expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 17 set 17:00

O desconhecido

O desconhecido

Imagine que tem um universo dentro da cabeça. O que é que faz para o conhecer e estudar? A resposta é a que os cientistas do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud estão a dar há dez anos

De que falamos quando falamos de cérebro? Falamos do mais complexo órgão jamais criado no mundo tal como o conhecemos. Mas falamos também do mais misterioso e desconhecido dos órgãos que compõem o ser humano. Os estudos avançam, e sabe-se hoje muito mais do que ontem sobre ele, no entanto, ao mesmo tempo, crescem as limitações para o estudarmos. As questões multiplicam-se e são a melhor forma de partir para qualquer projeto científico que tenha o cérebro no centro de análise.

No Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud trabalham vários grupos de cientistas na procura de respostas para as mais variadas questões que o cérebro levanta. Falámos com seis deles para tentar entender o que é que já se sabe sobre ele. Pouco, muito? Depende do nosso grau de conhecimento e depende também de quão fascinante essa informação pode ser. Uma coisa é certa, o cérebro ainda é esse desconhecido.

Neurónios. Nos trabalhos mais cerebrais, com as deadlines mais apertados, fazemos o contrário do treino saudável. Estamos sempre a queimar o cérebro e os neurónios

Neurónios. Nos trabalhos mais cerebrais, com as deadlines mais apertados, fazemos o contrário do treino saudável. Estamos sempre a queimar o cérebro e os neurónios

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“Sabe-se hoje muito mais do que já se soube sobre o cérebro, sobretudo a nível de ligações e da geografia das coisas. Ou seja, onde é que estão certo tipo de células e neurónios e quais são as ligações deles a outras zonas do cérebro. Mas, em termos de função e de processos, ainda temos muito para descobrir. Sabemos mais ou menos como funciona a memória, por exemplo, sabemos como decidimos e fazemos ações. No entanto, num contexto do dia a dia, está por descobrir como é que conseguimos tomar tantas decisões muito rapidamente ou como conseguimos perceber e reconhecer a cara de uma outra pessoa muito mais rápido do que qualquer computador no mundo. Isto porquê? Porque há processos em termos de dinâmica que vão para lá do que é computacional que acho que ainda não compreendemos”, começa por dizer Rui Costa, codiretor do Centro de Neurociências e vencedor da Medalha de Ariëns Kappers atribuída pela Academia Real de Artes e Ciência da Holanda, tornando-se, depois de António Damásio, o segundo português a recebê-la.

“À medida que se conhece mais, mais noção se tem das limitações”, frisa o investigador. Porém, “começamos a saber hoje melhor o que é que é desconhecido. Pensava-se que se conhecêssemos exatamente todas as ligações de áreas do cérebro a outras áreas e de uns neurónios a outros que iríamos perceber como é que ele funciona. Mas não. Estamos a chegar à conclusão de que isso é insuficiente. Ou seja, é necessário fisicamente saber como é que o cérebro está ligado, mas não é suficiente para percebermos como funciona”.
E são várias as razões por que é tão difícil aceder a esse mistério. Uma delas é porque o cérebro como órgão, o sistema nervoso em si, é muito, muito complexo. As sinapses, que são as ligações entre os neurónios, são da ordem de grandeza do número de estrelas no universo. “É como se cada um de nós tivesse um universozinho dentro de nós e tivéssemos que o descobrir e estudar”, continua Rui Costa.

Já Albino Maia, outro investigador principal da Fundação Champalimaud, cujo programa de Neurociências faz agora precisamente dez anos, considera que não há distinção entre nós e o nosso cérebro. “Nós somos também o nosso cérebro. E aquilo que somos é em grande medida determinado pelo nosso cérebro em interação com aquilo que temos à nossa volta”, diz. “O cérebro é classicamente visto como uma estrutura que recebe e interpreta a informação do ambiente em que se encontra e que produz comportamentos, emoções e respostas menos tangíveis de acordo com esse ambiente e esse envolvimento. No entanto, começa a ser cada vez mais evidente que o cérebro não é apenas isso no sentido de ser uma estrutura de input e output. É também uma estrutura que produz alguns elementos de comportamento que são autónomos, que não dependem apenas do que está a acontecer fora mas que existem por si só.”

