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BLITZ – Dave Grohl, o gajo mais porreiro do rock: a entrevista BLITZ

BLITZ – Dave Grohl, o gajo mais porreiro do rock: a entrevista BLITZ

Nos bastidores do festival NOS Alive, falámos em exclusivo com um homem torrencial que só se sente confortável à frente das multidões. Os eternos Nirvana, o disco novo (que acaba de sair) e o dia em que caiu do palco e partiu a perna foram alguns dos temas de conversa com um dos heróis do rock do último quarto de século

Passam quinze minutos das dez da noite quando recebemos, através de um telefonema que dura meio minuto, a confirmação: Dave Grohl espera por nós nos bastidores do palco principal do NOS Alive, onde àquela hora toca ainda a feérica dupla The Kills. Dali a umas duas horas, voltaremos a ver Alison Mosshart, frontwoman extraordinaire, naquele mesmo palco, protagonizando um acalorado dueto com o homem dos Foo Fighters em «La Dee Da», um dos temas do novo disco dos norte-americanos, Concrete and Gold, nas lojas em setembro. Por enquanto, porém, a nossa missão é outra: atravessar rapidamente o recinto do festival, curiosamente bem pacato para o adiantado da hora, e esperar do lado direito do palco que os representantes da editora da banda em Portugal nos venham buscar.

Ultrapassado o gradeamento, dirigimo-nos aos contentores onde uma folha A4 indica o local do tesouro: Foo Fighters, lê-se em letras pretas sobre papel branco. No espaço dedicado à banda, que durante a sua estada em Portugal ficou alojada num hotel próximo do recinto, vemos passar Pat Smear, guitarrista dos Foo Fighters, em tempos músico de estrada dos Nirvana (vemo-lo no concerto do MTV Unplugged, por exemplo), e membro destacado da comunidade punk norte-americana (pertenceu à formação original dos Germs, cujo primeiro e único álbum saiu em 1979). Minutos antes de termos luz verde para avançar e dar um passou-bem a Dave Grohl, e enquanto o próprio assina uma cópia do documentário que realizou, Sonic Highways, a pedido de uma fã portuguesa, vemos passar uma das suas filhas. Dedicado pai de família, o nativo da pequena cidade de Warren, no Ohio, criado em Springfield, na Virginia, viria a fazer referência às suas três filhas e até à sua mãe na conversa que, dentro de pouco tempo, encetaremos, sentados nos sofás escuros e confortáveis de um dos contentores ocupados pela sua banda e respetiva comitiva.

«HI, I'M DAVE!»

Assim se apresenta-se com naturalidade um dos derradeiros heróis do rock contemporâneo. Já no interior do contentor, o norte-americano põe-nos à vontade e mostra-se disponível para responder com o pormenor possível a uma entrevista que, dentro dez minutos, terá de estar finalizada. «Tanta pressão», brincamos, para quebrar o gelo. «Sempre!», ri-se o veterano, que já há de ter dado largas centenas de entrevistas na vida.

Se a entrevista esteve para não acontecer (na véspera, a banda acabou por cancelar em cima da hora o único encontro marcado com a imprensa espanhola), o próprio concerto em Algés - primeiro dos Foo Fighters em Portugal desde 2011 - esteve em riscos de ficar sem efeito. Pelo menos, foi o que Dave Grohl e os seus companheiros de banda - Nate Mendel (baixo), Pat Smear (guitarra), Taylor Hawkins (bateria), Chris Shiflett (guitarra) e Rami Jaffee (teclas) - temeram quando, horas antes, se viram retidos na pista de um aeroporto madrileno. Depois de atuarem, a 6 de julho, no festival Mad Cool (que ficaria manchado, na noite seguinte, pela morte de um acrobata no recinto), os homens agora radicados em Los Angeles entraram num avião com destino a Lisboa. Mas a meteorologia não parecia querer colaborar com os planos de digressão.

