www.sabado.ptFlash - 17 set 05:00

Com Catalunhas e dentes

Com Catalunhas e dentes

Já não é folclore. Apesar da sua ilegalidade, o referendo sobre a independência da Catalunha parece inevitável. A grande questão é a de saber se, a seguir, vence o direito, a política, a polícia, a negociação ou o caos

"Catalunha, triunfante, voltará a ser rica e abundante. Abaixo esta gente, tão ufana e arrogante!" São as palavras iniciais do curto hino catalão, Els Segadors, criado em 1899 por Emil Guanyavents, mas que descreve uma revolta real do século XVII.
Na verdade, apesar do desejo de alguns – da "extrema-direita" à "extrema-esquerda" – de ver no nacionalismo catalão um produto artificial da pequena burguesia local, a História não mente.

Pela especificidade geográfica, pela cortina montanhosa, pela proximidade das Baleares e de França, Catalunha sempre foi diferente, além da diversidade nas gentes, na cultura, na língua, nos costumes políticos e na gastronomia.
Mas os catalães não são soldados, e muito menos sabem ser um império couraçado.

A partir do fim do século XIV, até onde viveram como corpo independente (sozinho ou na união voluntária com Aragão), foi difícil resistir à política madrilena, feita de argúcia, inteligência, negociação superior e força bruta. Em 1640, porém, a 7 de Junho, no dia do Corpo de Cristo, os ceifeiros ergueram-se. Foi sangrento. O hino também tem o "Bom golpe de foice, defensores da terra!".

Claro que esta insurreição, que durou 12 anos e ajudou a libertação de Portugal, foi fruto de um processo de amadurecimento da consciência nacional, de reforço das instituições regionais, e de um complexo esquema de alianças e promessas com o trono francês. O advogado Pau Claris foi o improvável rosto civil da revolução, mas esta também teve uma vitória militar sobre Madrid, a batalha de Montjuic (1641), que impediu durante algum tempo a progressão espanhola para Barcelona.

Terminada na derrota e na repressão, a aventura nacional ficou sempre a dormir, mais ou menos febril, na consciência catalã. Os seus acessos, hoje, são reais, mas diferentes.
Ninguém saudável ousa pensar em guerra civil (ou internacional, para quem pense que Espanha é o estrangeiro), e como diz a presidente do parlamento catalão, Carme Forcadell, o povo autonómico aprecia a paz, a ordem e a lei.
Mas o problema é precisamente este.

Porque o referendo "constitutivo" (e não meramente "consultivo") sobre a independência, desejado pelo executivo catalão de Carles Puigdemont, por uma maioria do parlamento local, e marcado para 1 de Outubro, é ilegal, face à lei fundamental do Estado espanhol.

O Tribunal Constitucional, em Madrid, referiu-o em diversos acórdãos, abrindo caminho para a invocação do art.º 155 da Norma Básica: este obriga o governo nacional a repor a legalidade, em qualquer região autónoma onde esta esteja ameaçada ou subvertida, e onde os poderes regionais não saibam, não queiram ou não possam restabelecê-la.
Percebe-se o drama, e o dramatismo.

Tão grande que o governo catalão recuou, atirando para os autarcas a responsabilidade de abrir mesas de voto. Josep Fèlix Ballesteros, presidente da Câmara de Tarragona (uma das zonas de maior penetração islâmica), já disse que não violaria a Constituição. Ada Colau, responsável de Barcelona, ligada ao Podemos, afirmou que daria condições para o voto, mas não se pronunciou nem sobre o nacionalismo (credo!), nem sobre o separatismo (ui!), nem sobre a ilegalidade (ok...).

Ao contrário do hino, não é certo que uma Catalunha independente, já, à pressão, fosse mais próspera. O representante dos empresários locais, Josep Bou, fala em colapso. A Moody’s diz que baixaria a notação de Espanha e da Catalunha. Espanha perderia 20% do PIB e Barcelona ganharia milhares de milhões de dívida. E de dúvida.
Bruxelas está contra, por causa da questão legal. 60% do total dos espanhóis também. Na Moncloa, já ouvi dizer que a seguir podia vir a Galiza, o País Basco, a Andaluzia.
Uma solução intermédia, "realista", seria a revisão constitucional, a realização de um referendo legal e a continuação do exemplo de transparência do Reino Unido face à Escócia.
Mas haverá cabeças frias suficientes para um compromisso?  

Os sobreviventes
A catástrofe caribenha mostrou a importância das forças armadas como suplemento de emergência, regimes políticos à parte.
Isso foi evidente com o envio de militares e meios aéreos franceses, holandeses e britânicos para as ilhas devastadas, com o uso do exército nas evacuações maciças (e ordeiras) de Cuba, e com o dispositivo de um porta-aviões, dois porta-helicópteros e mil fuzileiros na costa da Florida.
Por outro lado, a sofisticação do sistema de alerta precoce SPORT da NASA, cujo comando está no mesmo edifício do controlo meteorológico federal, permitiu prevenir e salvar milhões de vidas.
E Portugal andou como devia, ao repatriar prontamente os seus cidadãos.
Sobreviver também é arte. 

Desejos de rápidas melhoras
Numa entrevista recheada de piadas frustradas, o ministro da Defesa nacional não sabe distinguir entre "obsolescência" e "validade": a grande maioria das armas nacionais em serviço é obsoleta, mas válida.
Depois, não conhece, sobre Tancos, a diferença entre falta de prova sobre a autoria e falta de prova sobre o furto. Não sabemos quem subtraiu, mas a investigação criminal baseia-se na prova material da subtracção.
Por fim, continua em estado de negação sobre a gravidade comparada do facto, sendo este o maior furto na zona NATO, desde a fundação da mesma.
Mas a Defesa deve concluir um processo negocial essencial: o da substituição dos C-130.
É assim preciso ajudar o titular a acabar o seu mandato com dignidade. 

Filmes de marca
Em A Viagem a Espanha, de Michael Winterbottom, o duo Coogan-Brydon volta a explorar as mesas famosas da Europa. Prosseguem os duelos de imitações, anedotas "cultas", choques de personalidade, solidão, e um fim inesperado. Para apreciadores, é genial.
Detroit, o último de Kathryn Bigelow, mostra como os motins raciais de 1967 (que detalhei em O Pacto Donald) são cruciais para explicar o presente dos EUA.
6 Dias descreve a revelação ao mundo do SAS: foi a Operação Nimrod, em 1980.
It, de Andrés Muschietti, revisita de forma soberba o universo de Stephen King.
E Arranha-Céus, baseado na clássica distopia de J. G. Ballard (na foto), não falha: narra os males do mundo, sumariados num arranha-céus babilónico.

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