tribunaexpresso.pttribunaexpresso.pt - 17 set 09:12

Professor Neca: "Sou filho de pai incógnito, o futebol era a única forma que tinha para me impor"

Professor Neca: "Sou filho de pai incógnito, o futebol era a única forma que tinha para me impor"

Aos 66 anos, Manuel Gonçalves Gomes, mais conhecido por professor Neca, diz estar longe de pensar na reforma. Além de ter sido treinador em países como Angola, Moçambique, Maldivas, Índia, Canadá, Arábia Saudita, Kuwait, Israel, foi um saltimbanco cá dentro, sobretudo na zona do Norte, onde estão as suas raízes. Com mais de 50 anos dedicados ao futebol, continua a afirmar que este é a sua grande paixão

Quando começou a jogar futebol?
O futebol foi sempre um sonho. Comecei por jogar no Gil Vicente, com 15 anos.

Esse sonho nasce como?
Esse sonho vem de ouvir os relatos de futebol na rádio. Eu nem sequer tinha rádio, mas ouvia o dos vizinhos e vibrava com os relatos, adorava ouvir como eram narrados os jogos de futebol, vivia os relatos como se fosse o próprio jogo. O futebol era e sempre foi uma paixão tremenda. E era a única forma que eu tinha para me impor.

Como assim?
A forma de me impor na escola primária e depois na escola industrial, foi através do futebol, porque tinha uma habilidade diferente dos outros. É assim que nasce a minha liderança, uma liderança que era dada pelos companheiros, pela habilidade que eu demonstrava no jogo.

Como é que vai para o Gil Vicente?
Em 1966 o Gil Vicente abre a sua escola para juvenis. Fui. Estava nervoso por me apresentar perante o treinador. Passados cinco/dez minutos sou o primeiro a sair e fiquei bocado assustado. Mas ele mandou-me ir ter com o diretor do Gil Vicente para tratar dos papéis.

Foi sozinho, com o seu pai, algum amigo?
Eu não tenho pai. Sou filho de pai incógnito. Na altura ainda se podia registar assim. Era um trauma que me acompanhava. Cresci com a minha mãe.

Sabe quem é o seu pai?
Sei quem é, sou amigo dos meus irmãos por parte de pai. Temos uma relação boa.

Quando é que conhece o seu pai pela primeira vez?
Tinha uns sete/oito anos. Ele estava emigrado no Brasil e veio cá de férias. Houve uma tentativa de aproximação da minha mãe com ele. Sempre senti que a minha mãe gostava muito dele.

Percebeu porque é que ele não o perfilhou?
Tenho memória de uma carta do meu pai, a pedir para a minha mãe ir ter com ele, mas para não levar o filho. Tenho essa memória. Nunca percebi porquê. Ele só casou mais tarde, em Portugal, e teve três filhos.

Manteve contato com ele?
Não. Cruzamo-nos de vez em quando, falamo-nos, respeitamo-nos, mas nunca houve relação. Com o filho dele tenho uma relação boa, familiar. Com ele, como não houve essa relação afetiva, é uma pessoa que respeito mas não é mais do que isso. Pouco me diz.

Quando o Prof. Neca tinha 14 anos era preciso uma licença para poder andar de bicicleta

Quando o Prof. Neca tinha 14 anos era preciso uma licença para poder andar de bicicleta

Voltando atrás, estava a contar que foi ter com o presidente do Gil Vicente para tratar dos papéis...
Sim, e para contornar o obstáculo da minha mãe não saber ler nem escrever, falsifiquei a assinatura dela.

Quando é que revelou à sua mãe que estava a jogar futebol?
Passados uns tempos ela pergunta-me pela escola e eu disse-lhe que estava a jogar num clube, porque todos os rapazes que tinham jeito jogavam futebol. Disse-lhe que era importante para mim. Quando eu falava que era importante, ela dava-me liberdade de fazer a opção que quisesse.

Deixou de estudar?
Não, nem pensar nisso. Estudava e jogava. Os treinos eram no pós-estudo.

Jogou no Gil Vicente até quando?
Nos juvenis e nos juniores. Depois, como havia a guerra colonial, e como eu tinha dificuldades financeiras, sabia que era difícil impor-me logo no futebol sénior. Fui como voluntário para a Força Aérea, para me libertar o mais rápido possível do serviço militar obrigatório e continuar aquilo que era o meu sonho, a carreira de jogador de futebol profissional.

Quanto tempo esteve na Força Aérea?
Dos 17 aos 21 anos. E não cheguei a ir para o Ultramar, o que me permitiu continuar a jogar. Ainda fiz um ano como júnior do G. Vicente com 17 anos, e depois fui para o Santa Maria, o clube da minha terra. Um clube que era da distrital e que já esteve na II Divisão. Aos fins de semana, aproveitava que me pagavam as viagens: saía da tropa (eu estava em Monte Real e estudava à noite na escola industrial de Leiria), e vinha jogar futebol no Santa Maria. Fiz isso durante três anos. No Santa Maria já jogava com os mais velhos, como sénior.

Em que posição?
No meio campo.

E quando acabou a tropa?
No ano em que acabou a tropa, como tinha jeito e já dava nas vistas, tinha três clubes da II Divisão interessados em mim. O G. Vicente, o Varzim e o Riopele. O Riopele era um clube-empresa, muito forte, que chegou à I Divisão, como a CUF do Barreiro. E quem me deu melhores condições foi o Riopele. Mas eu só podia ir para esse clube se ele me comprasse a carta [passe de jogador]. E o curioso é que quem estava para ir para o Riopele era o João Alves - o Luvas Pretas -, mas eles acabaram por optar por mim. E a minha carta era mais cara do que a dele, que vinha dos juniores do Benfica.

Quanto é que pagaram pela sua carta nessa altura?
15 contos - mais ou menos 3.500 euros nos dias de hoje -, mais um jogo do Riopele feito na minha freguesia.

