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Ana Paula Vitorino: “A minha preocupação foi dizer a António Costa que tinha cancro e estava disponível para sair”

Ana Paula Vitorino: “A minha preocupação foi dizer a António Costa que tinha cancro e estava disponível para sair”

Foi quase em simultâneo. Há quase ano e meio tornou-se ministra do Mar e doente oncológica. Acumulou as pastas sem faltas ao trabalho. Negociou em ambas as frentes — adora um bom braço de ferro, seja com estivadores ou com a doença que lhe ensinou que não se pode adiar a vida. O cancro perdeu

Ana Paula Vitorino recebe-nos no seu gabinete, no Terreiro do Paço. Para as fotografias basta descer a escadaria de pedra, virar à direita, dar uns passos até ao Cais das Colunas que ela mandou repor, em 2008, quando era secretária de Estado dos Transportes, no governo Sócrates. Agora, aos 55 anos, é ministra do Mar, ela, menina de Maputo, que não sabe viver sem ele. Muito tempo longe e surge o desconforto, um vazio. Gosta de portos, navios, contentores, do vento salgado. Ali a aragem é quente, doce, de rio, mas serve. Desce quase até molhar os pés e sorri. Ri-se até. Fala de assuntos sérios à mistura com piadas. É preciso brincar com a vida, e com a morte também. Esteve próxima. O cabelo curto não é opção, é o lado de fora do cancro que lhe diagnosticaram dentro, agressivo, há pouco mais de ano e meio. Não tinha ainda dois meses de Governo. Fala pela primeira vez sobre o assunto. Há coisas que conta a poucos. Contou logo ao Eduardo, o marido, que é também ministro. E a António Costa. Ali naquele gabinete. Só mudaram os sofás. Agora que está bem quer dizer que o combate é duro, vai-se às cordas mas nem sempre se cai no chão. Não deixou de trabalhar. Enfrentou duas greves de estivadores, negociou com Bruxelas sardinha suficiente para todos os Santos, deu mais um passo (dos grandes) no alargamento de Portugal pelo mar. Porque aí não há piadas. No trabalho é exigente, combativa, intolerante ao erro. Esta semana recebeu em Lisboa os seus congéneres internacionais, no Oceans Meeting. Ana Paula era das poucas ministras. A conferência internacional foi na Fundação Champalimaud. Ali, no exato sítio onde o médico lhe disse que o cancro regrediu.

O mar ainda é um mundo de homens?
O mundo do mar tem cada vez mais mulheres. Este verão, por exemplo, entraram duas na comissão de limites da plataforma continental das Nações Unidas, que atualmente analisa a extensão do território marítimo português para lá das 200 milhas. São as primeiras. No meu Ministério, uma boa parte das nomeações para ‘número 1’ foi para mulheres: para a administração dos portos de Lisboa e de Setúbal, para a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma, para a presidência da Docapesca, na Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos há duas mulheres subdiretoras. E eu, a ministra. É um sinal dos tempos.

Nomeia mulheres de forma consciente?
Sim. Obrigo-me a ter sempre opções entre homens e mulheres, com vários currículos, para fazer equipas coerentes em termos de competências e valências. Mas nesse puzzle tento que um terço sejam mulheres — até porque agora é assim que dita a lei. Aliás, já fiz finca-pé porque num organismo, de tutela conjunta, iam ser nomeados apenas homens. Não permiti. Ainda me disseram que a lei ainda não estava em vigor, mas expliquei que era uma questão de princípio. Outras, antes de mim, ajudaram a mudar esse cenário e eu também estou a fazer o mesmo.

Concorda com as quotas?
Não posso deixar de concordar. Como muitas mulheres que construíram as suas carreiras a ferro e fogo, ao princípio sentia-me muito incomodada com as quotas. Mas quem tem contactos com a política sabe que não pode deixar de ser a favor. E nós, que chegamos a estes lugares, não podemos ser golden skirts (saias douradas), não podemos achar que, se nós fizemos este percurso as outras mulheres também o podem fazer sem ajuda. Não é verdade.