«Foi uma das maiores tempestades que já vi na vida!», exclama Dave Grohl, abanando os braços no ar, tentando reproduzir com recurso a onomatopeias os assustadores sons da intempérie. «Uma loucura. Tínhamos acabado de entrar no avião, estávamos ali sentados e começa a chover. E pensámos: bom, devem esperar que a chuva pare [para descolar]. Nisto, desata a chover mais e mais, o vento começa a soprar e o avião está todo a chocalhar!», conta, com mais gestos para explicar a oscilação do aparelho, ainda parado na pista. «E depois granizo! Sabes, pedaços de gelo?», explica, receoso porventura de que não conhecermos a palavra «hail». «Fucking crazy. Tivemos de ficar ali sentados à espera umas duas horas».

Ultrapassada a tormenta, os Foo Fighters chegaram ao aeroporto Humberto Delgado a tempo de começarem o seu concerto de Algés com toda a força e pontualidade. Antes de reencontrarem o público nacional, os seis roqueiros já pressentiam que o espetáculo lhes iria correr de feição. Ou, pelo menos, era nisso que Dave Grohl acreditava, e com razão. Ao longo de duas horas e meia, que conseguiram rechear de temas conhecidos da grande maioria dos cerca de 50 mil festivaleiros que esgotaram este dia de NOS Alive, houve tempo para interagir com os fãs de forma divertida e espontânea. Perto do final do concerto, e depois de uma celebradíssima passagem pelo hit «The Best of You», uma das canções mais aplaudidas e participadas da noite, o público desatou a entoar aquele tipo de cântico que associamos a estádios de futebol: dos clássicos «E salta, Dave, e salta, Dave, olé, olé!» e «Campeões, campeões, nós somos campeões», o vocalista e guitarrista conseguiu fazer «hit songs», como chamou aos improvisos brincalhões tendo por base as melodias sugeridas pelo público. Quando os dotes canoros dos fãs enveredaram pelo hino nacional, desistiu e prosseguiu com a programação habitual: mais uns quantos temazos, como diriam nuestros hermanos, rumo à derradeira consagração e ao adeus, já perto das 2h30. Quando nos recebeu nos bastidores, de camisa de flanela aos quadrados pretos e vermelhos, Dave Grohl já sabia que ia correr bem.

«Antes de cada concerto, subo ao palco e olho para o público. E só de olhar para o público sei dizer se o concerto vai ser uma loucura. Este vai ser», afiançou-nos, cerca de uma hora antes de ligar as «turbinas» ao som de um trio de respeito: «All My Life», «Times Like These» e «Learn To Fly». «Quando vejo um público que parece uma bomba, à espera de ser detonada, defino e escrevo o alinhamento para que exploda». Na véspera, em Madrid, os Foo Fighters escolheram abrir o concerto com «Everlong», o épico de 1997 que, em Portugal, serviu para encerrar a noite.

«Por vezes tento variar os alinhamentos», contou-nos. «Temos canções que são muito boas para começar concertos, outras que são muito boas para acabá-los, outras ainda que ficam bem juntas, umas que por vezes juntamos de forma cronológica... [escolher uma setlist] é como fazer um puzzle».

Foo Fighters no NOS Alive'17

Foo Fighters no NOS Alive'17

Rita Carmo

Este verão, os Foo Fighters andam em digressão pela Europa, marcando presença em certames reputados, como os festivais de Roskilde, na Dinamarca, ou o Rock Werchter, na Bélgica. Mas um dos pontos altos desta sua tournée terá sido, obrigatoriamente, o concerto em Glastonbury, o mítico festival britânico onde, há dois anos, se viram impossibilitados de atuar, depois de Dave Grohl ter caído do palco, na Suécia, e partido a perna. Na altura, a banda ainda ponderou manter a data no gigantesco festival inglês, mas o seu timoneiro foi admoestado pela equipa médica que o acompanhou e acabou por seguir as suas ordens, cancelando o aguardado espetáculo.

