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Raqqa, luta até à última bala

Raqqa, luta até à última bala

Uma coligação curda e árabe apoiada pelos EUA combate o Daesh em Raqqa. Uma experiência política inédita no Médio Oriente que também deixa um rasto de destruição

É preciso esperar pelo “logístico” para entrar em Raqqa. Regra geral, é um veículo blindado que leva abastecimentos para os sitiantes. Quando há espaço entre caixas de munições e comida, entram combatentes e até jornalistas.

O Hummer 4x4 blindado manobra, derrapando entre os escombros da cidade velha de Raqqa. Passados menos de cinco minutos, o cheiro a morte torna-se insuportável à passagem por uma posição de combate diante do minarete destruído da velha mesquita. O fedor parece provir de um vulto tapado por um cortinado arrancado de um primeiro andar. Outro corpo ainda está pendurado do lado de fora de uma janela sem vidros. “Foi um suicida com um colete explosivo”, explica um dos combatentes curdos que nos acompanham. Duas pernas mutiladas a cerca de 20 m confirmam-no.

Na primavera de 2013, uma amálgama de grupos jiadistas tomou o controlo da cidade de Raqqa. Em 2014, esta converteu-se na capital do Daesh na Síria. Em junho arrancou uma ofensiva das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla inglesa), coligação interétnica formada por cerca de 50 mil combatentes curdos, árabes e outros, com cobertura aérea dos EUA para expulsar os ultrajiadistas do seu principal bastião no país. Ainda se combate casa a casa numa cidade cada vez mais destruída pelos combates.

E se os americanos saírem?

No quartel-general das SDF em Ayn Issa, 50 km a norte de Raqqa, o comandante Hali Hajo reconhece a importância do apoio aéreo americano mas é incapaz de se pronunciar sobre o futuro mais imediato. “Não sabemos até quando ficarão nem o que fará depois a Turquia. São duas das maiores incógnitas”, assegura este antigo comandante da polícia no tempo de Bashar al-Assad, que desertou em 2012 para o campo rebelde.

Hajo é árabe e natural de Jarabulus, localidade do norte da Síria que permanece sob ocupação de Ancara desde a ofensiva ‘Escudo do Eufrates’ em agosto de 2015. O objetivo dessa manobra turca era duplo: expulsar o Daesh da zona fronteiriça e conter o avanço dos curdos sírios (que Erdogan assimila aos separatistas do PKK curdo com quem está em guerra). Na Turquia vive metade dos 40 milhões de curdos do Médio Oriente que se repartem também pela Síria, Irão e Iraque (onde um referendo à independência da região autónoma do Curdistão local, marcado para dia 25, está a fazer aumentar a tensão).

Além de terem sido decisivos na luta contra o Daesh, os curdos traçaram o seu próprio caminho durante a luta entre rebeldes e Assad. Em 2011, com o início da luta armada, Damasco teve de afrouxar a corda em relação aos curdos. No verão de 2012, estes foram assumindo o controlo sobre boa parte da fronteira entre a Síria a e a Turquia. Era uma terceira via, nem com o Governo nem com a oposição armada.

Enquanto o resto do país se afundava num pesadelo de que ainda não despertou, no nordeste surgia uma sociedade civil e apostava-se na autogestão de um território autónomo através do chamado Confederalismo Democrático. Não querendo subverter as fronteiras do Médio Oriente os curdos defendem uma descentralização dos poderes monolíticos da região. As linhas gerais deste ideário — herdeiro do anarquismo numa versão mais atualizada — foram traçadas em 2005 por Abdullah Öcalan, líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), preso desde 1999 na Turquia.

Futuro só pode ser federal

De início, o projeto limitava-se ao território que esta minoria designa por “Rojava” (“oeste” no idioma curdo”). Agora são os árabes de Raqqa, a seu próprio pedido, quem engrossa a primeira linha de combate das SDF face ao Daesh. Trata-se de um gesto simbólico que passa por reconhecer o direito, não só a libertar a cidade como a governá-la, uma vez expulso o invasor.

Além de centro de comando do cerco, Ayn Issa é também a sede do Conselho Civil de Raqqa, uma espécie de governo interino formado por 200 notáveis da zona. São na maioria árabes, como o xeque Amir Mohamed Habur. Os curdos, explica Habur, libertaram os habitantes da região do jugo jiadista. Este representante de um dos clãs mais numerosos a norte do rio Eufrates não admite um futuro que não passe por uma Síria federal. “Qualquer outro sistema falhará. Esta é a única alternativa ao Daesh e a Assad”, garante o xeque.

Troca de tiros com o Daesh, entrincheirado do outro lado da rua

Troca de tiros com o Daesh, entrincheirado do outro lado da rua

Ricardo Garcia Vilanova

O valor desta construção política apoiada por curdos, árabes e outros povos da zona não passa desapercebido. Manuel Martorell, jornalista e investigador, uma das autoridades de referência para assuntos do Médio Oriente em Espanha, fala de um momento de “enorme transcendência” histórica.

“Está a ser posta na mesa a ideia de que no Médio Oriente é possível haver sistemas democráticos baseados no respeito pelas diferenças culturais e religiosas e pelos direitos da mulher”. Isto sugere ser falso que nesta região as pessoas estejam condenadas a escolher entre dois males: viver sob ditaduras laicas ou sob movimentos fundamentalistas islâmicos, como se pensava até agora, sublinha o especialista.

Luta nos escombros

A Amnistia Internacional criticou recentemente a campanha de ataques aéreos e de fogo de artilharia dos EUA, frisando que Raqqa se converteu num “labirinto mortal” para os civis ainda encurralados na cidade. Segundo estimativas das Nações Unidas, há 25 mil habitantes presos em Raqqa, muitos dos quais são usados como reféns pelos “islamikazes”. “É uma questão de pura sorte, porque nunca se sabe onde vai cair a próxima bomba”, conta Amina, residente que conseguiu escapar quando os jiadistas que a capturaram abandonaram precipitadamente as suas posições.

A ofensiva aérea intensifica-se a cada noite. Tal como na retaguarda, na frente de Raqqa também se dorme nas açoteias das casas, dada a elevada temperatura no interior nesta altura do ano.

Há que tomar algumas precauções básicas como não fumar e não acender lanternas nem telemóveis pois qualquer réstia de luz pode revelar a nossa posição. Tal como em Mossul o inimigo utiliza drones artesanais capazes de largar bombas, mas os que se veem hoje nos céus da cidade são inequivocamente americanos.

“O barulho é diferente, é fácil reconhecê-los”, clarifica Macer Gifford, um das centenas de voluntários estrangeiros que lutam pelo SDF. Com 30 anos, usa pseudónimo e diz-se “um internacionalista”. Revela, apesar de tudo, que foi corretor na City de Londres até 2014.

A conversa é interrompida pelo ruído de um helicóptero de ataque Apache, dos EUA. Logo uma metralhadora antiaérea faz fogo do lado do Daesh e as balas tracejantes riscam a noite à procura de um inimigo tão ameaçador como esquivo. Em menos de um minuto o poder de fogo do Apache reduz tudo a escombros.

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