Tirou Engenharia no Instituto Superior Técnico, seguiu aí a carreira académica, foi secretária de Estado na área dos Transportes. Sentiu-se discriminada neste percurso?
Senti e ao longo de muitos anos. A discriminação não existe quando tiramos cursos ou mestrados, nem quando fazemos o doutoramento. O problema são as escolhas e isso vê-se bem à medida que nos dirigimos para o topo. Quando toca a escolher os petit comités de decisão, administradores de empresas, dirigentes e ministros, há uma tendência para escolher perfis masculinos, porque se considera que são mais adequados para essas funções. A nossa sociedade ainda é construída com base nestas discriminações ocultas. Até no Técnico, no início dos anos 80, a interpretação do comportamento era diferente conforme fossemos rapazes ou raparigas. Os rapazes podiam fazer tudo, as raparigas não tanto.

Como assim?
Se falássemos a um professor de forma mais simpática era porque, eventualmente, estávamos a ‘fazer olhinhos’. Tive um professor que, numa oral de defesa de nota, disse a uma colega: “A menina, se fosse para casa”... Não a mandou ir coser meias, mas insinuou. Ainda assisti a estas coisas, até por parte de alguns colegas. Mas aqui estou, ministra. Tive de abdicar de uma série de coisas da minha vida, trabalhar de dia e de noite, para provar que uma mulher é tão boa quanto um homem.

De que abdicou?
Desde logo, em termos familiares. Não tive filhos. Havia e há um problema de compatibilização da maternidade com a ascensão na carreira em alturas e idades em que é importante a presença e o empenhamento. Não é numa mulher de 55 anos. Quando se tem 30 e se trabalha em áreas mais próximas do poder de quem decide, quando se fica grávida tem-se menos disponibilidade para a profissão. Não se pode estar a fazer noitadas nem a acabar um relatório urgente. E, quando se dá por ela, aquele colega homem passou-nos à frente. E é o relógio biológico a dizer que é agora ou já não é, mas também é a nossa carreira a dizer ou é agora ou já não é.

Optou pela carreira. Foi difícil?
Não foi uma decisão, foi um processo. Adia-se, adia-se, adia-se até ao momento em que já não se adia mais porque a idade decidiu por nós. Não estou a dizer que isso para mim foi um custo ou não foi. Adoro crianças, mas o meu instinto maternal fica satisfeito com os meus sete sobrinhos e quatro enteadas.

É sempre tão firme nas decisões?
As minhas características profissionais mais marcantes são a resiliência e a combatividade.

Gosta do combate?
Não é bem gostar... Bem, gosto um bocadinho.

Olhando para as notícias, parece que está sempre em negociações. Quais foram as mais desafiadoras?
Há umas que não posso contar. [risos]. Mas lembro-me da greve de pilotos da TAP, em 1997, quando era chefe do gabinete da Secretaria de Estado dos Transportes. A concessão do Metro Sul do Tejo também foi dura e difícil. Mas eu não me deixo intimidar. Há pessoas que se deixam. Eu não. Não tenho cedências fáceis. Não me considero pior negociadora por não conseguir chegar ao fim de uma negociação com sucesso. Não chegar a acordo pode ser uma solução. Se tivermos de abdicar de mais do que aquilo que é razoável, então não vale a pena.

Lisboa. Menina de Maputo, veio com doze anos para a capital. Os pais, alentejanos, queriam os filhos na Universidade e Portugal ainda era um país centralista — era ali ou Coimbra. Os dois mais velhos foram para Medicina, Ana Paula, do contra, foi para Engenharia. Como secretária de Estado dos Transportes mandou repor o Cais das Colunas

Lisboa. Menina de Maputo, veio com doze anos para a capital. Os pais, alentejanos, queriam os filhos na Universidade e Portugal ainda era um país centralista — era ali ou Coimbra. Os dois mais velhos foram para Medicina, Ana Paula, do contra, foi para Engenharia. Como secretária de Estado dos Transportes mandou repor o Cais das Colunas

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No início do mandato teve logo de lidar com as greves dos estivadores do Porto de Lisboa...
Se fosse fácil não era para mim. Nunca ninguém me deu nada fácil para fazer. Quer operadores portuários quer trabalhadores representados pelos sindicatos estavam muito radicalizados, com as áreas políticas a dar a força a cada uma das partes. Mas foram sérios, sentaram-se à mesa para assumirem compromissos, com cedências de ambas as partes. Apesar da pressão pública, assumi-me como fiel da balança.