Cartão de jogador amador do Gil Vicente

Cartão de jogador amador do Gil Vicente

Primeiro cartão de sócio do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol

Primeiro cartão de sócio do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol

Esteve no Riopele quanto tempo?
Dois anos. E nesses dois anos todos os jogadores do Riopele trabalhavam de manhã e treinavam à tarde. Quando tínhamos treino de manhã e de tarde, não íamos ao trabalho. Ganhávamos dinheiro pela empresa e pelo clube. Pela empresa, recebia à volta de dois contos e mais quatro contos e quinhentos por jogar futebol. Acontecia com todos os jogadores, como o Vital, que foi depois para o FC Porto, o Jorge Jesus, que também foi jogador do Riopele mais tarde. Era um clube apetecível, que pagava sempre certinho.

O que fazia como empregado no Riopele?
Trabalhava como eletricista. Na tropa tinha tirado o curso de mecânico de radar e de eletricista.

Seis contos e quinhentos naquela altura era muito dinheiro.
Ganhava seis vezes mais do que um professor.

O que fez com esses primeiros ordenados?
Tirei a carta e comprei um carro. E continuei a estudar à noite, em Famalicão. Havia sempre a incógnita do futuro, por isso os estudos estavam sempre presentes. E surge, nesse percurso, o 25 de Abril.

Lembra-se onde estava quando soube da Revolução?
Perfeitamente. Ouço as notícias, saio do emprego no Riopele, tenho treino e no pós treino já não vou para as aulas, mas para as tertúlias da cidade de Famalicão perceber o que era a revolução. Discutir e conversar com as pessoas o que era um país livre e o que ia ser o futuro. Havia no rosto de toda a gente uma alegria diferente.

Nessa altura quem eram os seus ídolos?
Foi sempre o Eusébio, com quem tive o privilégio de trabalhar depois.

O seu coração era benquista?
Era. O Benfica foi campeão europeu. Havia na minha freguesia uma única televisão e lembro-me como se fosse hoje de ver a final da Liga dos Campeões do Benfica com o Barcelona e o Real Madrid. A televisão ficava em cima da janela de uma mercearia, que vendia vinho e bacalhau frito, entre outras coisas, e lá estava eu a espreitar por cima do ombro das pessoas.

Depois do Riopele foi para onde?
Todos os dias de manhã quando me via ao espelho antes de sair para trabalhar, eu dizia para mim: “Isto não é vida para ti. Não posso viver fechado dentro de uma empresa”. É aí que vou fazer o exame de admissão às escolas, que agora são os institutos e faculdades, de educação física. Havia duas escolas, uma no Porto e outra em Lisboa. Sou admitido na Escola de Educação Física no Porto.

E continua a jogar.
Claro. porque ser jogador é que me dava dinheiro para eu poder sustentar-me; a minha mãe não tinha possibilidade.

Ainda vivia com a sua mãe?
Naturalmente. E a minha mãe ainda está viva, tem 92 anos, continua fresquinha como uma sardinha!

Continuou no Riopele?
Sim, mas tenho uma lesão na 5ª lombar que me põe um bocado intermitente. Com o 25 de Abril começa a haver uma pressão sobre as empresas e eu vou para o Desportivo de Paredes, porque fico mais livre para estudar educação física de dia.

Fica quanto tempo no Paredes?
Dois anos. Subimos da III Divisão à II, pela primeira vez na história do clube. Jogo com o Vitor Oliveira [hoje treinador do Portimonense] e continuo a estudar. Acabo o curso ainda no Paredes, já na II divisão, em 1976.

Em 1976, foi campeão como treinador/jogador do Santa Maria galegos, clube da sua terra

Em 1976, foi campeão como treinador/jogador do Santa Maria galegos, clube da sua terra

E torna-se professor de Educação Física.
Sim, em 1976. E como havia poucos professores, podia ir para onde quero. Escolho Barcelos e vou jogar para o Santa Maria, o clube da minha terra, que na altura passava por dificuldades e me convidou. Vou para o clube como treinador/jogador, tinha 26 anos.

É a primeira experiência como treinador.
Sim. Fomos os campeões da Associação de Futebol de Braga, com resultados surpreendentes.

Percebe logo que o seu futuro passa por aí, por ser treinador?
As pessoas diziam que sim. A minha liderança surgia com muita naturalidade, como o respirar, as pessoas é que me diziam para eu ser, eu nunca me propunha. Eu era um bocado tímido, reflexo de ser filho de pai incógnito, isso bloqueia-me também. Eram os outros que me impulsionavam para isso.

Acumulou funções durante quanto tempo?
Um ano. Depois acaba por surgir uma nova etapa que é o casamento.

Conhece a sua mulher onde?
Conhecemo-nos ocasionalmente, em Guimarães. Eu estava no Riopele. Já namorávamos um bocadinho escondidos, porque ela era mais jovem, era de uma família um bocado de elite.

Mais jovem quantos anos?
Cinco anos. Ela tinha 16 anos quando lhe lancei o anzol.

Casam em que ano?
Em 1977, e vou viver para Guimarães. A família dela é de lá, são industriais daquela zona e tenho possibilidade de ter casa lá, herdada dos meus sogros. Também tinha possibilidade de ir dar aulas para Guimarães. Entretanto houve um clube, o Grupo Desportivo de Prado, que me aliciou e eu fui só como jogador. Dava aulas e ao fim do dia ia treinar. Subimos à II divisão e eu continuei. Nessa altura, a direção propõe-me ser preparador físico do treinador Cartaxo Nabo.

Aceita?
Sim. Mas acabamos por descer de divisão e a seguir o Prado propõe que eu seja treinador na época de descida. Achei interessante. Estava já nessa altura a frequentar o curso de treinadores na escola onde pontificavam treinadores como o José Maria Pedroto, Fernando Vaz, tudo gente que deu muito ao futebol português - somos campeões da Europa mas devemos muito a essa gente. E é assim que me torno treinador. Nesse ano não subimos por uma unha negra. E acaba por subir os Arcos de Valdevez.

Que o vai buscar.
Boa parte dos jogadores de Arcos de Valdevez foram meus companheiros no Prado e quase que impuseram ao presidente que fossem buscar o treinador do Prado porque era um treinador que tinha grande qualidade. É assim que vou lá parar. Nessa altura, morava em Guimarães, estava a fazer o estágio de professor em Barcelos, e vinha treinar para Arcos de Valdevez. Saía às sete da manhã e chegava a casa à meia noite para comer qualquer coisa.

