expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 17 set 19:00

Voltámos mais irresponsáveis

Voltámos mais irresponsáveis

Quatro anos depois de “Trouble Will Find Me”, os The National apanham-nos desprevenidos com “Sleep Well Beast”: “Eu tirar-te-ia da tua concha / Mas a minha fé está doente / Preciso de ti sozinho”

Eles tornam a melancolia em coisa épica através de canções de amor. Há 18 anos que os The National são companhia para noites mais ou menos calmas e este ano regressam para nos agitar - mas só um pouquinho. “Sleep Well Beast” marca uma viragem na sonoridade da banda mas percebemos que está tudo bem porque continuamos a ter baladas com a tristeza necessária para sermos amparados.

Este é disco mais experimental da carreira dos The National - nestas 12 canções vamos estranhar os sintetizadores, os solos de guitarra dos irmãos Dessner plenos de fúria que capturam o medo, a raiva e a apatia, e a eletrónica que nos faz mexer a cabeça enquanto ouvimos Matt Berninger a falar sobre isolamento e perda (“Day I Die”, “Turtleneck” e “I’ll Still Destroy You”). Mas continuam a lembrar o passado (“Empire Line”, “Nobody Else Will Be There” e “Sleep Well Beast”) porque há o “folk” que apreciamos, o rock que faz mexer os pés e o intimismo lírico que nos pede mãos para agarrarmos.

Esta é a obra mais madura e experimental da banda porque eles cresceram nestes últimos quatro anos - casaram, mudaram de casa, tiveram filhos e abraçaram outros projetos musicais - e chegaram a uma fase da vida em que as canções tinham de refletir um pouco de todos. E esta versatilidade sonora é a grande virtude do disco. Desafiaram os limites e estão contentes com o resultado, como o baixista e produtor da banda, Aaron Dessner, apontou: “Voltámos mais irresponsáveis”.

Foto BRYAN BEDDER / Getty Images for American Express

E voltaram mais corajosos também. Se em discos como “Boxer”, “Alligator” e “Trouble Will Find Me” olharam para dentro e encontraram os seus demónios, em “Sleep Well Beast” enfrentam-nos, mesmo no escuro, que é o sítio perigoso onde estão confortáveis.

Matt Berninger mantém aquela angústia quase resignada e fala-nos de erros que se cometem ao longo da vida, do arrependimento pelo que devíamos ter dito e não dissemos, da inércia por não conseguirmos melhorar o que temos e sobre separação - e aqui nem o gin, o vinho ou a erva de que Matt tanto fala são resolução - “vamos ficar pedrados para resolvermos os nossos problemas” (Day I Die).

A capa do novo disco

A capa do novo disco

d.r.

Falamos aqui de canções de amor que acabam por ser também políticas: como eles se importam com o que se passa no mundo e não “conseguem separar a política das emoções” porque a primeira afeta a segunda, as letras deste disco também refletem a instabilidade que se vive na era Trump - a banda apoiou Barack Obama e Hillary Clinton na corrida à presidência dos EUA, não está satisfeita com o atual Presidente e o descontentamento moldou este disco.

“Turtleneck” - canção com rock agressivo que desconhecíamos na banda e a voz de Matt a atingir tons agudos nunca antes ouvidos - é prova disso: “Agora aparece outro homem, num fato merdoso / E todos aplaudem / Este deve ser o génio que esperámos durante anos, oh não, é vergonhoso”. A banda já clarificou: o homem de quem falam nesta canção é Donald Trump.
“Sleep Well Beast” começa com a tímida “Nobody Else Will Be There”, a mais calma do disco e que inicia com piano que conforta porque pede caminhadas enquanto refletimos sobre a vida: “Hey, babe, onde é que tu estavas / Quando precisei da tua mão? / Pensava nisso quando me expus / Eu tirar-te-ia da tua concha / Mas a minha fé está doente / Preciso de ti sozinho”.

Foto Graham MacIndoe

E depois somos levados para a “Day I Die”, canção com bateria de Bryan Devendorf pujante que pede uns passos de dança mas que vem com letra triste de Matt Berninger: “Não preciso de ti / Não preciso de ti / Além disso, mal te vejo agora / E quando vejo, parece que só vejo metade de ti”.

Respiramos fundo em “Guilty Party”, balada em que olhamos para o que corre mal nas relações e concluímos que “a culpa não é de ninguém, só não temos mais nada para dizer” e terminamos com a canção que fecha e dá nome ao disco, “Sleep Well Beast”, que fala sobre a necessidade de dormir para nos desligarmos dos traumas para que tudo se resolva durante o sono - é isto que o nome do disco quer dizer: “Estamos aqui presos no corredor há muito, muito tempo / Estou a perder o controlo / Volta a dormir, deixa-me conduzir, deixa-me pensar, deixa-me encontrar uma solução / Para voltarmos ao sítio em que estávamos quando saímos a primeira vez”.

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