Por essa altura surgiu outra luta. Soube que tinha cancro.
Há coincidência horríveis. Quando fui secretária de Estado [de 2005 a 2009] também tive um cancro. E ninguém soube, a não ser o primeiro-ministro da altura. Mas foi diferente, menos agressivo. Não tive de fazer quimioterapia, como agora. Por isso, brinco: nada de cargos mais elevados! Não posso ser Presidente da República, porque então nem sei o que me acontecerá! [risos]

Estava no Governo há menos de dois meses.
Foi-me diagnosticado a 13 de janeiro de 2016. Descobri por acaso, como acontece às vezes nestas coisas. Foi muito complicado. Além da minha irmã, que é médica, e do Eduardo, que é o meu marido, o meu sentido de urgência foi para com o doutor António Costa. Disse-lhe que tinha de falar com ele, perguntou-me se podia ser por telefone. Respondi que poder, podia, mas não era muito conveniente. E falámos, ali naquele sítio [aponta]. Eram outros sofás, ainda mais horríveis do que estes [de veludo verde]. Por muito que seja uma mulher de armas, estava numa situação mais fragilizada. A minha primeira preocupação foi dizer-lhe que tinha cancro e que estava disponível para sair do Governo. Ele foi de uma solidariedade à prova de bala. Respondeu-me: “Não, quero muito ter como ministra do mar a Ana Paula Vitorino. Agora, quem vai decidir são os médicos”.

Sentiu-se confortável com a decisão?
Senti. Sou uma mulher prática, já sabia que ia viver momentos muito complicados com a quimioterapia, mas também sabia quando é que ocorriam. E os médicos foram absolutamente fantásticos.

Onde foi acompanhada?
Na Fundação Champalimaud. A minha irmã é médica aí e, por coincidência, o médico que me diagnosticou ia começar a trabalhar lá naquela semana. Têm sido fora de série.

Isso é importante...
É, mas também depende muito da forma como nos colocamos. Ou uma pessoa se dá por vencida ou não se dá. Eu quis logo saber quais eram as probabilidades [de sobreviver]. Fiz as continhas todas. No princípio, o médico não me queria responder. Mas tratei logo de dizer: “Ó amigo, vamos lá a ver se a gente se entende...” Foi mesmo assim.

Foi mais uma negociação.
Foi. A probabilidade de me safar era muito baixa, era um cancro muito agressivo. Perguntei ao médico se aquela probabilidade era calculada com base nas estatísticas europeias ou mundiais. Era global. Por isso, descontando os dados de África e da América Latina, fiz as contas. Nesse caso, a probabilidade há de ser mais elevada. É o dobro. É uma boa base de trabalho.

Seguiu estritamente as ordens dos médicos?
Isso é que era doce! É fazer o que se tem de fazer, com a opinião dos médicos e, pelo meio, contando umas anedotas para eles se rirem e para eu me rir também. Qual é o segredo para sermos felizes? É viver com a maior garra possível. Há uma coisa que aprendemos logo na primeira vez em que ficamos doentes e que, depois de adoecermos uma segunda vez à séria, consolidamos: estamos sempre sujeitos a que nos aconteça alguma coisa. Estamos habituados, por uma questão de sanidade mental, a não pensar na nossa dimensão finita. Mas ela existe.

Já está controlado?
So far, so good. Mas sei lá o que me vai acontecer. Mas agora esse assunto deixou de me interessar. Faço os exames de controlo de três em três meses e está tudo bem. Vivo com o meu marido em Almoster, no concelho de Santarém. Temos uma casa muito engraçada, no campo. Adoro plantar coisas. Já tenho dois limoeiros em grande produção. É bom ter um espaço para pensar, porque ganhamos um certo distanciamento em relação às coisas.