A sua mulher não devia achar muita graça...
Pois não. Mas também percebia a necessidade intrínseca que eu tinha de fazer aquilo que era uma paixão.

Corre bem a época?
Corre porque acabamos por ficar na II divisão. É a unica vez na história que este clube ficou um ano sem descer. Quem subiu à I divisão foi o Varzim, mas tivemos mais vitórias fora de casa que o próprio Varzim. Depois segue-se o percurso que já se conhece.

Tem dois filhos. Quando nasceram?
A Ana nasceu em 1979, é economista, e o Pedro nasceu em 1981, é arquitecto.

No dia do casamento. Na segunda-feira, dia 18 de setembro, comemora o 40º aniversário de casamento

No dia do casamento. Na segunda-feira, dia 18 de setembro, comemora o 40º aniversário de casamento

Numa primeira fase como treinador andou sempre por clubes da mesma zona (Desportivo das Aves, Gil Vicente, Fafe, FC Felgueiras, Tirsense...) e só em 1991 é que vai para Setúbal. Porquê?
Enquanto os meus filhos foram jovens nunca saí de uma pequena circunferência geográfica. A primeira vez que saí para mais longe foi precisamente quando fui para o V. Setúbal. Aí, pedi licença sem vencimento na escola onde dava aulas.

A família vai consigo para Setúbal?
Como os meus filhos estudavam em Guimarães e a minha mulher trabalhava nos escritórios da empresa do pai, eu vou sozinho. Só ao fim de semana é que vão ter comigo. Foi a primeira saída do conforto.

Custou-lhe?
Foi difícil, sim. A ruptura foi dolorosa. Custava-me não ter o contacto diário com eles, porque éramos - e somos - muito ligados. Dei sempre muita importância à célula familiar. A noite era escura. Não tinha a comunicação com os filhos, com a mulher, deixou de haver essa comunicação, porque nessa altura as comunicações telefónicas eram mais difíceis.

É essa saudade que o faz voltar para Famalicão?
É muito isso que me faz voltar para Famalicão, para a I Divisão. Estava incompleto.

Como surge o Famalicão?
Sabe que o futebol para mim....se fosse necessário e se pudesse, eu pagava para treinar ou jogar futebol. É difícil explicar isto. O Famalicão surge porque estavam à rasca e fazem-me uma abordagem. Vou imediatamente para o clube que corria grande risco de descida, da I para a II. Não foi pelo dinheiro que fui; foi pelo desafio. No final da época, havia ordenados em atraso, apareceu-me o P. Ferreira e fui.

Mas não esteve lá a época toda.
Não, os resultados não eram aquilo que as pessoas ansiavam, mas estávamos ainda em zona de manutenção. Havia lá um jogador que era muito importante, o Jaime Pacheco. E eu acabei por ser substituído por ele, que assumiu a função de jogador/treinador. Nessa altura, quando eu percebia que os dirigentes não estavam muito felizes, não me agarrava ao contrato.

Seguem-se o FC Felgueiras, o SC Braga...
O Sp. Braga aborda-me estava eu nessa altura na Universidade do Minho a fazer a licenciatura em Ciências do Desporto. No final da época o clube convida-me para ficar, mas surge uma possibilidade de sonho: o Benfica.

Esteve duas épocas (1994/5 e 1995/96) como adjunto, no Benfica

Esteve duas épocas (1994/5 e 1995/96) como adjunto, no Benfica

O Prof. Neca foi adjunto de Artur Jorge, no Benfica, em 1994/95

O Prof. Neca foi adjunto de Artur Jorge, no Benfica, em 1994/95

É convidado por quem?
Sou convidado pelo Gaspar Ramos para ser adjunto do Artur Jorge, no Benfica. O Artur Jorge era o Mourinho dessa altura. Por isso não me importei rigorosamente nada de ser adjunto, porque era a primeira vez que ia estar nessa situação, com um treinador de referência e num clube de sonho.

Correspondeu às suas expectativas?
Nem tudo. Quando não conhecemos, sonhamos sempre coisas mirabolantes. Nos outros clubes eu assumia a total liderança de tudo no futebol. No Benfica tudo aparece feito. A organização está por cima de tudo.

Não foi o que estava à espera.
A realidade é diferente do sonho. Mas foi uma realidade tremendamente boa. O Benfica abriu-me a perspectiva e tirou-me as amarras locais. O Artur Jorge é um homem de cultura, acho que não lhe foi prestada ainda a homenagem que ele merece. O Benfica foi um marco importante para mim.

Depois da passagem como adjunto pelo Benfica dá o salto para Angola e torna-se selecionador nacional. Como é que isso acontece?
Enquanto estive no Benfica, o Artur Jorge sai e o Mário Wilson torna-se treinador. O Benfica entretanto contrata o Paulo Autuori, que traz a sua equipa técnica. Mas o Benfica diz que gostaria que eu continuasse como treinador. O clube tinha dois projetos, uma parceria com o Alverca, cujo presidente era Luís Filipe Vieira; e uma ligação à seleção de Angola. Deram-me a possibilidade de escolher um desses dois projetos, para continuar ligado ao Benfica.

Porque escolheu a seleção de Angola?
Falei com o Mário Wilson que era também um homem de cultura, com um saber impressionante, e ele disse-me: Ouve Neca, eu vou morrer sem nunca ser selecionador num país estrangeiro. Vai a Angola. Tens cinco dias para lá ir. Olha para Angola, percebe bem as coisas e estás cá para o final da Taça, porque tens de estar ao meu lado nesse dia". Eu vou a Angola e a saída do avião foi um choque.

Porquê?
Um choque da temperatura, do cenário, porque estávamos em 1996 e Angola era um país em guerra. De África eu só tinha tido a experiência de um estágio do Benfica na África do Sul, no pós apartheid. E a África do Sul nessa altura já estava à frente de Portugal, era um país muito bonito e organizado.

Sentiu medo quando chegou a Angola?
Sim, a primeira sensação foi de medo. Depois fui ver um jogo ou dois e comecei o contacto com as pessoas. O calor das pessoas, a relação das pessoas era uma coisa impressionante, e acabou por apagar o primeiro impacto. As pessoas eram fantásticas, estavam ávidas de coisas novas.