As imagens utilizadas para definir o cérebro são muitas, mas nenhuma se afasta da complexidade que ele enceta. “O modo como penso sobre o cérebro é como uma coleção de neurónios interconectados que transportam informação e que a processam e transformam”, afirma Megan Carey, que estuda a base neural do movimento, um trabalho que o cérebro faz ao retirar informação dos nossos sentidos e do ambiente que nos rodeia e, através de circuitos de neurónios conectados, transforma esses inputs em movimento.

Zachary Mainen, o nova-iorquino que dirige o Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud, diz que o cérebro é o órgão do pensamento, das emoções e de praticamente tudo. “Toda e qualquer experiência que façamos está de alguma forma ligada ao cérebro. Tudo o que nos acontece tem que acontecer também no cérebro. Mas a relação daquilo que experimentamos e o nosso cérebro é algo que ainda não compreendemos. E é difícil percebermos isso, porque o cérebro é a coisa mais complicada que conhecemos. Tem dez triliões de conexões, tem dez mil milhões de células em correspondência umas com as outras, a falarem e a dialogarem. E só conseguimos observar e perceber muito poucas desses mil milhões de cada vez.”

Por outro lado, avança Rui Costa, nós usamos o cérebro para descobrir como é que o nosso cérebro funciona. “Será que há aí alguma limitação também? Será que uma coisa não se pode compreender a ela própria?”, filosofa. “Uma estrutura de uma certa complexidade consegue compreender-se a ela própria?”, insiste e responde. “Neste momento toda a gente tenta formas criativas de se aproximar da explicação de como funciona e para que serve essa estrutura.”

tiago miranda

Investigadores. Zachary Mainen, em cima, e Joe Paton, foto em baixo, são dois dos seis investigadores principais da Fundação Champalimaud com quem falámos sobre o cérebro

Investigadores. Zachary Mainen, em cima, e Joe Paton, foto em baixo, são dois dos seis investigadores principais da Fundação Champalimaud com quem falámos sobre o cérebro

luís barra

Para uma primeira abordagem ao estudo do cérebro, a tecnologia é muito importante para sabermos como é que as coisas funcionam e para medirmos e conhecermos a geografia e os mapas que lá existem. Mas o ponto de vista da complexidade é tal que tem que haver outras disciplinas como a Matemática e a Física a ajudar. “Imagine como estudar um universo em que há leis ou regras que são mais independentes da nossa própria opinião ou observação? Como é que as explicamos. Isso é verdadeiramente importante de saber”, continua Rui Costa, contando-nos quais são as áreas onde se avançou mais no estudo do cérebro: “As áreas dos sentidos, ou seja, as que nos permitem perceber quais os sectores do olfato, do gosto, quais é que são os fotorrecetores na retina, como é que se processam certos processos auditivos. É o mais fácil porque nós percebemos esse processo, é o sentir o mundo. Tinha que haver ali qualquer coisa mecanicamente falando que permitisse que isso acontecesse”, explica.

