www.publico.ptBárbara Wong - 17 set 09:59

Os pais, os filhos e a escola

Os pais, os filhos e a escola

Este é um trabalho diário dos pais: estar com os filhos e dar-lhes mais do que a escola dá porque, no futuro, o que lhes vai ser pedido é que sejam criativos

“Os pais, os filhos e a escola” foi o tema que levei ao Festival P, no passado dia 9, em Lisboa, para o qual convidei a nutricionista Alexandra Bento e Sara Rodi, autora e mãe de quatro filhos. Nos dias anteriores, de férias, andei a preparar o painel, o que dizer, como o dirigir, que perguntas fazer… E, lá em casa, ia tendo algumas ajudas. “Se é um festival, deves começar por gritar: ‘Boa tarde pessoal!!! Eu adoro Lisboa! Obrigada por terem vindo, sem vocês nada disto seria possível!!!’”, dizia-me ela, levantando-se e, com gestos largos, mimetizando as grandes estrelas de rock em cima do palco.

A escolha do que vestir também foi uma preocupação, afinal vou estar em palco com duas mulheres elegantes. Opto por um vestido leve mas pouco consensual. “Pareces uma palhacinha… Parece que vais vender balões…”, dizem-me os críticos. Só tenho o apoio do pai. Foi ele que mo ofereceu.

Na manhã de sábado, antes de sair de casa, o meu filho ainda me faz uma daquelas recomendações que está cansado de ouvir: “Cuidado, diverte-te, mas sem excessos. Não te metas em drogas, olha que quem entra dificilmente sai… E vê com os teus amigos quem é que vai ficar sóbrio para levar o carro…”, ainda o ouço dizer, antes de fechar a porta atrás de mim.

É com algum nervosismo que dou início ao painel, que começa com cerca de uma dezena de pessoas sentadas, dando razão a todas as aves de mau agouro que foram dizendo que íamos ser nós, a redacção, e os nossos amigos a preencher os vazio do Pátio da Galé. Mas é mentira, pouco a pouco, as palavras de Alexandra Bento e de Sara Rodi vão enchendo as cadeiras e alguns, de passagem, permanecem de pé a ouvi-las. A plateia está composta.

Falamos de educação e poderíamos ficar ali, uma tarde inteira. No final vem a proposta de uma leitora: para a próxima, mais tempo ou mais painéis sobre o tema. Mas não falamos propriamente da educação formal – embora se fale da escola. Alexandra Bento fala sobre o que se come nas cantinas escolares e sobre o que costumam os meninos deixar no tabuleiro – a sopa e a fruta. É em casa que têm de aprender a comer hortofrutícolas. Pois, mas em casa é mais fácil descongelar uma pizza do que cozer uma posta de peixe, poupando tempo e evitando birras, argumento. Sim, reconhece, mas é importante fazer da cozinha lá de casa um espaço de educação alimentar assim como de partilha familiar – cozinhar com os miúdos, comer em família, sugere. É de saúde que falamos, insiste.

E de educação, acrescento. Sara Rodi faz isso, cozinhar em casa com os filhos, e muito mais, procurando desenvolver competências que a escola não tem tempo para fazer – nem lhe cabe fazê-lo, dirão os professores. Desenvolver o conhecimento, o autoconhecimento, a criatividade e mais… Por exemplo, é possível passar meia hora, não mais, a recriar quadros famosos como O Filho do Homem, de Magritte. Tão simples, basta ter imaginação!

E este é um trabalho diário dos pais: estar com os filhos e dar-lhes mais do que a escola dá porque, no futuro, o que lhes vai ser pedido é que sejam criativos e não que saibam de quantas espinhas é constituído um peixe. Um trabalho que os pais da plateia fazem, acredito – é sempre assim, falamos para os já doutrinados e não para aqueles a quem a mensagem devia chegar.

Ainda assim, saio com o coração cheio, que bom, crianças saudáveis e inteligentes, é esse o nosso futuro! Mas poucas horas depois, o desânimo regressa. Estou na loja dos electrodomésticos e ao meu lado está uma mulher com a minha idade e um filho adolescente, a mulher reclama porque o vidro do tablet está partido e quer um novo. “Está dentro da garantia”, assevera.

E está, mas alguém partiu o vidro, responde o funcionário. “Não interessa, está na garantia e vocês têm de dar-me um novo”, diz, levantando a voz porque conhece os seus direitos. Paciente, o empregado explica que a garantia é para defeitos e não para acidentes e dá-lhe dois orçamentos: arranjar o vidro custa 79,90 euros; um aparelho novo de um modelo mais actualizado são 69,90 euros. Ela volta a gritar que a responsabilidade é da loja. O rapaz aconselha-a a adquirir o aparelho novo. Amuada, a mulher responde que não tem dinheiro e, com maus modos diz: “Mande lá arranjar!”

Apetece-me intervir, ir com ela até à prateleira para que veja o tablet mais barato, dizer-lhe que é melhor, mas recuo com medo que a sua raiva mude de alvo e se vire contra mim. O miúdo permanece calado, ao lado da mãe, ausente. “Não terá ouvido nada?”, pergunto-me. Que ensinará ela àquele filho? Não será certamente a recriar um quadro de Magritte. Ainda há tanto a fazer.

Volto a sorrir quando chego a casa e eles perguntam-me: “Correu bem? Vendeste muitos balões?”

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