expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 17 set 11:00

Porque vamos ao bloco operatório?

Porque vamos ao bloco operatório?

Cataratas, apendicite, operação às amígdalas, bypass, transplantes. Quais são as cirurgias mais recorrentes na Europa e sobretudo em Portugal? Avaliámos o panorama e damos-lhe a resposta

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Foi há cinco séculos que o pai da medicina moderna, o belga Andreas Vesalius, se especializou naquilo a que hoje chamamos cirurgia, na altura corte e observação do corpo humano. É sabido, porém, que o conhecimento do corpo e a cura de patologias através da operação evoluiu desmesuradamente. Hoje, as cirurgias são intervenções comuns e tratam praticamente todas as doenças, tanto mais elas sejam recorrentes. É a forma que a ciência tem de reagir e enfrentar os problemas reais, resolvendo-os da maneira mais eficaz.

De resto, é precisamente a eficácia das cirurgias que as torna mais comuns e recorrentes. Fomos avaliar o que se passa na Europa e sobretudo em Portugal e chegámos a essa conclusão. À qual se ajustam as principais patologias dos habitantes de cada país. Só em Portugal realizam-se 568.765 operações por ano (excetuando pequenas cirurgias) de acordo com as estatísticas hospitalares de 2016. Especialidades como a oftalmologia, a cardiologia, a obstetrícia fazem parte de um top cinco de doenças atualmente tratadas através das mais eficientes operações.

Um estudo da Eurostat põe os pontos nos is no que se refere ao número e ao tipo de intervenções cirúrgicas realizadas no Velho Continente, indicando simultaneamente de que padecem os europeus.

E se há cirurgia que bata recordes de realização, ela é a operação às cataratas. Em 2015, data dos últimos dados disponíveis, mas revistos já este ano, 4,3 mil milhões de europeus com residência nos Estados-membros da EU, tinham sido intervencionados às cataratas. Só em Portugal esse número definia-se como mais de 1300 pessoas por cada 100 mil habitantes. Um valor semelhante aos números apresentados por países como Malta, República Checa, Alemanha, Suécia, França, Áustria ou Estónia.

“Trata-se de uma doença própria da idade e com o aumento substancial da esperança média de vida, o número destas cirurgias cresceu muitíssimo”, explica Augusto Magalhães, o cirurgião que preside ao Colégio da Especialidade de Oftalmologia, apontando esta como uma das razões para a frequência da operação. Por outro lado, adianta, a indicação cirúrgica também aumentou, uma vez que a recuperação se tornou “excelente”, com as novas técnicas e tecnologias de intervenção, a capacidade operatória idem aspas, bem como a sua funcionalidade. Por outras palavras: “Dantes só operávamos as cataratas quando a patologia estava madura, hoje operamos muito mais cedo — passámos de 1/10 de antigamente para 7/10 de hoje”, continua Augusto Magalhães que não deixa de frisar que o paciente está recuperado 24 horas depois e a ver perfeitamente, pronto para desempenhar todas as funções do seu dia a dia. “As taxas de recuperação são excelentes.” Outro motivo ainda para o aumento desta cirurgia aos olhos prende-se com o facto de ela ser prescrita e tomar o mesmo nome nos dados estatísticos da cirurgia refrativa à remoção do cristalino transparente, aquilo que se faz a partir dos 50 anos, quando a grande maioria das pessoas passa a ver mal ao perto e nessa remoção se insere uma lente multifocal. Esta operação é em tudo igual à cirurgia às cataratas. Acresce ainda a todas estas razões uma outra que não deve ser descurada: “É aceitável operar oito cataratas por cada período cirúrgico de seis horas”, diz o presidente do Colégio de Oftalmologia. Um número que, no entanto, pode duplicar dependendo do cirurgião. “Numa manhã, das 8h às 14h pode operar-se 15 ou 16 cataratas.”

Muito frequentes em toda a Europa e também com números elevados no nosso país, são as broncoscopias e angioplastias coronárias. O país onde mais se realiza este primeiro procedimento médico é na Croácia, com uma média de 685 cirurgias por 100 mil habitantes. A Alemanha e a Letónia andam lá perto com 400 doentes operados. Já Portugal sobe de nível de ocorrências no que respeita às angioplastias. Vasco Gama Ribeiro, presidente do Colégio da Subespecialidade de Cardiologia de Intervenção, não tem dúvidas do porquê. “A causa mais frequente de morte em Portugal são as doenças cardiovasculares.” A angioplastia coronária, esclarece, é uma intervenção percutânea que consiste num cateterismo terapêutico, ou seja, com um cateter introduzido pelo braço em 90% dos casos (e pela perna em casos particulares) dilatam-se as artérias. Este procedimento evita a cirurgia. “Há estudos comparativos com a cirurgia que provam que a eficácia é igual”, adianta o cirurgião da especialidade. E, tal como no caso das cataratas, os pacientes não ficam mais de 24 horas internados, tendo complicações mínimas. A angioplastia coronária serve ainda os doentes que, por razões específicas, não podem ser sujeitos a cirurgia. “Não é nada descabido que este seja um dos procedimentos mais comum em sala de operação em Portugal. O nosso historial patológico assim o determina”, continua Vasco Gama Ribeiro. No serviço que dirige, só no ano passado realizaram-se 1100 angioplastias coronárias. O médico estima que entre 30 a 30 e poucos por cento dos portugueses sofram de doença coronária severa, sendo muitos deles tratados através deste método procedimental. Uma operação, de resto, que sobe para números a rodarem as 200 em cada 100 mil pessoas em países como o Reino Unido, Espanha, Finlândia e Irlanda.

