www.dn.ptJoão Taborda da Gama - 17 set 01:00

Dentro Do Género - Voltar ao mundo

Dentro Do Género - Voltar ao mundo

As aulas que vim dar a São Paulo, sobre a regulação da economia da partilha, alunos empenhados de sete países, e de umas quinze cidades diferentes, tiveram como pano de fundo a glocalização, resultado paradoxal de uma globalização que homogeneíza culturas, standartiza soluções e problemas mas gera e depende de vivências e respostas absolutamente localizadas. Só que ao invés de uma absoluta fragmentação compartimentada, cada vez mais estas respostas localizadas se influenciam e determinam mutuamente. No plano das políticas públicas e do direito, o ponto central é o facto de as cidades de diversos países começarem a estabelecer modos mais ou menos formais de regular em conjunto, ou em colaboração, estes novos fenómenos, através de iniciativas, networks, alianças, fóruns. Este fenómeno, de direito global local, tem virtualidades (melhores práticas, economia de escala) e problemas (princípio democrático, transparência, clonagem legislativa).

As aulas que vim dar a São Paulo, sobre a regulação da economia da partilha, alunos empenhados de sete países, e de umas quinze cidades diferentes, tiveram como pano de fundo a glocalização, resultado paradoxal de uma globalização que homogeneíza culturas, standartiza soluções e problemas mas gera e depende de vivências e respostas absolutamente localizadas. Só que ao invés de uma absoluta fragmentação compartimentada, cada vez mais estas respostas localizadas se influenciam e determinam mutuamente. No plano das políticas públicas e do direito, o ponto central é o facto de as cidades de diversos países começarem a estabelecer modos mais ou menos formais de regular em conjunto, ou em colaboração, estes novos fenómenos, através de iniciativas, networks, alianças, fóruns. Este fenómeno, de direito global local, tem virtualidades (melhores práticas, economia de escala) e problemas (princípio democrático, transparência, clonagem legislativa).

As aulas acabaram, e ia escrever que agora é preciso voltar ao mundo. Mas não é verdade. A conjugação da tecnologia, com a vida adulta e diferenças horárias de menos de doze horas, tornam impossível sair do lugar. Os e-mails e trabalhos dos clientes não abrandam, é possível entrar para a Renascença em direto (às cinco da manhã), o drama dos horários da escola da Laura (ficou à tarde), o teto que caiu (inundação do andar de cima), a osga da varanda que morreu (o Jaiminho e eu ficámos tristes, o resto da família já a queria matar há muito), estes textos para o DN (que me atrasam a saída para o Sesc Pompeia). Cumpre-se a visão daqueles que viam na globalização a morte da distância, a morte do lugar. No Lost in Translation, Bob e Charlotte usam um lugar diferente a que não pertencem e que não entendem para questionarem se pertencem aos lugares de onde vieram. Um lugar que não existe e que ambos temem querer muito que passe a existir (estão-se a despedir desde o início um do outro, sugerem-me). Sofia Copolla explora isso magistralmente, o telefonema de Charlotte para uma amiga interrompido porque tem de tratar dos filhos, a mulher de Bob que lhe envia amostras de carpetes e os telefonemas sempre interrompidos pelo mais imediato e mais próximo, o descompasso entre o lugar e a bolha. O filme é de 2003, uma idade da pedra digital, com telefones móveis que só davam para falar, havia faxes, ainda havia lugares. Hoje não teria sido possível fazer esta mais bela e mais dura reflexão sobre a nossa vida.

Talvez a única maneira de sair do lugar seja levar o lugar atrás. E também por isso quando o André me ligou e disse que ia largar tudo para dar a volta ao mundo com a Carolina e os filhos não estranhei (a viagem está em blueolive.org). Como podia estranhar? A Carolina e filhos que me perdoem, mas esta não foi a primeira volta ao mundo do André. Antes disso já ele e eu tínhamos ido a esses sítios todos, e mais outros. No quarto dele, no meu quarto, no chão da sala, devemos ter dado mais de cem voltas ao mundo. Não houve hotel de cinco e seis estrelas onde não tivéssemos estado, resort que não tivéssemos experimentado. Não havia internet, nem TV por cabo, nem satélite, nem programas de viagens na televisão que era a preto e branco, nem sequer revistas de viagens. Foram dias e dias de conversa infinita sobre os melhores hotéis do mundo, roteiros e percursos de viagem, os melhores quartos em cada hotel, os prémios. Centenas de rankings, listas, tops, companhias aéreas, programas de milhas, as melhores suítes. A sensação que tenho, que tinha, é que sobre futebol podíamos falar com toda a gente, mas de viagens era só um com o outro.

Quando viajávamos com os nossos pais também falávamos das camas onde dormíamos, das cidades, das pessoas, dos restaurantes, das comidas, depois das bebidas, das saídas. O atlas ia-se construindo, íamos verificando aquilo que imagináramos. Também viajámos juntos. Uma subida ao Pico em que vimos nascer o Sol lá de cima, um fim de ano em Sevilha em que não vimos o Sol, quinze dias em Marrocos em que vimos sóis de vários tons (o recato de uma publicação dominical aconselha a não desenvolver nenhuma destas viagens). Mas se estas viagens que fizemos juntos foram importantes, as mais importantes de todas foram as viagens que fizemos sem sair do treze, que era o número do prédio onde ambos vivíamos, no Lumiar, ele no sétimo, eu no rés-do-chão. E isto podia ser apenas sentimentalismo meloso de dois amigos que fizeram neste ano quarenta anos e se conhecem desde os quatro, que também é, mas é mais do que isso. O André tem um instinto fortíssimo para tudo o que tenha a ver com viagens, um instinto trabalhado meticulosamente, que lhe permite, para separar o trigo do joio, indicar a cada um a cama onde deve dormir, sugerir percursos, recantos, pormenores. Foram milhares de horas a pensar nisso, milhares de páginas. É a ele que recorro nas minhas viagens, trocando ideias, pedindo conselho.

Um pormenor. Acabou de acontecer agora em São Paulo, como acontece sempre desde que me lembro. Chego a um quarto de hotel, no meio dos menus, das bíblias, das listas telefónicas, blocos de notas, cardápio de serviços que não interessam nada, e lá está um catálogo da rede de hotéis de que o hotel faz parte. E o meu reflexo é sempre o de pegar no catálogo e enfiar dentro da mala para levar para Portugal e dar ao André para a próxima tarde, o próximo ranking.

Ah, e há a Carolina, que arrisca arriscarem juntos, que é a única coisa que conta num casal. Perguntem ao Bob e à Charlotte.

1
1