Quando chegou a casa e deu a novidade à mulher e filhos, o que eles disseram?
Coloquei-lhes a questão de uma forma aberta expus as minhas razões e a minha mulher disse-me: “Se achas que deves partir, parte e vai para seleção. O meu filho completou: “Se é esse o teu sonho, segue o teu sonho, vai com ele porque nós aqui organizamo-nos."

Foi sozinho ou com uma equipa técnica?
Sozinho. Eram tempos diferentes. Nessa altura éramos muito poucos treinadores no estrangeiro.

No Soweto, África do Sul, durante uma clínica com Eusébio e alguns jogadores do Benfica

No Soweto, África do Sul, durante uma clínica com Eusébio e alguns jogadores do Benfica

É muito diferente ser selecionador de um país e treinador de um clube. Quais são as principais diferenças?
Nós percebemos pouco quando o Cristiano Ronaldo na primeira fase como jogador de seleção não jogava tão bem como as pessoas sonhavam. Mas a responsabilidade em ser jogador da seleção de Portugal é muito maior do que a de ser jogador do Real Madrid. Um clube é um clube, um país é a raíz, a pátria, são as pessoas, são os pais, as tias, os primos, os políticos, os marginais, é toda a gente, é o país. Há uma diferença abissal entre uma coisa e outra. Quando fomos para a CAN, carregamos o país, a guerra MPLA/UNITA parou quando estivemos na fase final da CAN. Ficamos apurados para a CAN no Burkina Faso, para o Mundial não perdemos nenhum jogo, empatamos quatro e ganhamos quatro, mas não fomos apurados. A responsabilidade era brutal. Posso contar uma história.

Força.
Íamos jogar com os Camarões e se ganhássemos havia 99% de possibilidades de ir ao mundial de França 98. A responsabilidade era brutal. Nessa altura o médico veio ter comigo e disse-me: “Oh prof. estamos tramados! Alguns jogadores estão completamente bloqueados. Eles precisam de beber whisky antes do jogo porque senão eles bloqueiam, a pressão está demasiado grande.” Eu tinha sempre no quarto aquelas garrafas pequenas de whisky que davam nos voos da TAP e alguns jogadores foram a toque de caixa com uns bons whiskies antes do jogo começar. Era o jogo mais importante.

E ajudou?
Pelo menos libertava-os, tornava-os mais inconscientes, menos pressionados. No final do jogo o Akwa vem ter comigo e diz-me: “Oh mister, eu nunca pensei, depois de estarmos a perder 1-0, que nenhum de nós ia sair vivo de dentro do Estádio da Cidadela”. Por aqui se percebe a pressão que estes jovens têm enquanto jogadores de uma seleção.

Alguma vez foi encostado a uma parede?
Quando foi da CAN, os políticos criaram logo expectativas enormes. Quando chegamos da CAN, alguns jogadores profissionais vieram do Burkina Faso diretamente para a Costa do Marfim e daí para Portugal. Nem sequer passaram por Angola. E não queriam também que eu fosse a Angola, porque o ambiente estava muito tenso para mim e para o presidente da federação. Mas eu disse: “Eu vim de Angola e é para Angola que vou”.

Como foi recebido?
Com insultos dos antigos. Tive segurança durante dois, três dias. No hotel onde estava em Luanda, eu dava a relação de um quarto mas dormia noutro. Só eu e o administrador do hotel é que sabíamos.

A sua família ia ter consigo com frequência?
Eu tinha um acordo: de dois em dois meses eu vinha a Portugal. E a minha mulher visitou-me lá três vezes. No período das férias os meus filhos também lá foram.

O professor com a equipa do Desportivo das Aves, na primeira subida do clube à I Divisão, época 1984/85

O professor com a equipa do Desportivo das Aves, na primeira subida do clube à I Divisão, época 1984/85

Esteve em Angola dois anos e regressa ao Desportivo das Aves. O Aves é uma espécie de clube-casa...
É um bocadinho a casa, sim. Quando chego de Angola venho muito cansado e desgastado. O Varzim estava na I divisão e convidou-me. Foi talvez o único clube a quem eu disse que não. Porque estava demasiado cansado e não me sentia completamente recuperado para a exigência da altura. Não fui, a ética está sempre à frente das coisas. Mas aparece-me imediatamente o Aves. E sobre o Aves temos de dizer umas coisas.

Conte.
O Aves ao longo da história subiu três vezes. Passou Paulo Fonseca, Vitor Oliveira, Carvalhal, etc. E nos três anos em que lá estive foram os três anos em que o Aves subiu de divisão.

Sente que tem habilidade para fazer subir os clubes?
Não tenho dúvidas de que nessa altura eu estava à frente da generalidade dos treinadores. Como também não tenho dúvidas que por volta do início do novo milénio fui ultrapassado por uma formação mais forte dos treinadores portugueses. Tenho essas duas consciências. Naquela altura eu era melhor porque estava mais apetrechado que os outros, tinha mais paixão que os outros, disso não tenho dúvidas nenhumas.

Como explica então nunca ter sido chamado por um dos grandes na altura?
Eu nunca procurei. Nunca fiz uma gestão de carreira. A minha paixão era estar a treinar futebol, era parte da minha vida como a alimentação. Nos anos 80 fui uma das possibilidades para ser seleccionador nacional de Portugal e não fui porque não fiz nada para isso. Fui hipótese para os três grandes, mas nunca fiz nada para isso. Privilegiava mais a relação com as pessoas, com os amigos, com estar no futebol, num clube qualquer.

Sai do Aves e vai para o Imortal. Porquê o Imortal?
Porque me aparece o José Veiga que era um bocado o Jorge Mendes da altura, juntamente com o bi-bota de ouro, Fernando Gomes, e o Alexandre, filho do Pinto da Costa, com um projeto enorme para o Imortal de Albufeira. Queriam fazer dele um clube de top. Não me esqueço que quando estava no escritório do Veiga, estava lá também o mais ilustre treinador do futebol português, o José Mourinho. Mas o Imortal não deu aquilo que as pessoas pensavam. Porque a realidade de ser jogador de clube, ser empresário de futebol e a estrutura e organização dos clubes são coisas completamente diferentes.

