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Hamas convida Abbas a formar governo de unidade em toda a Palestina

Hamas convida Abbas a formar governo de unidade em toda a Palestina

Movimento aceita realização de eleições nos diferentes territórios palestinianos. As últimas aconteceram em 2006 e desencadearam a acelerada deterioração da vida dos dois milhões de habitantes da Faixa de Gaza.

O movimento islamista Hamas, que governa Gaza desde que em 2006 ali venceu as eleições legislativas, anunciou este domingo que aceita negociar com a Fatah a gestão comum dos assuntos de Gaza e dos enclaves autónomos da Cisjordânia ocupada e concorda com a realização de novas legislativas no conjunto dos territórios palestinianos.

Para já, o partido (que é também um movimento armado) aceitou a primeira condição do presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, dissolvendo o comité administrativo de Gaza, um órgão que a Autoridade Palestiniana (AP) vê como um governo paralelo.

Muitas tragédias de abateram sobre os perto de dois milhões de habitantes da Faixa desde que ousaram dar a vitória ao Hamas, há mais de uma década. Por discordarem dos resultados, as instituições internacionais decidiram não reconhecer as eleições. Seguiu-se uma curta guerra civil que terminou em 2007, quando o Hamas forçou a retirada das tropas leais a Abbas do enclave costeiro. Enfraquecido pelos bloqueios de Israel e do Egipto, o Hamas enfrentou ainda três guerras com Israel e um permanente isolamento internacional durante todo este tempo.

Em 2014, conversações moderadas por países árabes permitiram a formação de um governo de unidade e os islamistas convidaram esse executivo, liderado por Abbas, a regressar a Gaza, dizendo-se prontos para negociar directamente com a Autoridade Palestiniana. Apesar deste acordo, a AP nunca voltou à Faixa e o Hamas continuou a governar o território, através do tal comité administrativo. Abbas entendeu isso como um desafio e a sua resposta tem sido particularmente dura, com consequências graves para os habitantes do pequeno território entalado entre Israel e o mar, e ligado ao Egipto por Rafah – um posto fronteiriço controlado por egípcios e israelitas e praticamente sempre encerrado.

A Autoridade Palestiniana respondeu com cortes enormes no orçamento para Gaza, diminuindo drasticamente os salários de dezenas de milhares de funcionários públicos do território (que tem uma das maiores taxas de desemprego do mundo) e deixando de pagar a electricidade de Gaza a Israel – o que significa que nunca há mais de seis horas de electricidade por dia na Faixa, e muitas vezes há apenas quatro. Isto num enclave onde a situação humanitária já era dramática, com falta de medicamentos, alimentos básicos e água potável (as águas usadas têm sido desviadas para o mar, face à impossibilidade de serem tratadas).

“O Hamas convida o governo de consenso a vir a Gaza para pôr em prática a sua missão e realizar os seus deveres na Faixa de imediato, e aceita a organização de eleições gerais”, lê-se no comunicado divulgado pelo movimento no Cairo.

Nabil Shaath, conselheiro de Abbas, diz à Al-Jazira que a Fatah (o partido do presidente da Autoridade Palestiniana) está “muito optimista” e “pronta” para responder ao convite do Hamas. “Assim que o governo de consenso começar a gerir Gaza e a Cisjordânia, iniciar o desenvolvimento económico e começar a resolver os problemas dos habitantes de Gaza, esse primeiro passo vai-nos deixar a todos realmente optimistas para avançar na direcção doo segundo passo, as eleições”, diz Shaath, em Ramallah, sede do governo de Abbas.

O líder da AP já não comentou a oferta do Hamas por estar a caminho de Nova Iorque, para participar na Assembleia-Geral da ONU, onde está previsto que discurse na quinta-feira, um dia depois de se encontrar com o Presidente americano, Donald Trump.

Interesses comuns

A necessidade faz o engenho e o Egipto iniciara há meses negociações com o Hamas motivado pelas suas preocupações de segurança na fronteira entre a Faixa e a Península do Sinai, onde está em guerra contra grupos ligados ao Daesh. O Hamas, por seu turno, esperava conseguir a reabertura de Rafah e procurava ajuda do Cairo para resolver a crise de electricidade. Claro que estas discussões só se tornaram possíveis depois de o movimento palestiniano ter cortado oficialmente laços com a Irmandade Muçulmana, derrubada do poder pelos militares egípcios e ilegalizada no país.

Nem todos na Autoridade Palestiniana se dizem optimistas. Muitos, escreve o jornal israelita Ha’aretz, evitam falar de reconciliação e esperam para confirmar até que ponto está o Hamas realmente disposto a ceder o poder em Gaza (a questão mais sensível será a necessidade de colocar as suas forças às ordens de Abbas). Ao mesmo tempo, o Hamas quer perceber se Abbas está mesmo disposto a colaborar com o movimento e a integrá-lo nas instituições da AP e da Organização para a Libertação da Palestina.

A confirmarem-se estes avanços, este será o maior progresso em mais de uma década quer na reconciliação entre os dois grandes partidos palestinianos quer em melhorias reais para a sacrificada população da Faixa. Nada que signifique o fim das divergências ou das desconfianças.

Segundo algumas sondagens, se fossem organizadas eleições parlamentares agora, o Hamas venceria não só em Gaza mas também na Cisjordânia, derrubando a Fatah nas urnas. Aos 82 anos, Abbas sabe que os 12 anos de poder (de um mandato inicial de quatro) o desgastaram de forma definitiva e é um líder muito pouco popular. Sem sucessores óbvios, ninguém em Ramallah parece interessado em organizar eleições presidenciais em breve.

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