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Viagem: Do turbilhão à tranquilidade em Marraquexe

Viagem: Do turbilhão à tranquilidade em Marraquexe

Na “cidade vermelha”, como é conhecida, pelos seus edifícios terracota, pode-se parar em jardins frescos e exuberantes, ou mergulhar no emaranhado da cidade antiga, onde sobem os decibéis, a temperatura e a emoção

Estamos ainda enclausurados dentro do autocarro, a percorrer as largas avenidas que nos conduzem do hotel ao centro histórico de Marraquexe, mas uma pergunta paira no ar, enquanto observamos os extensos jardins e os cuidados canteiros da cidade: donde vem a água que os alimenta, quando à sua volta só se vêm as montanhas de origem vulcânica e os terrenos áridos? Mohamed Rakata, o nosso guia, pede-nos um pouco de paciência, porque a resposta aguarda-nos na rua Mouassine, uma das vias frenéticas da Medina (a cidade antiga, dentro das muralhas do séc. XII, com um perímetro de 19 quilómetros). Ali se esconde um riad cujas origens remontam ao séc. XVI e onde viveram vários homens influentes do reino, sendo progressivamente entregue ao abandono a partir dos anos 30 do séc. XX. Até ser recuperado por um casal de italianos e devolvido à cidade, em março de 2016, como Jardim Secreto. “Este é um verdadeiro sítio marroquino”, sublinha Lauro Milan, o proprietário que nos recebe.

Aqui é possível conhecer o sistema secular de abastecimento de Marraquexe, uma combinação de khettaras e seguias (túneis subterrâneos e canais abertos) que conduziam as águas sob a força da gravidade, desde as montanhas do Atlas até aos reservatórios, abastecendo depois toda a cidade. Dos muros altos e discretos da entrada do palácio, não se tem a perceção da sua dimensão.

O jardim é uma das peças centrais, com dois pátios distintos, o mais amplo ao estilo islâmico (dividido em quatro, com oliveiras, limoeiros, laranjeiras, figueiras e romãzeiras), outro de plantas ex��ticas, mais pequeno e exuberante. “As únicas plantas originais são as palmeiras, tudo o resto foi plantado por nós”, diz o italiano alto, calvo e de olhos azuis, a viver e trabalhar em Marraquexe há 20 anos (na cidade vivem cerca de 45 mil estrangeiros, de múltiplas origens), na reabilitação de edifícios antigos.

A medina 
e a célebre praça Jemaa el Fna 
são os locais onde todos se reúnem: os habitantes e os turistas

A medina 
e a célebre praça Jemaa el Fna 
são os locais onde todos se reúnem: os habitantes e os turistas

Rui Duarte Silva

Rui Duarte Silva

A experiência acumulada revelou-se útil em cada detalhe da obra, desde a utilização do estuque característico, aos passeios cobertos de azulejos verde-água. “A capacidade local é fantástica, ainda conseguimos artesãos para fazer todos os acabamentos à moda antiga, desde os entalhes da madeira aos mosaicos feitos à mão”. A renovação do Jardim Secreto demorou cerca de três anos e esteve a cargo do arquiteto paisagista Inglês Tom Stuart-Smith. Um registo fotográfico assinala a enorme transformação num tão curto período de tempo. A intenção foi preservar a identidade de um jardim marroquino do séc. XIX, ao qual remontavam as ruínas. A água tem um papel fundamental no seu desenho geométrico, com as fontes no centro e os canais a dividir e a irrigar cada recanto. Lauro conduz a visita, visivelmente orgulhoso. “Isto não é um negócio, nunca conseguiremos recuperar o investimento que fizemos [mais de quatro milhões de euros] com as receitas da bilheteira, mas era a decisão certa, devolver o palácio aos marroquinos”, sublinha.

