www.dn.ptPaulo Tavares - 17 set 01:00

Vamos saltar do lixo para a crise política?

Vamos saltar do lixo para a crise política?

António Costa pode ter ganho o gosto pela higiene urbana quando foi presidente da Câmara de Lisboa, como dizia na sexta-feira num comício de Fernando Medina, mas esses dotes de limpeza talvez venham a trazer-lhe problemas nos dois anos que faltam para as legislativas de 2019. Bem mais divertido do que assistir à desgarrada entre Costa e Passos, sobre quem tinha afinal ajudado mais na limpeza da casa, será acompanhar a evolução das posições de PCP e Bloco ao longo de 2018.

Já aqui escrevi várias vezes que muito daquilo a que temos assistido nos últimos meses, muitos dos arrufos, zangas e proclamações de independência programática de PCP e Bloco na caminhada para o OE 2018, pouco passam do nível de encenação. Se houvesse uma agência de notação política, não passariam do grau especulativo - lixo. Servem para ir entretendo as bases, para colocar pressão quanto baste em cima de Mário Centeno e Pedro Nuno Santos, e pouco mais. Não são para levar a sério.

Depois das autárquicas e sobretudo depois da Standard & Poor"s ter passado a notação do país para o nível de investimento, também esse comportamento até aqui inócuo dos parceiros de Costa no Parlamento pode sofrer um upgrade. Por outras palavras, o primeiro-ministro e líder do PS bem pode começar a fazer planos de investimento sérios nos amuos de Catarina e Jerónimo. Vai ser preciso investir tempo e dinheiro para manter a geringonça a rolar até às eleições legislativas. O que é que vai mudar? Saberemos melhor ou teremos o primeiro sinal a meio da semana, quando o IGCP colocar no mercado 1,7 mil milhões de títulos da dívida pública. Se os mercados reagirem como é expectável - e sabemos como isso por vezes não acontece -, Portugal vai conseguir dinheiro a custos bem mais baixos do que até aqui. Se o IGCP optar por uma gestão da dívida mais agressiva, aproveitando o momento e os juros mais baixos para trocar títulos antigos e com juros altos por dívida fresca e barata, o serviço da dívida vai tornar-se menos pesado. A confirmar-se esse comportamento ao longo do próximo ano, e se nada de muito grave se passar do lado da receita, o governo arrisca-se a chegar à preparação do OE 2019 com uma folga bem mais confortável do que aquela que tem agora.

E o que é que isso tem a ver com o estado de saúde da geringonça? Tudo. Imaginem Catarina Martins e Jerónimo de Sousa sentados numa sala a negociar com António Costa, e a verem num canto uma pilha de notas guardadas por Mário Centeno. Um monte de euros bem maior do que aquele que lhes foi mostrado neste ano, quando começaram as negociações do OE 2018. Arrisca-se a ser um jogo completamente diferente. E António Costa sabe disso. Basta ler com atenção a entrevista ao DN. As mensagens políticas que envia a PCP e Bloco, umas mais claras, outras mais ou menos subliminares, prenunciam um 2018 animado na gestão da geringonça. Para quem não tenha reparado, o primeiro-ministro afirma que se há compromisso que o governo vai respeitar, para lá de qualquer ameaça dos parceiros, é o dos limites negociados com Bruxelas para o défice e a dívida. Outro recado? Qualquer coisa como "os portugueses não nos perdoariam" se agora o governo deitasse tudo a perder com exageros do lado da despesa e do investimento público. Mais um? "Mais vale andar sempre do lado da prudência do que do lado da imprudência. O maior perigo que poderia existir era introduzir-se nos mercados internacionais, nas nossas relações com a União Europeia, nos investidores nacionais, uma desconfiança relativamente ao futuro." Acredito que, na dúvida, António Costa prefere "introduzir uma desconfiança relativamente ao futuro" nos parceiros de aventura parlamentar do que arriscar um regresso do país ao aterro sanitário. É bom que Catarina e Jerónimo se habituem a essa ideia.

Na entrevista ao DN, o primeiro-ministro usa uma frase de Liberdade, de Sérgio Godinho - a sede de uma espera só se estanca na torrente -, para ilustrar o que lhe tem chegado de contestação social, sobretudo das corporações com mais poder no Estado, e de ânsia de mudança por parte dos parceiros à esquerda. É normal, diz o chefe do executivo. O problema é que essa torrente vai agravar-se no próximo ano com uma intensidade diretamente proporcional ao tamanho da almofada financeira que Mário Centeno conseguir amealhar. Costa vai ter de juntar ao otimismo irritante uma boa dose de paciência e reforçar os seus dotes de malabarismo negocial. Está a ser bonita a festa, pá? Então vamos todos exigir uma fatia maior do bolo - juízes, médicos, enfermeiros, professores, polícias... A paz, o pão e a habitação já não são tema, mas na saúde e na educação há muito por onde gastar e PCP e Bloco vão aproveitar essa onda. Afinal, podem estar aí votos para 2019. Na vertigem da torrente ou no esforço para a conter é bom que se lembrem todos - Costa, Catarina e Jerónimo - de que o caminho de saída do aterro tem dois sentidos e a estabilidade política é tão ou mais importante do que os limites do défice e da dívida.

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