Não deixou de trabalhar. Como foi possível?
Tive do meu secretário de Estado [das pescas, José Apolinário] um apoio inexcedível. O mal de se fazer quimioterapia não é quando se está a fazer, mas sim nos dias a seguir. Encostava as sessões à sexta-feira, para poder ter o sábado e o domingo para descansar. E acontecia algo de divino: ressuscitava ao terceiro dia! [risos]. A chatice maior foi engordar desalmadamente. Mas houve dias muito complicados. O dia mais difícil [25 de fevereiro de 2016] foi na semana de preparação do Conselho de Ministros dedicado aos assuntos do mar, com o então presidente Cavaco Silva. Coincidiu com um Conselho de Ministros, duas sessões de radioterapia, uma sessão de quimioterapia e sete horas de discussão do Orçamento do Estado na minha área. Fiz rádio, fiz quimio, depois fui para o Conselho de Ministros, mais tarde arranquei para a Assembleia para discutir o Orçamento do Mar, e depois voltei à Fundação Champalimaud, às 21 horas, para fazer a segunda sessão de rádio. O pessoal médico foi fantástico. A Fundação fecha às 17h30, mas eles estiveram a ver-me na televisão até às 21h, esperaram por mim, fizeram a segunda sessão, e depois fui para casa. Na semana seguinte, utilizei pela primeira vez a peruca e lá fui para o Conselho de Ministros dedicado ao Mar. Esse cabelo é seu?, perguntaram-me. É meu é, que já foi pago! [risos]

Usou peruca porque não queria perguntas?
Não faço comentários sobre o cabelo dos outros e, por isso, espero que os outros não façam sobre o meu. Se me apetecesse agora pintar o cabelo de loiro, pintava; se me apetecesse pintar de preto, pintava. Tirei-a quando me começou a incomodar muito. Estava demasiado certinha para mim e fazia muito calor. Agora gosto do cabelo curto. E já cresceu bastante, já tive de o cortar duas vezes. Até comprei uma daquelas máquinas para cortar rente.

Ao tirar a peruca assumiu o cancro. Antes era tabu. Agora já é mais normal?
Há uma desmistificação. As pessoas devem assumir aquilo que têm. E é bom para todos que a sociedade não rejeite nem discrimine esta ou qualquer doença. As pessoas que estão doentes não estão impedidas de trabalhar.

A doença levou-a a repensar alguma coisa?
Com a idade ficamos mais tolerantes, mas também menos dispostos a abdicar de princípios. Só devemos estar nas coisas quando vale a pena estar nas coisas, quando achamos que somos um valor acrescentado, por um lado, e que estamos a trabalhar a bem de qualquer coisa, por outro. Não vale a pena estar nos sítios para ter prestígio. Reforcei a certeza de que este era o caminho. E também sou um pouco mais assumida em algumas coisas. Costumo dizer que não me vendo em separado: ou me querem assim, com frontalidade, ou não me querem de todo.

O pomar. Trabalha na Praça do comércio, no coração da vida urbana, mas vive no campo, em Almoster (Santarém) com o marido, Eduardo Cabrita, ministro-adjunto de Costa. Tem uma horta e dois limoeiros, mas a geada afetou-lhe a produção

O pomar. Trabalha na Praça do comércio, no coração da vida urbana, mas vive no campo, em Almoster (Santarém) com o marido, Eduardo Cabrita, ministro-adjunto de Costa. Tem uma horta e dois limoeiros, mas a geada afetou-lhe a produção

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Não mudou nada, então?
Continuo a ser exigente como era, mas reposicionei as minhas relações pessoais. Não podemos abdicar das nossas pessoas, não as podemos deixar para trás, irmãos, maridos, filhos. Uma coisa é trabalhar, fazer noitadas, levar trabalho para casa, mas não se pode adiar a vida. E temos de ter tempo. Se uma pessoa precisa de uma palavra de conforto, é hoje que temos de a dar e não daqui a dois anos, quando sairmos do Governo.

