24.sapo.ptGuilherme Duarte - 17 set 14:12

A abstenção e o futebol entram num bar

A abstenção e o futebol entram num bar

Políticos a achar que o pessoal não vota por causa do futebol é o mesmo que um bêbedo achar que vomitou por causa dos bifinhos com cogumelos. A culpa nunca é deles.

O Governo quer proibir jogos de futebol em dia de eleições como medida para combater a abstenção. Políticos a achar que o pessoal não vota por causa do futebol é o mesmo que um bêbedo achar que vomitou por causa dos bifinhos com cogumelos. Eu, não só obrigava a haver jogos de futebol em todos os dias de eleições, mas também touradas. Se o sistema de educação está mau, há que arranjar maneiras de distrair os burros para que não votem.

Se a abstenção fosse realmente um problema para os governantes, há muito que votar se teria tornado obrigatório e o voto online já teria sido implementado. A abstenção dá jeito aos maiores partidos e, principalmente, deita areia para os olhos quando os resultados ficam aquém do esperado. E, no fundo, há todo um paradoxo que se gera à volta da abstenção já que quando se diz que quem não vota não é um bom cidadão, seria de salutar o facto de não irem votar já que daria vantagem ao voto de pessoas mais conscientes e civilizadas. Haverá dois tipos de abstenção: os que não votam por protesto e os que não votam porque está sol e joga o seu clube. Talvez os segundos sejam a esmagadora maioria de quem não vota, mas sabem, em última instância, de quem é a culpa? Dos políticos que temos tido. O clima de desconfiança nos políticos afasta as pessoas das urnas porque sentem que o seu voto é inútil e que será sempre mais do mesmo. E sabem porque é que existe esse pensamento generalizado? Porque é, em grande parte, verdade. A democracia pressupõe a legitimidade da abstenção já que pressupõe que não se concorde com ela nem se queira fazer parte. Por isso, fazer de quem se abstém o bode expiatório é bastante antidemocrático.

As sondagens são outra grande causa para a abstenção. Quando as sondagens pendem demasiado para um dos lados, retira toda a surpresa e vontade de ir votar. É como ver o filme «Sexto Sentido» já sabendo o final: mais vale não perder tempo e ir fazer coisas mais interessantes. Proibir jogos de futebol em dias de jogo é assumir que se desistiu de perceber a origem do desinteresse das pessoas e tapar o sol com a peneira só para parecer que estão muito preocupados com a falta de cidadania da população. PS e PSD vão dançando, há mais de 40 anos, o jogo da cadeira do poder. Ora ganha um, ora ganha o outro e eles estão bem assim. Por muito que falem da abstenção, nenhum deles quer jogar com mais cadeiras. A abstenção reduz-se com políticos que cumpram promessas e façam um bom trabalho. Com políticos que façam campanhas honestas e que falem a língua das pessoas e lhes dêem esperança. Faz-se prendendo políticos que arruinaram o país e fizeram uma gestão danosa e meteram ao bolso. Faz-se proibindo que políticos condenados por crimes cometidos enquanto funções sejam impedidos de concorrer novamente. Se as escolas primárias estivessem cheias de professores que cumpriram pena por pedofilia, as escolas também estariam vazias. Um casal deixa de fazer sexo, não porque dá a novela ou o futebol, mas sim porque estão fartos de mais do mesmo. Por isso, proibir jogos em dia de eleições não só é parvo, como contraproducente, já que devia aproveitar-se o fenómeno do futebol para levar as pessoas a votar. Deixo algumas ideias:

- A águia Vitória podia fazer um voo picado onde recolhia os boletins de votos, com o bico, das mãos de todos os adeptos e depois entregá-los-ia nas urnas mais próximas.

- Fazer um programa de comentário aos resultados das eleições, mas com os comentadores habituais dos programas de futebol. Poderia haver imagens do vídeo-árbitro à boca das urnas e tudo, onde se poderia queimar meia hora de programa a discutir se foi ou não um voto válido.

- Imagens à boca das urnas com comentários do Luís Freitas Lobo: «Lá vai dona Arminda, pega na caneta, acariciando-a. Movimenta-se dentro da cabine de voto com a graciosidade de uma suricata a sair da toca. Pondera se vota em branco, mas um anãozinho meteu a cabeça fora do boletim de voto e desviou a caneta para Isaltino. Dona Arminda dobra o papel com a perícia de um cirurgião a manusear o bisturi e desvia para a urna. É voto! É um voto que parece poesia que anda em duas pernas. Dona Arminda é um arranha céus em forma de cidadã.»

Muitas mais haveria para tirar partido do fanatismo futebolístico de Portugal, mas os nossos governantes têm pouca criatividade. Se fosse eu a mandar, garanto-vos que as coisas não estariam melhores, mas estavam mais divertidas. No entanto, nunca posso ter cargos de poder já que acredito que o melhor sistema não é a democracia, especialmente sem educação, mas sim o sistema do ditador com bom senso, algo que é impossível já que o poder corrói e corrompe e iria tornar-me uma besta ainda maior.

Sugestões e dicas de vida:

Dia 29 de Setembro vou estar no The Famous Fest a tentar fazer rir pessoas. Apareçam.

Vão votar. Ou não. A mim dá-me igual.

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