Como funcionam os sentidos

Mas é Zachary Mainen quem nos explica como funcionam os sentidos. Comecemos pelo cheiro. Existem no nosso cérebro milhares de genes diferentes e cada um deles tem um recetor codificado — um recetor é como um buraco com uma molécula que aí encaixa como uma chave. Os cheiros são pequenas chaves a flutuar por aí e que encaixam num buraco desses, umas vezes num, outras em muitos. É o padrão de interação entre as chaves e os buracos que define de que cheiro se trata. Tudo começa no nariz, mas, depois, a abertura de um buraco ativa determinada célula que envia uma mensagem para o cérebro. “Imaginemos um teclado de piano. Diferentes acordes nesse teclado correspondem a um cheiro. Esse cheiro pode abrir a porta a uma memória que estava presente quando éramos novos, o cheiro da escola, do bolo da avó, da relva do nosso jardim. Cada vinho tem a sua sinfonia de cheiros. O truque para sermos bons a classificar um vinho não é ter um bom nariz mas sim ser capaz de nomear e catalogar aquilo que se está a cheirar.” O gosto é muito mais simples. Existem cinco sabores: salgado, doce, amargo, ácido e umami (o chamado quinto sabor que permite que as coisas saibam melhor, é quase como um refogado). A transmissão desses sabores para o cérebro funciona do mesmo modo que o cheiro. Vamos ao ouvido. O som começa no ouvido com uma onda de pressão, passa por uma membrana que vibra como um tambor ou um microfone, e transforma-se em frequências. Há células para baixas frequências e para altas frequências (sendo estas as que desaparecem quando ficamos velhos e por acaso fomos a muitos concertos de rock). Esses sinais são recebidos pelo cérebro que os lê como um espectro de frequências, como uma aparelhagem estéreo. Dentro do cérebro há áreas especializadas para a fala, o discurso, outras para a música e por aí fora. Já a visão é um sentido muito interessante para nós, porque somos seres especialistas em ver. Como em todos os sentidos, temos os recetores, neste caso os fotorrecetores para a luz, de diferentes tipos e para cada cor. Eles enviam um sinal ao cérebro e uma vez lá, diferentes zonas lidam com diferentes componentes da imagem visual. Algumas células na zona visual do cérebro excitam-se com umas imagens e não com outras. Há células que interpretam as linhas, outras as curvas, outras as formas. Há outra zona para os rostos, para a seleção dessas caras e por aí fora. Mas há mais. Podemos mexer os olhos de duas formas, de forma suave, como uma linha contínua, e de forma rápida fixando pontos ao longo de uma linha. Da primeira forma vemos tudo como num travelling lento, da segunda saltamos episódios visuais e o cérebro elimina alguns deles. Pode parecer-nos que estamos a ver uma grande cena, mas o que realmente está a acontecer é que só vemos partes dela de cada vez. Achamos sempre que vemos mais do que realmente vemos. Já o tato mexe com a ação, e não é que os outros sentidos não sejam também ativos de certa forma, porque o são, mas o tato é o mais ativo deles todos. Precisamos de tocar para experimentar algo com o tato. Temos que integrar no cérebro a experiência do que sentimos com os dedos, por exemplo. Depois, o cérebro coloca em cima da mesa um modelo. Se nunca tivéssemos visto uma cadeira provavelmente desenhá-la-íamos tal como ela é só por senti-la e tocá-la. É por isso que neste caso sentir não é só receber é também fazer.

A tomada de decisão

Porque decidimos fazer isto ou aquilo, uma coisa em vez de outra é mais uma das grandes áreas de estudo dos cientistas. As decisões chamam-se processos periféricos de sensação e estão associadas ao que explorar, ao que comer, com que parceiros nos devemos reproduzir, que ações fazer, que estímulos procurar. Vejamos porque decidimos. Será que o nosso cérebro ainda manda em tudo? Pelo menos é essa a perceção que temos. Mas estamos errados. O cérebro per se, isolado, não é tudo. Mas a sua interação com o mundo e com o organismo sim. Mesmo assim, se estamos sentados e não há nada a acontecer à nossa volta, o que é que nos faz levantar e fazer outra coisa? É na área do cérebro chamada gânglios da base, que recebe atividade dos neurónios dopaminérgicos, que tudo se passa. Esses neurónios estão ativos antes de nos começarmos a mexer mas não dizem que ação devemos fazer, dizem só que devíamos fazer algo. E outros neurónios no córtex também estão ativos e dizem o que devemos fazer. Combina-se tudo nos gânglios da base numa área que se chama estriado, para decidir o que fazer. “Sabemos que há um mapa de todas as ações que se fazem e onde essas ações mais semelhantes estão mais próximas umas das outras do que as ações muito diferentes que estão mais afastadas. No entanto, quando a pessoa seleciona o que fazer aciona a ação. Esse mapa é muito importante para selecionar o que vamos fazer. É um mapa completo e que representa tudo o que fazemos. É, portanto, necessária a ativação desses neurónios para selecionar o que vamos fazer a nível motor”, explica o codiretor do Programa de Neurociências. Há programas genéticos de desenvolvimento que determinam depois as ligações aos sistemas sensitivos, motores e aos músculos. E há ainda um processo de aprendizagem que é o mapeamento de certas ações com certas consequências. “As sinapses dos inputs que chegam ao estriado estão sempre a ser mudadas, baseadas na nossa experiência com as ações. Eu posso fazer muito uma coisa, jogar ténis, por exemplo, e você pode fazer muito outra coisa, escrever, por exemplo. Nós desenvolvemos, embora a representação do nosso reportório esteja lá, riqueza em aspetos diferentes. Essa plasticidade leva a esse enriquecimento. Portanto, cada um de nós terá um mapa muito individual. Um mapa que se desenvolveu de acordo com as nossas próprias apetências e mais comuns ações. Imagine um mapa geral muito pouco detalhado que diz isto aqui é o braço, isto aqui é a perna, aqui o pé, ali o dedo. Todos nascemos com isso. Mas depois o que vamos fazendo tem consequências no mundo e nós aprendemos baseados nas consequências a melhorar as ações. Cada um de nós tem a sua experiência individual. Vamos, portanto, refinando as sinapses e os inputs para o mapa e no fundo ele muda. É um mapa dinâmico, e que está aprendido. Agora, quão aprendido é e quão geneticamente determinado é, ainda não sabemos.”