O regresso a Glastonbury, no passado mês de junho, revestiu-se assim de uma importância emocional diferente. Pela primeira vez no estatuto de cabeças de cartaz, os Foo Fighters deram um concerto cheio de peso & alma - algo que é percetível mesmo através de um streaming online, visto num sofá a milhares de quilómetros de Inglaterra. Quisemos saber: como é realmente a sensação de ter uma multidão daquela envergadura (150 mil fãs é a estimativa) à sua frente, suspensa da sua música e das suas palavras?

«É estranho, sabes», começa Dave Grohl por tentar explicar. «Porque às vezes sinto que aquelas duas horas são as únicas duas horas do dia em que estou confortável. E que nas outras 22 me sinto estranho, como que deslocado», confessa. «Num espetáculo como o de Glastonbury, faço o mesmo [que nos outros]: subo à parte lateral do palco... e desta vez vi que o Jeremy Corbyn, o político, estava a fazer um discurso. E pensei: bem, vamos incendiar esta merda toda! [No original: we're gonna light this motherfucker up!]. Preciso de ir sozinho, primeiro, para ver como está o público».

«Isto no fundo é como ter um encontro, um blind date», compara, tentando sempre ser o mais claro possível. «Não conheces a outra pessoa, mas alguém diz: "vocês os dois deviam ir jantar". Então vais e encontras-te com a pessoa pela primeira vez... Demora uns minutinhos. Se for assim», diz, estalando os dedos para sugerir um clique imediato, «é a melhor noite da tua vida. Se for "meh...", tens de trabalhar, tens de te esforçar. Mas em Glastonbury foi assim», garante, estalando os dedos mais uma vez.

É este o mesmo homem que, em tempos, admitiu sofrer de stage fright (um medo acentuado de subir ao palco, com manifestações físicas e psicológicas)? «É verdade», confirma. «E há alturas em que ainda me sinto inseguro e tenho de me concentrar no que estou a tocar. Mas há outras em que olho à volta, para os rapazes da minha banda... Nós somos amigos há 22 ou 25 anos», lembra. «Vejo ali os meus amigos em palco comigo e penso: "isto é espetacular!". Só ter sobrevivido a tudo e poder fazer isto todas as noites... Olho para o Taylor, e nós somos irmãos. Ele faz um erro, eu olho para trás e rio-me. Há outras partes das canções em que improvisamos. Vou ter com ele à bateria e comunicamos assim: eu olho para ele e digo "chiiuuuu", e ele abranda e começa a tocar um ritmo maluco, e os outros três têm de nos seguir. Às vezes ainda fico nervoso, nos concertos, mas nas outras esqueço-me disso e divirto-me».

Imediatamente antes de a entrevista começar, o louríssimo Taylor Hawkins, talvez o segundo membro mais reconhecível da banda, bate à porta do contentor. Cumprimenta a jornalista, os membros da Sony Music Portugal, distribui sorrisos e simpatia. «Puxa daí uma cadeira!», ordena Dave Grohl. «Não, eu vim só dizer olá», ri-se o texano de 45 anos. «Então até loguinho, sim?», responde-lhe o «patrão», quando o baterista fecha a porta.

 Foo Fighters em 2017

Foo Fighters em 2017

A 15 de setembro, os Foo Fighters lançam o seu nono álbum de estúdio, Concrete and Gold. Gravado entre dezembro do ano passado e maio deste, o sucessor de Sonic Highways tem vindo a ser apresentado ao vivo, pouco a pouco: além do pujante single «Run», para o qual a banda filmou um vídeo bem divertido e caprichado, ouvimos no Passeio Marítimo de Algés «La Dee Da», cantada a meias com Alison Mosshart. «A Alison canta numas quantas músicas do disco novo e esta é capaz de ser a minha favorita», apresentou Dave Grohl, antes de se lançar num dueto praticamente boca a boca, pleno de eletricidade e longos cabelos no ar, com a vocalista dos Kills. Noutros concertos, os festivaleiros puderam também ficar a conhecer «Dirty Water», outro dos 11 inéditos de Concrete and Gold, disco no qual a banda trabalhou pela primeira vez com Greg Kurstin.