O Mourinho estava a fazer o quê no escritório do Veiga?
Estava no mesmo gabinete à espera de poder fazer a entrada no Sporting.

O que não veio a acontecer. Recorda-se porquê?
Porque na conferência de imprensa que já estava preparada houve uma grande pressão feita por um conjunto de associados que perceberam o que estava a acontecer.

Como assim?
É que havia a ligação Benfica/Sporting - não me recordo qual era o treinador do Sporting que estava para sair na altura-, e a notícia saiu antes e não permitiu a ida de Mourinho para o Sporting. Quando a notícia surge antes do acontecimento, nessa altura havia as movimentações das massas adeptas que tinham um impacto muito grande, e que obrigou a abortar essa estratégia que estava a ser definida nessa altura no gabinete do José Veiga.

Em 1997 e 1998 foi selecionador de Angola

Em 1997 e 1998 foi selecionador de Angola

Depois de uma breve passagem pelo Penafiel torna-se adjunto de António Oliveira na seleção.
Nós já tínhamos uma relação de há muitos anos e o Oliveira diz-me que gostava que eu estivesse na seleção com ele, na observação de jogos, etc. Disse imediatamente que sim. Há uma coisa importante na vida de treinador, que é saber que pode contar com os colaboradores de corpo inteiro. Isto é, estar na sua função e não querer ir para além dessa função. Eu no Benfica, posso confidenciar, quando o Artur Jorge estava doente, a equipa era liderada pelos dois adjuntos, por vontade dele. Eu e o Filipovic. A determinada altura o Gaspar Ramos disse que queria que eu assumisse o comando do Benfica, sozinho, até à vinda do Artur Jorge. Disse-lhe que não fazia isso. No futebol, o bicéfalo é sempre complexo. Embora quando se está de boa-fé não é, por isso para mim nunca seria. Mas disse-lhe que não, porque se eu assumisse e os resultados corressem bem havia depois a tentativa ou tendência de "deixar continuar". E ia contra aquilo que é um princípio moral. Por isso eu disse-lhe que só se fossemos ter com o Artur Jorge e ele entendesse que deveria ser assim. Mas mesmo assim, do lado do Artur Jorge poderia haver alguma desconfiança, normal e natural, por isso nunca quis assumir. Há valores que não podemos hipotecar nunca.

Quando foi adjunto do Oliveira, esse foi um período atribulado não foi?
Muito atribulado. Se todos soubéssemos assumir a nossa função, todos, nunca teríamos perdido o primeiro jogo com o EUA.

O que é que falhou?
Houve falta de comunicação.

Entre quem?
Vou explicar com exemplos. Nós somos os melhores da Europa, somos campeões da Europa, porque a estrutura da federação é boa, percebe e entende futebol. Quer o Humberto Coelho, que já foi seleccionador e jogador de eleição, o João Pinto, o Pauleta... há esta comunicação do futebol, não há o choque entre aqueles que são do futebol e aqueles que não entendem o que é o futebol. Isto é um processo evolutivo. Eu lembro-me que no intervalo do jogo com a Coreia, estamos empatados a um golo, o Beto leva um cartão amarelo e há uma palavra dita por um elemento da equipa técnica, que não vou referenciar, para o seleccionador que não é possível tê-la naquela altura.

O que disse?
Num pressão enorme que se estava a viver, essa pessoa disse: “este jogador deve ser substituído”. Nunca se pode dizer isso. Nunca se deve dizer isso. A grande questão, em muitas situações, é termos a calma e a serenidade para a resolução dos problemas, principalmente quando estamos perante decisões muito importantes. E o Oliveira, que é um homem de uma dimensão enorme, deveria ter sido mais ajudado. Eu fui treinador, adjunto, preparador físico, conselheiro. Para se perceber uma função é preciso vivê-la, se não a vivermos não se conhece. Houve muita falta de sensibilidade.

Mas houve muitas histórias que vieram a público e que prejudicaram a imagem do próprio selecionador, quando se dizia que tinha uma série de superstições, nomeadamente andava com alhos nos bolsos, etc.. Isso também não ajudou.
Há muitas coisas que não ajudam. Nesta altura que somos campeões europeus, veja o que acontece com diretores de comunicação em relação a bruxos e pseudo-bruxos, a emails e pseudo-emails, e a imagem que dão do futebol português. Há gente que está a arremessar pedras porque percebe que é neles que reside todo esse mal. Historicamente, eles têm grande responsabilidade em tudo isso. Cada um é como cada um. E o facto de viajar deu-me essa abertura de perceber e respeitar o outro, se é que me entende. Muita gente ligada atualmente à economia, à política e outras áreas, procura esses apoios do sobrenatural, aquelas pequeninas coisas e superstições que eu não dou significado nenhum, já tenho idade para não dar importância a isso, mas há gente que dá. Nos tempos do Pedroto, não era possível estar dentro de um autocarro e o motorista fazer marcha atrás. Não era possível, se houvesse um funeral, passar perto do funeral. Isto é cultural, vai passando de umas pessoas para as outras.

Nunca foi tentado a ir atrás dessas superstições?
Já fui, sim senhor. Normalmente quando ia com uma gravata e ganhava mantinha essa gravata, porque sentia-me bem. Quando as coisas corriam bem, eu repetia as coisas, porque vivo sempre do lado positivo das coisas. O lado negativo ponho logo no caixote de lixo mais perto.

O prof. Neca enquanto selecionador das Maldivas, em 2004, num momento de descontração naquele que considera "o paraíso na terra"

O prof. Neca enquanto selecionador das Maldivas, em 2004, num momento de descontração naquele que considera "o paraíso na terra"

Depois da seleção esteve um ano parado. O que fez nesse período?
O meu inglês era muito fraco... era e ainda é e vai continuar a ser, se eu tivesse um bom inglês eu teria tido uma carreira fora de Portugal de excelência, não tenha dúvidas. Nessa altura fui para o Canadá trabalhar para desenvolver também o meu inglês.

Foi trabalhar para onde?
Para um clube onde o Eusébio foi jogador, o Hamilton, e fui campeão de Conferência, num futebol que ainda é um bocado rudimentar e amador. E do Canadá parto para as Maldivas.

