www.cmjornal.ptJ. Rentes de Carvalho - 17 set 01:30

Respeitinho e aplauso

Respeitinho e aplauso

Estranho, mas respeito. Anéis no nariz, tatuagens aqui, ali, mais abaixo?

Quando a cena é necessária no enredo, talvez isso ainda aconteça em más telenovelas, mas hoje imagina-se mal um pai que ao jantar, batendo com o punho na mesa, assuste mulher e filhos gritando "Respeitinho!" Tão-pouco me parece que será levado a sério alguém que se queira fazer valer afirmando pomposamente: "Não admito que faltem ao respeito!"

Mas que respeito? Pela bandeira? O presidente? O ministro da Defesa? O idoso do rés-do-chão? Tudo sentimentos que, pelo menos olhando o que acontece à minha volta, me parecem afastados como a Guerra de 14-18. Contudo, por ser de boas intenções, faço o que posso para compreender o que no comportamento alheio me perturba, ciente de que a liberdade é um grande bem, e só podem ser bons os motivos do Criador ao permitir que cada um escolha o género que deseja e o aspecto que melhor vai com a sua disposição.

Há muitas alturas em que estranho, mas respeito. Anéis no nariz, nos mamilos, ferragens nas sobrancelhas e na língua, tatuagens aqui, ali, mais abaixo? Maquilhagem gothic, cabeleira punk, barbas de salafista ou rabo de cavalo a acompanhar a pêra à Lenine? Tudo bem. Rapazes de saias e lábios pintados? Idem. É você veganista, tontinho/a do meio ambiente, da energia verde, do perigo do aquecimento global, da escassez de peixe nos oceanos, da sageza do Dalai Lama, das virtudes dos antioxidantes e do copo de urina bebido em jejum? Dos extraterrestres entre nós?

De que só as Testemunhas de Jeová se salvarão? De que a calvície, o cancro, a psoríase e a obesidade se evitam com água de Lourdes? Sem ironia, direi que cada um sabe das razões que o levam a querer mostrar que é doutra tribo. Por isso respeito, evidentemente. E ao fim e ao cabo, mesmo sendo tantos como as formigas, ainda há lugar, cabemos cá todos.

Ninguém duvide da minha sinceridade, pois tenho até ideia de que cada vez respeito mais e rio menos, pelo que um dia destes talvez acabe por perder a boa disposição.

Por certo que ainda vai havendo boas maneiras e evitamos os empurrões, já que para manter a sociedade com poucos solavancos há que fingir consideração, acatamento, deferência. Contudo, o verniz é frágil, transparente a comédia e, pelo menos assim penso, o respeito como que deixou de ser uma atitude individual para se tornar uma espécie de slogan de minorias que exigem atenção e de rappers que exigem aplauso. De modo que vulgarizado e diluído, creio que sem paradoxo se poderá dizer que também o respeito se vai acanalhando.

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