De onde vem essa resiliência?
Acho que as características não se ganham só por via genética mas também por aculturação. A minha resiliência vem de Moçambique e do Alentejo. Nasci em Maputo e sou alentejana por via genética — os meus pais são de uma terrinha chamada Vila do Cano, em Sousel. Quer os alentejanos quer os moçambicanos são gente resiliente. São duas origens de vistas largas. Em África, os horizontes tinham sempre vista para o mar e o ar cheiro a terra.

Viveu em África até que idade?
Até aos 12. O meu pai é militar. Eu e a minha irmã nascemos na primeira comissão que ele fez em Moçambique. O meu irmão mais velho tinha quatro meses quando os meus pais foram para lá. Foi em Maputo que fiz parte da escola primária e do ciclo preparatório. Viemos para Lisboa em 1974 quando a comissão do meu pai terminou. Os meus pais queriam que os filhos entrassem para a Universidade. A minha mãe sempre disse às filhas: “Minhas queridas, vocês podem fazer o que quiserem, mas há uma coisa que é fundamental: a independência económica.”

Porque escolheu Engenharia Civil e a área do planeamento urbanístico?
O meu irmão e a minha irmã, mais velhos, foram para Medicina. Como eu era a mais nova, achava-se que também era para aí que devia ir. Quanto mais me diziam que “isso é para homens”, mais eu achava piada. Quando entrei para o ensino secundário, fiz logo questão de blindar a minha escolha e escolhi Geografia em vez de Ciências Naturais, obrigatória para Medicina. Foi aquela fase da adolescência... Já na universidade tive professores que foram determinantes na minha escolha pelo urbanismo e planeamento territorial. Além da carreira académica, comecei a fazer estudos como consultora internacional.

E quando se deu a sua entrada na política?
Com os Estados Gerais do engenheiro António Guterres. O doutor Francisco Murteira Nabo era responsável pela área dos transportes e, em 1993, resolveu inovar e criar um grupo de trabalho com jovens, que não tivessem cargos partidários. E foi ao Técnico buscar uma jovenzinha de 30 anos. Foi assim que entrei na política, para fazer a estratégia de transportes do Partido Socialista.

Já era filiada no PS?
Filiei-me quando ainda estava a fazer o mestrado, influenciada por uns colegas ex-lutadores antifascistas. Sou filiada há mais de 30 anos. Sou daquelas pessoas que acham que, em termos ideológicos, não existem independentes. Independentes são os não assumidos. Era docente do Técnico e durante anos ninguém soube o que é que eu era ou deixava de ser. Acho que nem quotas pagava. Lá acabei por regularizar a situação. É nessa altura que surge o engenheiro João Cravinho [ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território, no primeiro Executivo de Guterres]. Adoro-o, é uma referência profissional, ética, política, de carácter. No ano passado, quando fez 80 anos, um grupo de amigos juntou-se e fez um livro com depoimentos pessoais. Escrevi-o em jeito de brincadeira, mas é o que sinto: o engenheiro Cravinho é a pessoa que eu gostava de ser quando for grande. O Eduardo, o meu marido, também escreveu um texto e lembrou aquilo que eu não tive coragem de escrever: foi o engenheiro Cravinho que fez com que nos conhecêssemos.

Está a falar de Eduardo Cabrita, o atual ministro-adjunto.
Há pessoas que criticam o facto de sermos família, mas a verdade é que temos percursos de vida completamente autónomos. Conheci o doutor António Costa quando tinha 17 anos, tínhamos amigos comuns. Já o meu marido conheci-o muito mais tarde. Ele tem a sua carreira feita. Entrou para a política ativa como alto-comissário do engenheiro João Cravinho e eu chego por via dos transportes. É como em tudo na vida: acabámos por coincidir no tempo. O Eduardo é uma grande referência para mim, independentemente dos sentimentos que tenho por ele enquanto sua mulher. É uma pessoa e um político que admiro muito, pelo seu carácter, pela ética republicana e socialista.