Em França, no Reino Unido, na Irlanda, em Malta, Dinamarca e Bélgica as colonoscopias assumem-se como o segundo procedimento clínico em sala de operações mais frequente. O exame ao cólon é, de resto, tido como o mais comum na Europa. Os valores estão em quase todos os países acima dos mil realizados por ano em cada 100 mil pacientes. Seguem-se-lhe as apendicites. Uma cirurgia aparentemente simples mas que pode trazer complicações, nomeadamente, se se tratar de uma peritonite. Costa Maia, membro do Colégio de Cirurgia Geral, faz notar que o envolvimento do risco não deixa nunca de estar presente mesmo nas operações menos complexas. Mas o aumento do número de casos bem sucedidos prova que a evolução ajuda à prescrição das apendicites. “Atualmente trata-se de uma operação com menor nível invasivo através da técnica laparoscópica. Isto significa que a cirurgia envolve mais conforto, menos dor e muito melhores resultados do ponto de vista estético.” No entanto, convém frisar que o número de apendicites agudas operadas é um valor estável. Segundo Costa Maia, isso deve-se ao facto de existir já um tratamento médico com antibióticos que se aproxima da intervenção cirúrgica, à qual antigamente se recorria sempre. Já no que respeita ao risco de que fala o cirurgião Costa Maia, ele é mais comum nestes procedimentos operatórios uma vez que eles podem surgir em urgência. “Nesses casos não há preparação pré-operatória, conhecemos o doente no próprio dia da cirurgia, ele pode ser idoso, o que torna as coisas mais complicadas, ou mais jovem, que normalmente torna tudo mais fácil. Mas o espectro de doentes é muito grande.” O mesmo acontece no âmbito das operações à vesícula, outra cirurgia muito comum em Portugal e que tem vindo a aumentar nos seus números absolutos. Um padrão de crescimento que se prende também ao aumento de tumores no intestino, tumores no fígado, biliares, muitas vezes por infeção por vírus, mas também por via do álcool.

Com um número de pacientes a rodar os 160 por cada 100 mil portugueses a serem submetidos a operações para retirar hérnias inguinais, esta cirurgia “rotineira”, como lhe chama Costa Maia, este é outro dos procedimentos operáticos mais frequentes no nosso país, apresentando-se mesmo num top cinco, se o quiséssemos fazer. De resto, nos últimos cinco anos, as operações às hérnias inguinais recorrendo à técnica laparoscópica quase triplicou em Portugal, sendo este o país onde se realizou um maior aumento deste procedimento cirúrgico. Mas mais do que no que respeita aos números, os austríacos e os gregos chegam às cerca de 200 operações às hérnias pelos tais 100 mil habitantes. Realizadas de forma eletiva, só o volume da hérnia não permite catalogar a operação como simples, explica ainda Costa Maia, que refere que se trata das hérnias não complicadas. Contudo, o médico frisa e mostra a sua preocupação para com o crescimento das doenças oncológicas (que necessitam de intervenções cirúrgicas) e da obesidade, que sobrecarrega muito os serviços de cirurgia.

Já no ramo da obstetrícia, realizam-se por ano na Europa pelo menos 1,38 milhões de cesarianas. Dados referentes a 2016 estabelecem o número de cesarianas em Portugal em 35 mil ano, uma taxa de pouco mais de 40% em 82 mil partos ano. Estes valores são assumidos como excessivos pela Direção-Geral da Saúde e por muitos médicos. O presidente do Colégio de Obstetrícia, João Silva Carvalho, também acha que há cesarianas a mais, no entanto, frisa que é prioritário termos, como temos, os maiores índices de natalidade em parto do mundo. Nesse campo, a Holanda situa-se no pior lugar da Europa e a Inglaterra também apresenta valores muito baixos de natalidade à nascença. Vejamos as causas para tais números de cesarianas em Portugal. Uma das variáveis que influi na sua grandeza é o índice de doenças do aparelho ginecológico (doenças urinárias, etc.), outra é o número de processos médico-legais levados a cabo contra os médicos. “Quando algo corre mal, é recorrente pensar-se que o médico poderia ter feito uma cesariana e não o fez”, diz João Silva Carvalho. Portanto, “isso gera uma atitude de defesa por parte dos médicos”. O presidente do Colégio de Obstetrícia considera que os números de cesarianas podem ser reduzidos mas “de forma cuidadosa, monitorizada e acompanhada, de maneira a não prejudicarem os altos índices de natalidade dos bebés no parto”.

Ainda no domínio da obstetrícia, a histerectomia, vulgo a retirada do útero, surge com um valor relativamente alto em Portugal. Cerca de 100 mulheres em cada 100 mil recorrem a este procedimento, que ocorreu precisamente 9326 vezes em hospitais públicos no ano de 2014, avança um estudo da Universidade de Coimbra. Mas esse valor tem vindo a diminuir substancialmente, à volta de 20% nos últimos 15 anos. Porquê? “Surgiu uma nova forma de intervenção cirúrgica minimamente invasiva, a histeroscopia, um método que permite ver dentro do útero através de um sistema ótico e assim tratar a doença que lá esteja”, explica o cirurgião. Outra inovação que concorre para a mesma diminuição do número de histerectomias são os novos tratamentos médicos por comprimidos que permitem controlar várias outras patologias, nomeadamente “os fibromiomas, a principal causa das histerectomias” em Portugal. Ainda dentro da área cirúrgica, a também minimamente invasiva laparoscopia permite cuidar quase todas as patologias ginecológicas anulando as retiradas do útero. “Isto veio trazer uma enormíssima vantagem para o sistema de saúde e coloca-nos, a nós Portugal, no lugar de um dos países mais avançados nesta matéria”, conclui João Silva Carvalho. b

infografia carlos esteves

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