Em 2014, ano de Sonic Highways, Dave Grohl ouviu a banda de Kurstin, The Bird and the Bee, e impressionado com a «sofisticação» do seu som convidou o californiano a produzir o novo álbum dos Foo Fighters. Kurstin, cujo longo currículo inclui trabalhos com artistas como Beck e The Shins, Sia ou Lily Allen, foi também uma peça importante do êxito de Adele em 2016, «Hello». No tema que trouxe a londrina de volta às rádios de todo o mundo, o multifacetado norte-americano produziu, tocou a maior parte dos instrumentos e ainda dividiu a parceria da composição com a própria Adele. A colaboração com os Foo Fighters não terá contribuído, porém, para suavizar o som da banda, pelo contrário: há muito que não ouvíamos Dave Grohl berrar (em estúdio, bem entendido) com a convicção demonstrada em «Run», ainda assim um tema com uma curiosa dinâmica quiet/loud.

Quão excitado está o nosso anfitrião com a chegada do novo disco?, quisemos saber na noite de 7 de julho. «Nunca estive tão entusiasmado com um disco como estou com este», afiança, sem pestanejar. «Porque tenho mais orgulho neste disco do que em qualquer outro dos nossos álbuns. Já fizemos muitos discos, e esta é uma banda com facetas e sons muito diferentes, mas esta é a primeira vez que... Sabes quando estás a cozinhar um prato que já cozinhaste mil vezes, e nem tens a receita anotada, e às vezes é bom, mas outras calha de ser a melhor coisa de todos os tempos? Este disco é assim», exulta. «A combinação das letras e das melodias e dos instrumentais, com a produção do Greg Kurstin e todas as vozes em camadas... ainda não ouviste, pois não?», interpela-nos. «Só conheces o primeiro single? Bem, o resto é uma loucura. Há canções que parecem super suaves, assim um soft rock/jazz com lindas harmonias e vozes à Beach Boys, e de repente é...». Dave Grohl faz uma pausa no discurso para esbracejar no ar, como se estivesse sentado à bateria, literalmente partindo tudo. «É esquizofrénico!». Como uma versão dos Motörhead para Sgt Pepper's, dos Beatles, como ilustrou numa outra entrevista? «Em algumas partes é isso mesmo!», ri-se.

Durante o concerto, e ainda que tenha tido sempre o público do seu lado, aquele que é conhecido como O Tipo Mais Simpático do Rock nunca se cansou de incentivar à participação da plateia, tentando criar uma empatia permanente com os festivaleiros. «Não acredito que não vínhamos aqui há seis anos... a sério? Vamos ficar aqui a tocar durante muito tempo, esta noite», ia «ameaçando» com regularidade. «Vocês sabem que, enquanto tiverem voz, eu também tenho. Posso ficar aqui a gritar toda a noite», jurou em palco, antes de mais um dos seus berros característicos. Nos bastidores, perguntámos-lhe se voltar às vocalizações mais exclamativas, precisamente no single «Run», era um prazer. «Claro!», respondeu. «Eu cresci a ouvir os Beatles e rock and roll clássico. Mas, quando descobri o punk rock, os meus vocalistas favoritos passaram a ser aqueles que gritam como tudo e tu consegues mesmo sentir ali a emoção». E dá um desses berros vindos do âmago do seu ser, a título de exemplo. «A combinação dessas duas coisas [melodia e ruído] é a minha coisa favorita do mundo», resume.