Coincidiram como secretários de Estado, agora como ministros. Como lidam com as críticas?
Antes da formação do Governo, há um camarada que me diz: “É uma chatice esta coisa das oportunidades. Tu só não vais para ministra porque de certeza que o Eduardo Cabrita vai.” Achei aquilo uma coisa bizarra. Primeiro, porque eu nunca entrei naqueles jogos de quem vai ser o quê. Eu sou livre, nunca fiz nada, isto ou aquilo, para ser ministra. Nunca me ocorreu ser secretária de Estado há 10 anos, quanto mais ser ministra! Agora, não me parece que as pessoas se tenham de tapar umas às outras, como não me parece que seja por via conjugal que as pessoas devam ser nomeadas para este ou aquele lugar.

Falam de política em casa?
Porque temos de preservar a nossa independência em termos de carreira, há coisas sobre as quais não falamos. Não discutimos pastas. Não falamos nem perguntamos. Vemos o Telejornal e vamos comentando, mas assim como eu comento com o meu secretário de Estado ou com um ou outro ministro de quem sou amiga.

Mas tinham falado sobre a hipótese de ambos virem a ser ministros?
Não. É como o Eduardo diz: é tudo uma gestão de expectativas. Só se põe a fasquia muito alta para aquilo que está nas nossas mãos fazer e tentar. Fiz muita questão de ajudar António Costa a preparar a agenda para a década na área do mar e a transpô-la para o programa eleitoral. Na altura, não tinha expectativa rigorosamente nenhuma. Devo dizer que até tinha recebido um excelente convite de trabalho fora de Portugal.

Com a pasta de ministra do Mar recebeu o dossiê da extensão da plataforma continental portuguesa, em discussão nas Nações Unidas. Portugal pode ganhar 3,8 milhões de km2. O que ganha a economia?
Quero deixar clara uma coisa: é mais mar mas não é para furar, ao contrário do que tem sido noticiado. Essa não é a nossa prioridade. O que existe no fundo do mar não é só petróleo, nem minerais, ouro, cobre, cobalto, manganês. Parece que temos tudo isso e muito de tudo, principalmente minerais, mas em matéria de aproveitamento económico, o que nos interessa é a exploração de organismos vivos, genéticos, biológicos para a farmacêutica, para a biotecnologia azul. O nosso alvo são os medicamentos, a área da saúde e da cosmética. E para isso não é preciso abrir crateras. Também podemos potenciar as energias oceânicas. E isso não cria problema nenhum ambiental, bem pelo contrário. Não estamos a matar linces e a extingui-los.

Com a pesca esse problema põe-se, daí as quotas obrigatórias. Os pescadores portugueses podem ficar sem matéria-prima?
68% das nossas espécies sujeitas a quotas têm o stock em bom estado. Quanto ao resto, temos problemas muito semelhantes aos que existem noutros países da União Europeia. E isso tem que ver com as alterações climáticas.

É o caso da sardinha?
Esse é um caso muito interessante, que estamos a analisar. Aliás, determinei que este ano se realizasse mais um cruzeiro de monitorização dos stocks. Porque as alterações no clima não estão a fazer apenas com que as espécies migrem para outros sítios com água mais quente. Também levam a transformações nos ciclos de vida, fazendo com que os períodos de desova e de crescimento sejam diferentes. E pode acontecer que o estado dos stocks da sardinha esteja melhor do que o indicado, a acreditar nas informações empíricas dos pescadores. As espécies estão a desovar mais tarde.

Mais do que reduzir quotas de pesca, a solução pode passar pela mudança dos períodos e época de pesca?
Exatamente. Existe uma certa arrogância da sociedade face a determinadas classes profissionais e devo dizer que os pescadores têm sido exemplares em termos de comportamento. O secretário de Estado das Pescas criou uma comissão de acompanhamento da pesca do cerco, que se reúne com frequência. São os próprios pescadores que fazem sugestões relativas à gestão de stocks. Agora, por sua sugestão, vamos diminuir a quantidade semanal e diária de sardinha, para prolongar o período de pesca.