Como surgem as Maldivas?
A federação sempre teve um grande respeito por mim e pelo trabalho que fiz. Vou revelar uma coisa. O José Mourinho, depois daquele encontro com o José Veiga, fez-me o favor de fazer dois relatórios de jogos quando eu estava no Imortal. Fez o favor de ser meu observador e esses dois relatórios dele ajudaram-me a pensar o futebol mais à frente.

Porquê?
Porque ele já tinha uma forma de ver o jogo, que estava à frente de todos. A forma como o relatório estava feito, de uma forma simples, objetiva. Eu vi o jogo no relatório. E aquilo ajudou-me também a estruturar os relatórios que fiz para o Mundial da Coreia. E esses relatórios estruturados e trabalhados teriam sido uma base de trabalho muito importante.

E não foram?
Não. Olhe, ainda há dois anos quando estava no Arouca, o Pauleta foi lá e falou de um jogo em que eu tive intervenção, que foi contra a Polónia, que por acaso ganhamos 4-0. Nesse jogo o Oliveira disse-me que se eu quisesse dizer alguma coisa na reunião, o fizesse. E eu disse duas coisas. Falei de dois três jogadores e depois falei do guarda-redes que era o Dudek (que foi do Liverpool e do Real Madrid). Disse-lhes que, em minha opinião, se o Dudek tivesse o lado direito fechado, coberto, e o lado esquerdo completamente aberto, deviam rematar para o lado fechado, porque ele abre o esquerdo porque é o melhor guarda redes do mundo. Disse isto na palestra: “Vamos para o jogo, e no primeiro golo o Dudek está completamente encostado ao poste do lado direito e o Pauleta põe-lhe a bola do lado direito”. Ganhamos 4-0 e três dos golos são pelo lado direito. No final do jogo o Pauleta veio ter comigo e disse-me que quando viu o Dudek com o lado direito fechado lembrou-se do que eu tinha dito e não hesitou. O Jorge Costa e Rui Costa vieram perguntar-me quantos jogos tinha visto da Polónia. Vi dois. Mas nem sempre acontecia ouvirem-me. Houve um jogo que fui ver, que era uma hipótese para os quartos de final, e quando veoltei para estar com a seleção e dar algumas dicas sobre a Coreia do Sul, não consegui chegar ao contacto com ninguém.

Porquê?
Não sei. É aquilo que disse, falta de comunicação, falta de relação. Mas o António Oliveira foi dos menos culpados. Não houve trabalho de equipa e as pessoas esquecem-se de que isso é o mais importante; o “eu” não existe. Existe aí um treinador português que fala muito no "eu", mas a força do coletivo é que conta.

No centro de treinos do Chelsea, com Rui Faria e Silvino

No centro de treinos do Chelsea, com Rui Faria e Silvino

Voltamos às Maldivas. O que gostou, o que não gostou, o que foi uma surpresa?
As Maldivas é o paraíso na terra. Estive lá quase dois anos e fui interrompido, quando íamos para o segundo ano de contrato, porque venho passar cá o Natal e dá-se o tsunami, já não regressei. E lá veio o Desportivo do Aves outra vez.

Que lembranças tem da sua estadia lá?
As Maldivas, comigo, ganham pela primeira vez um jogo fora. Foi na Mongólia, era uma eliminatória para o Mundial. Eu nem pensava ir para as Maldivas, porque concorri com 50 treinadores a nível mundial e fui eu o escolhido, talvez pela experiência de ter estado no Mundial da Coreia e do Japão. Mas tenho duas histórias engraçadas.

Vamos a isso.
Nem pensava eu ainda ir para as Maldivas, quando o Humberto Coelho foi para selecionador da Coreia do Sul, que tinha ficado em quarto no mundial. Como sou amigo dele e acho temos de estar sempre a cooperar uns com os outros, telefonei-lhe e perguntei-lhe se ele queria os relatórios que fiz para a seleção e que poderiam ajudá-lo. Mandei-lhe. Não é que passados uns tempos fui para as Maldivas e não é que depois de eliminarmos a Mongólia fui para o grupo da Coreia, do Humberto Coelho, do Vietname e do Líbano. E vai-me sair quem? Quem eu tinha entregado o ouro (risos). Mas empatámos, o que foi um escândalo ainda por cima porque eu não tinha disponível o melhor jogador da seleção. E na sequência desse escândalo o Humberto não aguentou o impacto e foi despedido.

Qual é a outra história?
O primeiro jogo que faço pelas Maldivas é na Mongólia. E nas Maldivas a temperatura média mínima é de 25 graus e a máxima de 37. Fomos à Mongólia, em dezembro, onde a temperatura era de - 20º. Como não tínhamos roupa, o manager foi ao Sri Lanka buscar roupa que se ajustasse ao frio que íamos encontrar. Quando chegámos e pusemos o nariz fora do avião percebemos que aquela roupa era mais para chuva do que para frio. Mas a federação da Mongolia já previa isso e arranjou-nos um fato tipo pijama, em caxemira, que é extremamente quente. Foi o que nos ajudou a aguentar quando estávamos fora do hotel!

Nessa altura esteve novamente sozinho, sem a família?
Nessa altura, como os meus filhos já estavam emancipados, a minha mulher foi comigo. Gostou muito, porque o povo e o país são lindíssimos.

Até que parte para o Kuwait em 2007.
Quem tem uma grande intervenção para eu ir para o Kuwait é o nosso ex-selecionador Scolari. Tornamo-nos amigos.