Este ano, a mãe de Dave Grohl, Virginia Hanlon Grohl, lançou um livro no qual reflete sobre a sua experiência enquanto progenitora de uma das maiores estrelas rock do mundo. Em From Cradle to Stage: Stories from the Mothers Who Rocked and Raised Rock Stars, a octogenária partilha as suas histórias mas dá, também, voz às mães de outras figuras maiores da música moderna, como Amy Winehouse, Michael Stipe ou Dr. Dre. Para promover o seu livro, a dona Virginia aceitou ser entrevistada pelo filho, numa conversa carinhosa que pode ser encontrada no YouTube. Nessa ocasião, Dave aproveitou para contar como, quando ainda era um perfeito desconhecido, a mãe o empurrou para o palco de um clube de jazz em Washington. «Mãe, isto são músicos jazz, eu não consigo acompanhá-los!», ter-se-á o adolescente afligido. «Mas hoje é o meu aniversário!», rogou a mãe, conseguindo levar a sua avante, para embaraço do filho. «Eu tanto ouvia Slayer e Venom como Canned Heat», recorda o baterista nessa sessão, corroborado por Mãe Grohl: «e Four Tops, The Temptations, Aretha Franklin. É ótimo podermos ouvir de tudo».

Nos bastidores do NOS Alive, Dave Grohl confirma o papel fulcral que a mãe teve na sua educação. Quando lhe perguntamos se é complicado educar três filhas - ele e a mulher, Jordyn Blum, são pais de Violet Maye, de 11 anos, Harper Willow, de oito, e Ophelia Saint, de três -, é o seu exemplo que vai buscar. «Bem, a minha mãe criou-me, a mim e à minha irmã, e ela é incrível», afirma o filho da professora Virginia e do jornalista Harper, casal que se divorciou quando Dave tinha seis anos. «A minha mãe é genial, amigável, generosa, altruísta - põe sempre as outras pessoas antes de si mesma e criou um bom exemplo para que eu, enquanto pai, possa seguir. Quando já era mais crescido, ela disciplinou-me com liberdade. Deixava-me fazer o que eu quisesse, desde que o fizesse bem. Por isso, procurei sempre nunca desiludi-la nem fazer com que se zangasse comigo. Fomos sempre amigos. Ainda somos amigos!», exclama. «Dentro de três dias ela vem ter comigo [à Europa], para celebrar o seu 80º aniversário!», revelou.

Em entrevista ao Guardian, a propósito do lançamento do seu livro, Virginia Grohl, que vive em Los Angeles, perto dos filhos, Dave e Lisa, recorda o seu rebento mais novo como «muito extrovertido e falador. Lembro-me dele em criança, a falar com as pessoas que encontrava no elevador. Era muito divertido. Fez algumas maldades, mas nunca achei que fosse mau miúdo».

Em Algés, o seu filho salienta que, em 2017, todos os membros dos Foo Fighters são pais de família, com as respetivas implicações no modus operandi do sexteto. «Todos na banda temos filhos, e isso mudou tudo na banda. A forma como andamos em digressão, a duração das nossas tournées, mudou mesmo tudo. Porque já não somos jovens», lembra este senhor alto e atlético, de óculos de ver ao perto encavalitados no nariz. Mas parece jovem, contrapomos. «Obrigada!», ri-se o homem que em janeiro soprou 47 velas. «Eu sinto-me jovem!».

Dave Grohl, à direita, nos Nirvana

Dave Grohl, à direita, nos Nirvana

Há dois anos, Dave Grohl mergulhou acidentalmente no fosso de um concerto em Gotemburgo, na Suécia, partindo a perna. Os espetáculos que se seguiram tiveram de ser cancelados, a lesão obrigou a cirurgia mas, na noite da queda, o concerto foi até ao fim, avolumando a lenda de um frontman que encarna como poucos o lema «the show must go on». Desde então, sempre que um artista cancela um concerto por doença (aconteceu recentemente com Adele, que por problemas com a voz cancelou dois estádios de Wembley), há sempre alguém que, nas caixas de comentários, retorque: «bom, mas o Dave Grohl partiu a perna e deu o concerto até ao fim». «Eu sei, é horrível!», reconhece ele. «E acho que até já escrevi qualquer coisa online, dizendo: "olhem lá, o que eu fiz é um mau exemplo!". Se realmente se magoaram, o mais importante são vocês. Se o tempo [num concerto ao ar livre] estiver fodido, o mais importante são eles [no público]. Às vezes, temos de pensar primeiro em nós e também nos outros todos», alerta. «Mas eu sou maluco!», ressalva, com uma gargalhada e uma baforada do cigarro Marlboro, retirado do maço que repousa em cima da mesa. «Também há essa parte!».