Confusão irresistível

Trespassadas as portas do riad, aumenta o barulho e a temperatura, que nesta altura pode subir acima dos 40º. �� irresistível perdermo-nos pelas ruas intrincadas da Medina, resguardadas do sol por coberturas improvisadas, onde somos sucessivamente interpelados por comerciantes e estamos constantemente em risco de atropelamento por uma carroça puxada por burros, uma motoreta ou uma bicicleta. “Sem comércio, Marraquexe não existe e regatear é o desporto nacional”, diz Mohamed Rakata, procurando manter “a família portuguesa” sob o seu controlo. Guia há mais de 20 anos, de espanhol, italiano e francês, desde as gravações em Marrocos da telenovela O Clone, em 2001, aprimorou-se no português, para responder ao aumento massivo de turistas brasileiros. É ele quem nos conduz à Herboristerie Bab Agnaou (junto à bela porta da muralha com o mesmo nome), com um sistema de marketing e de vendas infalível. Um homem de bata branca recebe-nos numa sala, com as paredes cobertas de frasquinhos coloridos, e durante cerca de 30 minutos, fala das propriedades de cada produto, desde a mistura de temperos para mil e um cozinhados aos cristais de eucalipto (ótimos para gripes e constipações), passando pelo famoso óleo de argan (argão), tanto em versão culinária como cosmética e terapêutica. Desafiamo-lo, caro leitor, a resistir às compras.

Um desafio extensível aos inúmeros e labirínticos souks (mercados) da Medina. Os tapetes, as peles, os candeeiros de ferro, as pratas e bijuterias, as especiarias ou os têxteis disputam as atenções dos passantes, numa euforia de cores e de cheiros.

É mergulhar nas ruas cobertas de toldos e deixar-se levar. Eventualmente, os caminhos conduzirão à famosa praça Jemaa el Fna, classificada como Património Mundial da UNESCO, onde outro turbilhão nos envolve. Os vendedores de sumos de fruta a clamar por atenção, as senhoras que nos agarram as mãos para uma tatuagem com henna, os encantadores de serpentes e os amestradores de macacos atentos a qualquer fotografia (um clic e são logo cobradas umas moedas), os aguadeiros com as suas vestes coloridas e sinos, os condutores das caleches a propor um passeio, os músicos de rua, os vapores das bancas de comida que começam a pairar mal o sol se põe.

É nesta altura que se costuma subir a uma das varandas dos cafés e restaurantes ao redor da praça para apreciar este movimento em crescendo, quando as temperaturas chegam a níveis mais aceitáveis. Próxima da praça, a mesquita Koutoubia (construída em 1158, cuja entrada está interdita a não muçulmanos) e o parque envolvente oferecem um cenário bem mais calmo.

Para algo completamente diferente, pode-se apanhar no parque um shuttle gratuito até uma das novas atrações de Marraquexe, o Jardim Anima, uma criação do multifacetado artista austríaco André Heller, apaixonado por Marrocos há longas décadas e desejoso de deixar um testemunho significativo no país de adoção. Percorrem-se 28 quilómetros pela estrada do vale de Ourika, sob a presença vigilante das montanhas do Atlas, até se chegar a esta versão do regresso ao paraíso, inaugurada em abril de 2016, após 8 anos de intensos trabalhos. Uma combinação de exotismo botânico e de singulares esculturas, pertencentes à coleção privada de Heller, de múltiplos artistas (inclusive, um dos Pensadores de Rodin). Não há, no entanto, qualquer indicação sobre a autoria das obras, nem sequer um percurso obrigatório a seguir. Os visitantes são convidados a deambular livremente pelos dois hectares do jardim, surpreendendo-se ao longo do caminho com peças imensamente coloridas, de maior ou menor dimensão. Ao contrário do conhecido Jardim Majorelle, no centro de Marraquexe (ver caixa), não há filas na entrada, nem são precisos longos minutos para se obter uma foto sem humanos à vista. No Anima, há qualquer coisa de surreal e de mágico a brotar destas terras outrora desertas. Detemo-nos sobre a cabeça gigantesca cravejada de mosaicos (já tínhamos visto uma versão miniatura à venda nos souks), cuja boca solta um vapor de água. Aqui, só este ténue sopro quebra o silêncio.

(A VISÃO viajou a convite do Turismo de Marrocos e da Royal Air Maroc)

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