Como?
Houve uma altura, quando vamos para o Mundial, em que estou por cá e vou a uma entrevista à RTP Norte. Nessa altura toda a gente batia na seleção e no Scolari. A determinada altura querem que fale da seleção, se calhar pensavam que era mais um que ia bater na seleção. Mas eu já tinha a experiência das seleções, por três vezes. Começo a dizer o que penso, o porquê do estágio, daqueles jogos, da equipa, etc. No outro dia de manhã liga-me um elemento da federação e diz que tem um amigo que gostava de me dar uma palavra. Quem era esse amigo? O Scolari. Que me diz: “Porra, até que enfim que oiço um tipo a falar de futebol, a falar de seleção, a perceber o espírito daquilo que foi a nossa preparação até hoje”. Estávamos na antevéspera da preparação do nosso jogo para o mundial Alemanha 2006. “Quero-te agradecer porque tu percebes tudo o que quero fazer na seleção e disseste tudo aquilo que eu gostaria de dizer e não posso”, disse-me. Respondi-lhe que só disse aquilo que entendo e penso. E a coisa passou. Passados uns tempos, a seleção vai fazer um jogo ao Kuwait e eu tinha um contrato apalavrado com o Kazma e vou jantar com a seleção, lá no Kuwait. E ele diz-me: “Há aí um clube, o Al-Salmiya, que quer um treinador e era ideal para ti, é mais vantajoso”. E fui. Davam-me mais dinheiro, fui. A intervenção foi dele, do Scolari.

A sua mulher foi consigo, não estranhou a cultura, tão diferente da nossa?
Nas Maldivas também são muçulmanos, embora seja um país diferente que vive muito do turismo e é virado para o mar. Mas no Kuwait não houve grandes dificuldades, pior foi quando fomos para a Arábia Saudita, mas já lá vamos.

Na Índia, onde foi treinador da equipa do Churchill Brothers, na época 2011/12

Na Índia, onde foi treinador da equipa do Churchill Brothers, na época 2011/12

Pois, porque antes ainda foi para Moçambique.
É verdade. Também me marcou muito. É um povo mais sereno, mais calmo do que o angolano e é um país também muito bonito.

Depois ainda vem a Portugal treinar o G. Vicente e o Estoril Praia, antes de partir para o Al Ittihad FC, na Arábia Saudita. A que é que lhe custou mais adaptar-se?
A mim não me custa nada, porque para onde vou eu aculturo-me imediatamente. Custava mais era a minha mulher, porque queria pegar no carro e não podia conduzir, queria sair e tinha de estar sempre com a abaya (lenço).

Nessa época vai acompanhar o Manuel José.
Ele vai como treinador da equipa principal e eu vou para a equipa B.

Disse que o maior choque foi na Arábia Saudita. Porquê?
Porque sente-se que há uma insegurança na relação com toda a gente. A religião comanda tudo. Nunca se pergunta ou diz a que horas é o treino. O treino não tem hora, o treino é depois da reza. Vai almoçar, é antes da reza, vai ao shopping, depois da reza, não é nem às quatro, às cinco ou às oito horas. A reza é a reza. �� o fundamentalismo da reza.

Nesses países aproveitou para conhecer os locais mais históricos?
Seguramente. Mas quando os estrangeiros que não são muçulmanos vão jogar a Meca, não vão no autocarro com os jogadores, vão à volta de Meca, não entram na cidade. Quer em Meca, quer em Medina. Nunca lá fui, nem eu nem nenhum europeu. Quer dizer, fui mas não fui àquele que é o lugar sagrado deles. Enquanto que noutros países não é assim, eu estive no Muro das Lamentações e nas sinagogas em Israel, nas mesquitas. Mas naqueles dois pilares da civilização islâmica não se entra; só entram eles.

Entretanto tem uma passagem pela Índia. Outra realidade.
Um país fantástico. Cheio de cores, sabores e contrastes. Estive fundamentalmente em Goa, mas passei por muitas cidades. A nossa cultura da arquitectura está profundamente marcada em Goa, é de uma religiosidade tremenda.

Junto ao Muro das Lamentações, em Israel. Esteve com Lito Vidigal a treinar o Maccabi Tel Aviv

Junto ao Muro das Lamentações, em Israel. Esteve com Lito Vidigal a treinar o Maccabi Tel Aviv

É um homem religioso?
Não tanto como deveria ser. Quando era jovem a minha mãe dizia que tinha de ir todos os dias à missa. Deixei de andar pelas missas, embora tenha a minha fé e seja católico. Não tenho aquele vínculo. E depois de percorrer tantos países as dúvidas são muitas.

Qual é a dúvida que o inquieta mais?
Na última vez que estive em Belém, havia uma fila enorme para podermos irmos ao local onde supostamente Jesus nasceu. E nós queríamos ir rápido e havia uns tipos que avançavam sobre os outros. Tivemos que subornar os tipos. Num lugar sagrado. É um negócio terrível. É a sobrevivência. É um mundo complexo este.

Como é que se dá a sua ligação ao Lito Vidigal? Como seu conselheiro?
O Lito foi meu jogador na seleção de Angola e era um tipo que quase não falava e que liderava. Ele não é um grande letrado, mas é muito inteligente. E mantivemos ao longo do tempo esta relação de proximidade e dissemos sempre: havemos de nos juntar. E é engraçado. Só aconteceu com ele, e também com o Silvino que foi meu jogador no Aves há 32 anos e que está agora no Manchester United com o Mourinho, em que também criámos uma relação muito forte. Em todas as saídas de um lado para o outro, eu e o Lito conversávamos. Ele ouvia-me, eu ouvia-o. O Lito é um tipo que tem um jeito para o futebol muito diferente dos outros. Ainda não chegou o dia dele. Falamos muito das coisas, como eu falava muito com o Mário Wilson. Quando foi da ida dele para a seleção de Angola, eu estava na Arábia Saudita e ele liga-me a para trocarmos opiniões.

Quando se torna adjunto dele?
Eu não sou um adjunto. Eu sou um bocado aquilo que os americanos fazem no basquetebol, que tem um treinador mais experiente. Eu nunca mais serei treinador principal. Este lugar que estou a ocupar vai ser um lugar que muitos jovens treinadores que têm muita qualidade, vão ter necessidade de ter, um conselheiro, o treinador dos treinadores. Porque eu vou para além do Lito, dos adjuntos, a minha relação vai também para os jogadores, para os dirigentes.

Ou seja alguém mais velho e experiente que ajuda os treinadores mais jovens.
Exatamente. O Extremo Oriente ajuda-nos a perceber isto. O mais velho lá é uma figura muito respeitada. Eu já cometi muitos erros, você já cometeu alguns, mas vai cometer muitos mais, e se refletirmos sobre esses erros poderemos não os repetir. Antecipamos aquilo que poderá acontecer como erro. Podemos jogar na antecipação do treinador, do jogador. Quantas vezes é que o jogador agora se aproxima de mim com dúvidas, necessidades de orientação, e que eu o ajudo a encontrar os melhores caminhos? O saber da experiência é muito importante.