E como aprendemos a fazer movimentos suaves e coordenados? Coisas que aprendemos sem sequer darmos por ela. “São processos que tendem a ser inconscientes mas fazemo-los constantemente e a nossa capacidade de fazer determinado movimento de forma coordenada depende da nossa capacidade de estarmos sempre a aprender, calibrar e afinar”, explica Megan Carey. Que vai muito mais longe naquilo que já sabe sobre este tipo de movimentos. “Por forma a movermos diferentes partes do corpo, uma parte do corpo tem que saber o que a outra está a fazer e tem que conseguir prever as consequências do outro movimento que a outra parte do corpo está a fazer, para que a possa controlar. Se não conseguirmos prever isso, ficamos instáveis e podemos perder o equilíbrio. É por isso que a previsão é importante para a correção do movimento.” É o que uma criança faz quando aprende a andar ou o mesmo que acontece quando andamos de bicicleta. Aprendemos a prever que todos os outros movimentos, à parte de fazermos rodar os pedais, contribuem para o nosso equilíbrio e como isso pode mudar a posição da bicicleta. A razão por que caímos é porque precisamos que os outros sentidos percebam o que estamos a fazer e quando isso acontece é demasiado tarde para fazer a correção. Mas se prevermos, não temos que esperar pelos sentidos para que estes se apercebam do que está a mudar, já sabemos que vai mudar e corrigimos o movimento antes que ele seja o errado. Mas precisamos sempre do input sensorial e conseguimos prever qual será. “O que o cerebelo faz é aprender a fazer estas previsões para que as usemos para formas simples de aprendizagem ou podemos usá-las para controlar as ordens. Essas previsões são enviadas do cerebelo para outras zonas do cérebro para que sejam utilizadas em formas simples de aprendizagem e padrões de locomoção e até para a cognição e a linguagem.”

Perceção do tempo

Às vezes o tempo voa, outras vezes parece que para. O tempo real é o mesmo, mas a nossa perceção dele pode mudar radicalmente. Porque será? A resposta à pergunta é o trabalho que Joe Paton, investigador principal, tem vindo a desenvolver. E traduz-se no seguinte raciocínio: os neurónios que produzem dopamina, associada à recompensa e ao movimento, também sinalizam a passagem do tempo. Imagine que está muito aborrecido, no sentido de muito enfadado, de não ter nada interessante para fazer, esses neurónios da dopamina, que respondem às coisas interessantes e às ações, estão muito menos ativos e a perceção do tempo é muito lenta. Imagine que está à espera que alguém lhe telefone mas que não pode sair e fazer outras coisas, ou que está numa sala de espera (porque é que pomos lá revistas ou televisões?), a sua perceção do tempo vai ser muito lenta. Agora imagine que está a jogar um desporto de que gosta ou a ver um filme que lhe agrada ou a fazer qualquer coisa que o recompensa, esses neurónios, agora, estão muito mais ativos e de repente o tempo que é o mesmo parece-nos muito menor, parece-nos que passou mais rápido. Há neurónios que medem o tempo através de sinais que ativam células em momentos diferentes e essa combinação altera a perceção do tempo. O tempo normal, digamos assim, o que está marcado pelo relógio, não existe a nível do cérebro, só existe a perceção que dele temos. É como se fosse uma memória. Nós quando olhamos para uma coisa não vemos a coisa, temos recetores e vemos aquilo que é a nossa perceção da coisa. Com o tempo passa-se o mesmo. Nós não representamos o tempo, temos essa tal perceção dele que pode ser mais ou menos ajustada ao tempo real.

