www.dn.ptPedro Marques Lopes - 17 set 01:00

À Procura - Anomalias

À Procura - Anomalias

1 Estou ansioso para ver o preâmbulo do diploma que proibirá os jogos de futebol em dias de eleições. Imagino que não comece por "dado que os portugueses são estúpidos e não percebem o significado de umas eleições" ou "sabendo que há imensos portugueses que são obrigados a ir a jogos de futebol" ou "como a culpa de haver portugueses que se abstêm é do futebol" ou "já que não se pode proibir a praia ou as idas ao jardim ou as viagens ou missas ou as ressacas ou todas as coisas e mais algumas que se pode fazer em vez de ir votar, proíbe-se o futebol".

Não serão essas as palavras, mas podiam ser. Sobretudo a parte do paternalismo, essa doença que ataca a nossa comunidade há gerações e gerações e que nem a vida em democracia conseguiu arranjar uma cura. Mas pior do que o paternalismo só mesmo o paternalismo ignorante. Esse gerador de um cocktail verdadeiramente explosivo de estupidez e arrogância.

Argumentar que sobram imensas horas para se poder votar ou que não está provado que o futebol ou qualquer outro tipo de atividade façam subir a abstenção é cair numa discussão dicotómica e sem sentido. O que está em questão nesta medida é a forma como o governo parece olhar para os cidadãos, como entende que os portugueses olham para a democracia e quais pensa serem as causas da baixa participação eleitoral e da distância entre eleitores e eleitos. O governo está ciente do gosto dos portugueses pelo futebol - que, segundo o próprio, até os afasta do exercício de um direito -, mas parece não estar preocupado com a procura de soluções para que se possa votar com mais comodidade ou antecipadamente. Claro está que mesmo essas possíveis formas de facilitar o voto não atingiriam a essência do problema da abstenção na nossa e noutras democracias. As razões estão bem mais além e aquém, prendem-se com a sensação de que o voto pouco conta, com uma perceção justa ou injusta de que interesses privados se sobrepõem aos públicos, com a falta de perspetivas e outros tantos males que a democracia não tem nas últimas décadas conseguido resolver.

Digamos que os portugueses percebem bem a mensagem: "Não há futebol para irem votar." Ora, não me parece que dizer às pessoas que tirando-lhes um espetáculo elas irão votar fará que exista uma aproximação entre eleitos e eleitores. Eu, por exemplo, tenho alguma dificuldade em dialogar com quem me acha estúpido. Terei até alguma dificuldade em respeitar essa pessoa. Diria mesmo que um político que faz isso faz-me pensar que não percebe nada do que se passa na comunidade e se me representa há qualquer coisa de profundamente errado.

O paternalismo ignorante e a falta de noção sobre as causas da abstenção são evidentes, mas o que o governo parece ignorar é que esta proposta faz exatamente o que se quer parecer evitar: afasta ainda mais os cidadãos da política, aumenta o tal fosso entre eleitos e eleitores. Esse, sim, será o maior problema deste disparate em forma de diploma.

2 Rui Esteves viu serem levantados dois inquéritos relacionados com um eventual fraco desempenho das suas tarefas. Relatórios apareceram que defendiam que a Proteção Civil não se portou à altura nos incêndios de Pedrógão. Quando se demitiu o comandante da Proteção Civil? Quando se soube que na sua licenciatura apenas tinha sido examinado em quatro cadeiras e que em todas as outras tinha tido equivalência. Ou seja, a possível incompetência não seria suficiente para o afastar do cargo, as demasiadas equivalências sim.

Este tipo de situações não são novidade, mas não deixam de ser anómalas. O facto é que a maioria das demissões em cargos políticos, de maior ou menor importância, não têm acontecido por incompetência ou menor capacidade para o cargo, mas sim por questões não relacionadas com a tarefa. Aparentemente, basta ter tirado o curso sem problemas de maior, ter cuidado com a língua e manter um sorriso pepsodent e não há que ter preocupações com o desempenho e correspondente manutenção no cargo.

Há uma espécie de interiorização por parte da classe política de uma estranha inversão de valores: o bacteriologicamente puro nos costumes, na vida privada e, pelos vistos, na carreira académica como essencial. Perdoa-se a incompetência, mas não se desculpa o pecadilho. Desculpa-se uma má negociação de uma PPP, mas não se perdoam uns cornichos. Pode a cada passo mostrar-se falta de capacidade para ministro da Defesa, mas tendo um currículo académico impecável não há nada a dizer. Avaliam-se com toda a facilidade questões marginais à tarefa, mas não há qualquer sindicância ao que de facto conta: o desempenho do cargo.

Ajudaria mais a diminuir a abstenção uma maneira transparente de podermos avaliar a atuação de um responsável político do que a proibição de todos os jogos de futebol, encerramento de praias e centros comerciais em dias de eleições.

3 O líder do maior partido político português vai fazer campanha ao lado de um indivíduo que defende a pena de morte, a prisão perpétua, a castração química, trabalhos forçados para presidiários e tem afirmações xenófobas e racistas. O partido político de que ambos são militantes rejeita essas propostas nos seus princípios fundadores, no seu programa e na sua práxis. Ambos fazem parte, e só isso já é incompreensível: como pode o PSD manter nas suas fileiras alguém que rejeita valores fundamentais do partido? A resposta, repetida, é: o presidente do PSD vai fazer campanha ao lado do tal indivíduo.

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