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Cinema - Ben Wheatley: ″Havia um pessimismo reinante nos anos 1970″

Cinema - Ben Wheatley: ″Havia um pessimismo reinante nos anos 1970″

Conversa com O realizador de Arranha-Céus, uma adaptação debochada do romance de J.G. Ballard, em exibição nos cinemas nacionais

J.G. Ballard não é fácil para se adaptar ao cinema. Ainda mais difícil é quando na memória está o fabuloso Crash, de David Cronenberg. A ideia do infilmável era desmontada pelo cineasta canadiano. Há dois anos atrás, Ben Wheatley apresentou ao mundo a sua ideia de versão de Arranha-Céus/High Rise, um dos romances mais populares do escritor. O filme foi recebido com alguma frieza no festival de Toronto e pegava no imaginário de Ballard com uma rugosidade extrema.

Há uns meses atrás, quando foi convidado do Festival de Macau, Wheatley falava ao DN sobre o seu cinema e a ousadia de convocar uma plataforma de sátira árida a este universo. "Fiz dois filmes centrados nos anos 1970...É estranho, já há muito que não faço nada contemporânea. O que é que isto quererá dizer?", questiona. Pergunta retórica que nos obriga a lembrar que os dois primeiros filmes que vimos em Portugal, Uma Lista a Abater (2011) e Assassinos de Férias (2012), era bem contemporâneos e com um olhar cru sobre um certo mal-estar britânico. "Quis fazer este porque essa década fascina-me e assusta-me ao mesmo tempo. Basta olhar para uma foto desse período e fico logo nervoso. A explicação talvez possa estar porque foi nesse período que cresci. O meu olhar em Arranha-Céus não é nada nostálgico nem pode ser comparado àqueles filmes todos dos anos 1960 que a geração anterior fazia. Lembro-me que havia um pessimismo reinante nos anos 70. Sempre ouvia dizer que mais tarde ou mais cedo a minha escola iria explodir", diz. Obviamente, há uma explosão de crónica de costumes nesta adaptação que nos conta como os inquilinos de um prédio de luxo vão começando a perder o controlo do seu comportamento. À medida que o filme avança tudo fica mais explosivo.

O humor de Ben Wheatley é torcido e está patente em todos os seus filmes. Quando lhe perguntamos se não ficou magoado com alguma da má imprensa que recebeu com este filme, prefere falar das críticas que ouviu sobre a recriação do guarda-roupa da época: "diziam-me que errámos no fato do Tom Hiddleston, mas não é bem assim. Sei que é comum um homem de 25 anos deixar de comprar roupa contemporânea e começar a preferir roupa de outro período. Ele, para ser trendy, comprava roupa dos anos 1960, mas é claro que gosto de ser exato".

Além de Tom Hiddleston, o elenco de Arranha-Céus mete respeito. Siena Miller, Luke Evans e Jeremy Irons são alguns dos nomes sonantes. Curiosamente, Irons, enquanto promovia O Homem que viu o Infinito confessou que viu problemas neste filme.

Depois de Arranha-Céus, Wheatley quis fazer um filme de ação à Tarantino. Free Fire estreou também no Festival de Toronto e piscava o olho ao público americano com um cast que inclui Brie Larson e Armie Hammer, tendo como produtor Martin Scorsese. Uma ideia radical: tudo se passa durante um tiroteio num armazém. "Para os atores não foi nada fácil. São mais novo de que alguns e não aguentaria estar tanto tempo no chão a levar com disparos e poeira! Tratou-se de um trabalho muito físico. Eles passam mais de uma hora aos tiros uns com os outros e a rastejar. Duríssimo! Os atores são feitas para sofrer... ".

A seguir, está já na pré-produção de um novo filme, Freak Shift, filme do fantástico com a sueca do momento, Alicia Vikander. Wheatley, goste-se ou não, é dos realizadores europeus com maior facilidade de conseguir grandes orçamentos.

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