaram e as águas do PSD entraram em agitação. Os anúncios de candidatos ficavam-se pela confirmação da desistência. Os putativos saíam de cena um após outro, sempre por razões pessoais, sempre após grande ponderação. Esta procissão de desistentes parece, agora é claro, ter sido uma encenação para garantir a Pedro Santana Lopes uma entrada forte na campanha interna. O eterno candidato, não faltou novamente à chamada.

As cartas estão colocadas na mesa. Os dois candidatos, tudo indica, esgotam as apostas dos barões. Acima de tudo, mostram o esgotamento do PSD e a incapacidade de sair da encruzilhada em que se meteu. Sem programa, sem ideias e sem rasgo, canibalizado pelo CDS, o PSD ainda tem o programa da troika colado à pele. Agora, procura nos rostos do passado os caminhos para o futuro e a salvação do inverno a que parece condenado.

O que simboliza a candidatura de Rui Rio? O antigo presidente da Câmara Municipal do Porto é conhecido pelas suas posições erráticas, por assumir polémicas pelo simples prazer de polemizar e de ter visões muito redutoras da democracia: ainda se lembra quando Rio defendeu a suspensão de eleições em municípios endividados? Há ainda a defesa que fez de um maior controlo público dos órgãos de comunicação social ou a tradução de votos em branco em cadeiras vazias no Parlamento. Pérolas que demonstram o populismo de Rio que estará aí à espreita e a visão redutora que tem.

O legado de Santana Lopes fala por si, podendo ser avaliado pelo tempo de primeiro-ministro. Ele dirá em sua defesa que foram apenas seis meses, mas há marcas tão fortes que nos ficaram desse período que o tornam incontornável. Catastrófica é a designação dessa passagem de Santana pela governação. Esse tempo não deixou saudades ao PSD e é de má memória para as portuguesas e os portugueses.

O futuro do PSD não será radioso e ainda bem. O inverno que está a chegar ao PSD é o da sua inutilidade para a vida das pessoas. Não é necessário para aumentar pensões, salários ou direitos. Pelo contrário, parasita na possibilidade de uma crise.

O Orçamento do Estado para 2018 pode ser mais um balde de água fria para o PSD. O aumento do salário mínimo (terceira vez em três anos), o descongelamento das carreiras da administração pública até ao fim da legislatura, o combate à precariedade no Estado, o fim do abuso das cativações, a valorização do Serviço Nacional de Saúde ou da escola pública, um concurso extraordinário de vinculação de professores, a descida do IRS pago pelas famílias, o aumento extraordinário das pensões, a eliminação dos cortes no subsídio de desemprego são as escolhas que devemos concretizar. Assim, as pessoas estarão melhor, apesar de o PSD continuar na sua agonia.

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