Isso não só explica que os neurónios dopaminérgicos ajudam a essa perceção de quanto tempo passou, como explica porque é que os ambientes aborrecidos e com pouca ação nos causam demora e nos ambientes excitantes pressa. Todos os acontecimentos marcam o tempo de uma forma ou de outra. O tempo é como um rio que corre, cada splash ou cada corrente representa mais um acontecimento. Se o rio está parado não há nada que marque o tempo. É porque ele corre que temos a noção de que há um passado e um presente e de que ele se mexe.

É como a memória. Mas, o que é a memória? “É uma espécie de arquivo de ficheiros. As coisas acontecem, nós escrevemo-las e guardamos num ficheiro nesse arquivo. Quando nos lembramos disso, vamos ao arquivo e tiramos o ficheiro e lemo-lo. Depois devemos guardá-lo outra vez mas podemos estar a guardar alguma coisa um pouco diferente daquela que tirámos ou nem voltar a guardá-la”, explica Zachary Mainen. Pois, a memória é dinâmica, como acredita Rui Costa. Se interrompemos alguém quando está a lembrar-se de um determinado acontecimento e o distrairmos, podemos evitar que ele volte a guardar aquela memória. Imaginemos uma memória má e traumática da nossa infância, ou uma fobia, alguma coisa que não gostamos de ter. Há métodos para destruir o processo de reconstrução desse acontecimento.

Porque é que comemos 
determinados alimentos

Na alimentação dita homeostática, ou seja, na alimentação para manter um equilíbrio orgânico, “o organismo, tendo formas de saber se tem muito ou pouco de determinado nutriente, ou se tem muita ou pouca energia, poderá modificar o comportamento para repor aquele equilíbrio. É o equivalente a se o organismo deteta que está com pouca água ativar mecanismos que levam a pessoa a ter sede”, esclarece Albino Maia. Imagine-se que há um nutriente que precisamos de comer, mas que é pouco abundante, o que acontece é que vamos comer muito daquela comida. Na verdade, estamos saciados, do ponto de vista clássico, mas se temos uma deficiência de um aminoácido continuamos a comer até ele chegar ao nível certo.

A fome é, no fundo, algo que nós definimos como uma sensação, é algo que sentimos e que nos leva a ter determinado comportamento. Muitas vezes quando se diz comer sem ter fome, na prática o que se está a querer dizer é comer sem ter necessidade metabólica ou biológica. “A distinção entre o que é homeostático e o que não é trata-se de uma distinção biológica. Significa que percebemos que há circuitos do sistema nervoso central que são os circuitos relacionados com o prazer e que estão envolvidos, por exemplo, em situações patológicas como o abuso de substâncias, cocaína, heroína, nicotina, álcool, etc., que estão muitíssimo relacionados também com o consumo de alimentos.

EXPERIÊNCIAS. Carlos Ribeiro, investigador suíço-descendente, mostra uma mosca da fruta, um dos animais com um cérebro semelhante ao nosso, onde, como nos ratinhos, se fazem muitas experiências laboratoriais

EXPERIÊNCIAS. Carlos Ribeiro, investigador suíço-descendente, mostra uma mosca da fruta, um dos animais com um cérebro semelhante ao nosso, onde, como nos ratinhos, se fazem muitas experiências laboratoriais

tiago miranda

Temos mecanismos no cérebro que nos dizem — através da sinalização, da insulina, da glicemia, e a própria distensão do estômago — que estamos saciados e que não devemos comer mais. Normalmente, a pessoa deixa de comer. No entanto, pode chegar uma altura em que, devido ao stresse e ao próprio reforço em termos de recompensa, prazer, com comidas muito calóricas, a pessoa continue a ingerir comida independentemente de já estar saciada. “Não é que tenha mais fome, é que a ação de comer ficou independente do estado de saciedade. Os ratinhos continuam a carregar no pedal para pedir comida e as pessoas continuam a ir ao frigorífico à procura dela. Isso é aquilo a que chamamos o hábito. A procura de comida compulsiva deixou de estar ligada à fome. Passou a ser uma recompensa em si própria, pensamos nós. É quase como fumar um cigarro. A pessoa pode já saber que aquilo é mau mas fuma para atingir um certo estado de bem-estar no cérebro, tornou-se um hábito e a pessoa não controla. No caso dos hábitos alimentares, não é que a pessoa tenha fome, no sentido literal da palavra, não é que a pessoa não saiba que não deve comer, perde o controlo das ações”, avança Rui Costa.