Em Tel Aviv, com a mulher que passou a acompanhá-lo sempre, depois da emancipação dos filhos

Em Tel Aviv, com a mulher que passou a acompanhá-lo sempre, depois da emancipação dos filhos

Neste momento o que está a fazer em concreto a nível profissional?
Nesta altura como sabe estamos sem clube; viemos do Maccabi Tel Aviv, onde estivemos quatro meses. Esta semana já comentei jogos para a rádio. Sou formador. E agora aproveito estes tempos para contactar com pessoas que já não vejo há 30 ou 40 anos.

Porque vieram embora?
Porque perdemos a final da Taça, no sítio onde eu mais queria ganhar a Taça, em Jerusalém. Perdemos nos penáltis. Fizemos uma final da Taça em Jerusalém, raramente se faz lá. Foi uma mágoa tremenda.

Qual é a maior mágoa que guarda da sua carreira?
Não tenho muitas mágoas. Há uma, que me marcou, que é a saída em vésperas do Natal de Paços de Ferreira. O Sargento Gomes era o presidente. Era um indivíduo mau. Que Deus tenha-o no céu, mas era mau como o Diabo, foi dos tipos que não gostei.

E a maior alegria?
São tantas. A primeira subida do Aves à I divisão marca sempre. Foi há 32 anos. Muita dessa gente já morreu.

Algum jogador que o tenha marcado profundamente?
Vários. É difícil dizer. Olho agora para um menino que fui buscá-lo ao Santa Maria e que começa a brilhar no SC Braga, o Paulinho. Mas, eu tive uma relação muito forte com o Silvino. Posso contar uma história com ele. As nossas famílias tornaram-se amigas. O Silvino quando estava no FCP não foi inscrito na Taça UEFA. Ele tinha 36 anos nessa altura e veio desabafar comigo. “Oh prof. eu vou deixar de jogar futebol”. Estava eu, a minha mulher, a mulher dele e ele faz-me esta conversa. Eu disse-lhe: “Se tu, com a qualidade que tens, deixas de jogar futebol, eu nunca mais falo contigo. Se há coisa que não podes deixar de fazer é deixar de jogar futebol, nunca podes desistir. Tens ainda tempo para ser guarda-redes”. Até que o Vítor Baia teve uma lesão, há a morte do Zé Beto, o Silvino vai para o FCP novamente, foi campeão pelo FCP, é chamado à seleção, com 38 anos, e é ele que está naquele famoso jogo da expulsão do Rui Costa pelo famigerado Marc Batta. É ele o guarda redes que poderia ir ao Mundial de França, caso tivéssemos sido apurados, o que não aconteceu por causa dessa arbitragem. Repare, ele não deixou de ser jogador, manteve-se. Mas estava relutante e eu agarrei-o, disse-lhe que não podia desistir.

Prof. Neca com os filhos, ainda pequenos. A filha formou-se em Economia e o rapaz em Arquitectura

Prof. Neca com os filhos, ainda pequenos. A filha formou-se em Economia e o rapaz em Arquitectura

Já se sente na reforma?
Não, Deus me livre. Muito longe disso.

Tem mais alguma história para contar?
Ui, tenho tantas. Olhe, houve houve um jogo Riopele-Benfica, quando estávamos na I divisão. E o Orlando era o nosso defesa central e estava encarregado de marcar o famoso Vitor Batista. O jogo decorria e de vez em quando falávamos uns com os outros. Às tantas, o Vitor Batista pergunta ao Orlando em que é que ele trabalha, porque todos trabalhávamos naquela altura na fábrica, e o Orlando responde que é carpinteiro. O Vitor Batista: “Carpinteiro?! Carpinteiro?!. Então o senhor Vítor Batista a jogar contra um carpinteiro?”. E vira-se para o Fernando Caiado que era o treinador do Benfica e diz-lhe: “Eu quero sair. Quero sair. Então estou aqui a jogar contra um carpinteiro?”. O Orlando perdeu a cabeça e queria bater no Vitor Batista ao intervalo (risos). O Vitor Batista do Benfica, da seleção, ia jogar com um jogador que era um carpinteiro... para ele era um desprestígio enorme.

E dos tempos que passou fora?
Tenho muitas. No meu primeiro jogo em Angola, depois de ganhar cá a Taça de Portugal pelo Benfica, frente ao Sporting, na célebre e triste Taça do very light, em que ganhámos 3-1, era Mário Wilson treinador, calha-me logo um jogo a eliminar. A seleção que ganhasse iria para a fase de grupos para o Mundial de França 1998. Saiu em sorte o Uganda. E tínhamos de lá jogar. Havia tradição dos voos serem feitos por vezes pelo avião do ex-presidente Eduardo dos Santos ou pelo avião russo Antonov, que era um avião de carga enorme. Os jogadores tinham muito medo de voar naquilo. Eu falei com o presidente da federação, fiz-lhe ver que era um jogo muito importante, o primeiro enquanto selecionador, e era bom que tudo corresse bem. Os jogadores também faziam grande pressão para não irmos no Antonov. E no dia seguinte fomos para o aeroporto convencidos que iríamos num voo normal. Mas fomos para o aeroporto militar e a reação dos jogadores foi terrível. Entramos no Antonov, havia grades de cerveja, caixas de whisky - e assentos, nada. Ia o presidente da federação que era deputado e mais algumas deputadas do MPLA. Fomos todos sentados no chão, em cima das grades de cerveja, de caixas e foi um voo horrível porque contávamos demorar de Luanda a Kampala, cerca de três horas e demoramos quatro horas e meia. Foi o maior susto da minha vida.

Porquê?
Aí é que está a história. Só passadas umas semanas é que me explicaram o que tinha acontecido. Nós atravessamos sem autorização o Congo que estava em guerra. E o piloto para sair da zona de conflito fez um desvio e depois andou perdido pelos ares! Por isso chegamos hora e meia atrasados.

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