www.cmjornal.ptVictor Bandarra - 17 set 01:30

A poupança do nepalês

A poupança do nepalês

Tanka tem óbvias saudades da sua aldeia nas montanhas, perto de Katmandu.

Tanka sorri, resignado, sempre que o confundem com um chinês. "Não senhor! Sou nepalês!" Há uns sete anos em Portugal, Tanka nunca entendeu bem por que é que chamam "loja do chinês" à sua minúscula mercearia/frutaria de bairro. E só se ri quando lhe explicam que muitos portugueses também não conseguem distinguir bem entre um chinês e um japonês. Como os ingleses sempre confundiram o grande Poirot, orgulhoso belga, com um qualquer francês…

Tanka é um homem discreto e trabalhador. Alugou a lojeca com a ajuda de compatriotas já instalados. Parte do pequeno armazém das traseiras faz de cozinha e camarata. Ali dormem três pessoas - ele e dois primos. O estabelecimento está sempre aberto, de domingo a domingo. O pior é a ASAE, que começa a chatear por causa dos horários nocturnos.

Mas Tanka resiste a tudo. Budista, conta com a solidariedade e espírito de ajuda da sua comunidade. Todos trabalham em rede. Uns vão comprar frutas e legumes aos mercados reabastecedores, outros ficam-se pelas lojas e restaurantes. Compram as frutas bem maduras porque são mais baratas. "Vendemos barato porque ganhamos poucochinho de cada vez..." A comunidade nepalesa, sem se dar por isso, cresceu muito nos últimos anos. Supõe-se que já são mais de 15 mil em Portugal. Quem chega é logo ajudado a arranjar emprego ou um pequeno negócio. Tanka tem óbvias saudades da sua aldeia nas montanhas, perto de Katmandu, mas espera mandar vir a mulher "daqui a dois anos".

De vez em quando, em dias de aflição culinária, o restaurante chic mesmo ao lado encomenda-lhe uns legumes e umas frutas madurinhas. Tanka, sempre atarefado, entra a correr na cozinha do estabelecimento e sai logo a seguir, sempre a saltitar. Esta semana, um cliente do restaurante, advogado de prestigiado escritório, reconhece Tanka. "Ó Sr. Zé! Sabe quem é esta figura?!" E abre a boca de espanto quando o gerente lhe explica que Tanka é o dono da lojeca da esquina.

"Mas este tipo frequenta o mesmo ginásio do que eu!" O espanto alastra-se aos amesendados de gravata. "O chinoca deve estar bem na vida..." É verdade que muitos nepaleses com engenho para chegarem à Europa pertencem, no seu país, ao que se pode chamar "classe média". Mas, ainda que educados e confiáveis, não têm obviamente vontade nem cabedais para se darem ao luxo de frequentar ginásios finórios. Sorriso malandreco, o gerente intromete-se na conversa. "O Tanka é um viciado em ginásio! Vai lá todos as manhãs..."

Fazem-se conjecturas e dão-se palpites. Até que o gerente desfaz o equívoco. "A loja não tem retrete! Ele vai ao ginásio só para tomar banho!" Porquê ao ginásio? "Porque lhe sai mais barato do que alugar um quarto em Lisboa!" O causídico estala os dedos. "Ah! Por isso é que nunca o vi a queimar calorias na passadeira..."

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