E quais são os genes que fazem com que gostemos mais de comer uma comida do que outra? “Descobrimos, por exemplo, um gene que existe na mosca da fruta, nos ratos e no ser humano, que quando é retirado ou não funciona faz com que queiramos comer muito mais aminoácidos, mais proteínas, mais bife. As moscas que não têm esse gene morrem muito mais cedo”, adianta Carlos Ribeiro, um suíço lusodescendente. As grávidas têm preferências nutricionais completamente diferentes. Mulheres grávidas preferem comida mais salgada, porquê? “Porque estão a formar muitas células e o líquido que está dentro das células é água com sal. Existem uns neurónios que vão do sistema reprodutivo do útero da fêmea até ao cérebro e que o informam que está grávida e lhe dizem: agora tens que comer mais sal!”, continua Carlos Ribeiro.

Para que servem as neurociências

E podíamos nós continuar a dar exemplos de descobertas e de razões por que fazemos isto ou aquilo. No entanto, o rol de pormenores que o cérebro apresenta tem no seu estudo uma base importante de consequências. É por isso mesmo que as neurociências são tão importantes. “A nossa capacidade de amar, de odiar, de comer, gostar, estar feliz, não estar, tem tudo a ver com o sistema nervoso. Perceber isto é perceber o que nós somos. Portanto, é fundamental percebermos o cérebro”, conta-nos Rui Costa. De resto, é ele que nos torna únicos.

Por outro lado, hoje em dia, até já mais do que o cancro, a maioria dos problemas de saúde com que gastamos dinheiro e tempo são as doenças neurológicas, as perturbações do cérebro, quer como neurodegenerações quer como perturbações a que chamamos mentais ou psiquiátricas. Estão a atingir-se proporções muito maiores à medida que a nossa esperança média de vida aumenta e o mundo se torna mais complexo. “Esta caixa começa a criar outro tipo de perturbações e começamos a entrar em idades em que muitos dos neurónios morrem. Portanto, as neurociências servem para termos a informação que nos irá ajudar a resolver o problema.” Depressões, Alzheimer, Parkinson e muitas demências estão neste rol de distúrbios.

Há ainda outra aplicação das neurociências que não é do foro da medicina, mas sim da educação. O que fazemos ao ensinar é precisamente treinar o cérebro. Se não soubermos como é a aprendizagem, a memória, a tomada de decisão, e por aí fora, podemos estar a ensinar pior do que conseguiríamos. Aplicar o conhecimento das neurociências à educação é, pois, fundamental. “A aplicação dos conhecimentos que temos de como o cérebro funciona pode servir para melhorar o mundo, a justiça, a sociedade, a educação. Mas isso ainda não está a acontecer”, diz o codiretor do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud. “Sabemos que para a aprendizagem e memória é fundamental o sono. Sabemos que na adolescência a hora normal de acordar, ou aquela a que o cérebro gostaria de acordar, não é muito cedo, é mais tarde. Mas continuamos a insistir em horários muito matinais em que as duas primeiras horas vão para o galheiro, como se costuma dizer. Não é por falta de interesse, não é porque os alunos são mal-educados ou tenham alguma rebeldia, é uma incapacidade de estar com o mesmo nível de atenção”, continua. “Sabemos que o treino espaçado é muito melhor do que o treino intensivo. Ou seja, se um professor der uma matéria, fizer uma pausa e voltar a dar a mesma matéria, tem muito melhores resultados do que se insistir. Mas continua a lecionar-se em blocos de 90 minutos.”

A maioria do nosso trabalho é com o cérebro, mas não temos uma educação de como usar o cérebro, explica ainda Rui Costa. “Um atleta de alta competição quando tem uma prova, no dia anterior não vai correr para se estafar. Mas nós, nos trabalhos mais cerebrais, com as deadlines mais apertados, fazemos o contrário do treino saudável. Estamos sempre a queimar o cérebro e os neurónios!” Mas descanse! Não terá queimado neurónios ao ler este artigo. Sobretudo se ele lhe tiver dado prazer.

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