Para o ano, não vai faltar sardinha para os Santos Populares?
No ano passado, Portugal e Espanha, em conjunto, fixaram 17 mil toneladas para a quota de sardinha. A sugestão da UE eram 1500 toneladas, não dava nem para os Santos. Temos de ser razoáveis e questionar qual a taxa de reposição que queremos: se colocarmos a taxa de aumento nos 4% e não nos 6%, por exemplo, já temos alguma margem de manobra. Queremos pescar agora e no futuro, mas não aceito que me digam que é preciso proibir a pesca até me darem provas científicas em contrário. Defendi isto junto de Bruxelas, visto que há preocupações de natureza social que têm de ser ponderadas. As políticas têm de ser o melhor para os stocks, mas também o melhor para as pessoas.

É possível tirar os pescadores do ciclo da pobreza?
Não existem comunidades de engenheiros ou de médicos. Mas temos comunidades piscatórias que tendem a manter as profissões dos pais, para o bem e para o mal. Temos de pensar na promoção da atividade económica e ao mesmo tempo garantir que aquelas pessoas tenham remuneração adequada a uma vida com qualidade. Já existia um fundo de compensação para os pescadores, que lhes garante rendimento em alturas em que não podem trabalhar, mas alterámos as regras: o tempo em que estão parados por imposição da época de defeso ou mau tempo passa a contar em termos de proteção social, para a reforma e tudo o resto. Por outro lado, estamos a apoiar a diversificação da atividade: vamos, por exemplo, permitir que os pescadores possam acumular a pesca com atividades turístico-marítimas, sem que isso represente perda de regalias.

Quando deixar o Governo, quer ficar conhecida por quê?
Eu não quero ficar conhecida. Mas quero que o mar seja reconhecido pela sua grandeza. Quero que estes quatro anos, com um Ministério exclusivo para o mar, marque a forma como a sociedade portuguesa olha para ele. A minha ambição é que o mar ganhe uma dignidade diferente.

E como olham agora os portugueses para o mar?
Não valorizam nem querem nada do mar. Ai, que agora vamos alargar o porto: não pode ser porque fica com contentores. Agora, vamos apostar na aquacultura, mas não pode ser porque queremos sair de barco por ali e só atrapalha. Agora vamos fazer um corredor de separação de tráfego portuário [para transportar matérias mais sensíveis], como existe no mundo civilizado e como também já temos, mas vêm daí não sei quantas organizações não-governamentais criticar. Se vamos apostar em energias oceânicas e precisamos de ter uma plataforma no mar, lá se vem falar no impacto da mesma. Já para não falar das minerações. Existe uma relação de amor-ódio com o mar. As pessoas querem ter acesso à praia, mas não a querem limpar. É vergonhoso, a meio do verão, já serem mais as beatas, as latas e as garrafas do que conchas no areal. As pessoas gostam de ter o curso da Escola Náutica, mas passam metade da vida a querer arranjar um emprego em terra. Tem de se perceber porquê e combater essas razões. Na verdade, até acho normal: se as pessoas não têm boas condições quando estão embarcadas, é natural que queiram voltar para terra. Por isso, há que criar-lhes boas condições para estarem no mar. Esse é o meu desafio.

E qual a sua relação com o mar?
Fico angustiada se estiver muito tempo sem o ver. Gosto de tudo o que tenha que ver com ele: gosto de nadar e de andar de barco, gosto de portos, gosto de paisagens com contentores, de navios de carga. Pode não ser bonito, mas gosto. Gosto da gente do mar. No outro dia, na ilha da Culatra [Ria Formosa], onde existe uma sociedade muito matriarcal, diziam-me: “Você é uma mulher tão simples.” Não sou necessariamente. Gosto é daquela gente, tenho uma aculturação muito rápida. Gosto de pescadores, dos capitães de porto, do pessoal da Marinha. É uma relação muito vertical: não é terra a terra, mas é mar a mar.

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