Na sequência da lesão e da consequente cirurgia, Dave Grohl ainda deu vários concertos sentado numa espécie de «trono» idealizado por si, e que mais tarde seria emprestado a Axl Rose, que se magoou no primeiro concerto do regresso dos Guns N' Roses e teve de atuar, também, sentado, primeiro à frente dos AC/DC e depois da sua própria banda. Perguntamos se, depois do contratempo de 2015, Dave Grohl passou a ter mais cuidado em alco.

«Fuck yeah!», riposta. «No palco? Eu tenho mais cuidado a descer as escadas, tenho mais cuidado a andar na casa de banho, se o chão estiver molhado! Quando aquilo aconteceu, estava cheio de adrenalina e não me apercebi da gravidade da coisa. Mas foi muito mau, mesmo», diz. «Parti o tornozelo, rasguei os tendões, lasquei um osso... mas não senti nada. Continuei a tocar. E só depois de ser operado é que percebi como era grave. Basicamente, disseram-me que, se eu não fizesse treino e fisioterapia, não ia ser capaz de voltar a correr! E fiquei assustadíssimo, porque tenho três filhas! Elas querem jogar futebol, querem andar a correr pelo parque... e eu nem caminhar podia», recorda. «Por isso, sim, agora tenho muito cuidado». E, em Glastonbury, além de agradecer a Florence Welch, a mulher que encarna o projeto Florence and the Machine e que em 2015 substituiu os Foo Fighters à última da hora, até dedicou uma canção a James, o cirurgião que o operou.

Quando, há 23 anos, criou a banda de que hoje é a grande figura, Dave Grohl tentava ultrapassar o choque da morte de Kurt Cobain. «Só quis desaparecer, durante algum tempo», disse ao Washington Post em 2011. Certa vez, marcou uma viagem solitária para um local remoto e, quando já não via vivalma há várias horas, apareceu-lhe alguém a pedir boleia: com uma t-shirt de Kurt Cobain. Em 2017, o apelo dos Nirvana permanece tão intenso como sempre. Dias antes da nossa entrevista, um «arquivista» da banda partilhou online gravações pouco conhecidas do trio de Seattle - atuações e entrevistas em 1993, meros meses antes de tudo implodir. A longevidade da magia dos Nirvana não espanta, de todo, Dave Grohl. «Não me surpreende, porque o Kurt escrevia canções mesmo bonitas», diz. «Era um grande letrista, tinha uma voz fantástica, as suas canções são intemporais. Se os Nirvana aparecessem hoje, com aquelas canções, o mesmo aconteceria», acredita. «Porque ele era capaz de chegar às pessoas. Penso que aquilo que a banda representa tornou-se, de certa forma, maior que as pessoas e que a própria música. Quando dizes Nirvana, as pessoas respondem: "ah, ok! Sei quem são". E tudo aconteceu durante um curto período de tempo», sublinha. «As revoluções não duram 25 anos», sentencia, antes de mais um efeito especial sonoro. «São assim: rrr, pau!», exclama, simulando o som de uma explosão. «Penso que essa é a razão [do encanto duradouro dos Nirvana]. Surpreender não me surpreende, mas é estranho», admite. «Parece que já foi noutra vida! Foi há tanto tempo. Eu era um miúdo...».

Originalmente publicado na BLITZ de agosto de 2017

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