www.sabado.ptFlash - 16 set 03:31

Mentir na desportiva

Mentir na desportiva

Antigamente, comentavam-se vídeos e árbitros. Agora, serão vídeos, árbitros e vídeo-árbitros. Honestamente, alguém devia instalar um vídeo-árbitro só para controlar melhor os próprios vídeo-árbitros

NOVO ANO LECTIVO, novas médias de entrada na universidade. E as engenharias, pelos vistos, levam a taça. Li algures que só no Instituto Superior Técnico de Lisboa há cursos com médias superiores a 18 valores.
Não estou impressionado. Quando vejo cursos de Engenharia Aeroespacial com notas na estratosfera, as minhas perguntas são fulminantes: não estaremos na presença de uma manifestação de elitismo? Será que as médias são o melhor sistema de colocação? E as mulheres? Por que motivo Engenharia Física não tem maior presença física das ditas?

Felizmente, uma jornalista do Expresso, Joana Pereira Bastos, confrontou o presidente do Técnico com estas angústias. Arlindo Oliveira respondeu com assinalável soberba: sim, é um curso elitista; sim, as notas são o melhor filtro porque impedem critérios "subjectivos"; e, sim, há mais homens do que mulheres, embora as donzelas já constituam 30% da discência.

Lamento. É insatisfatório. Uma universidade inclusiva deve ser a imagem de uma sociedade inclusiva. Isso implica, para início de conversa, que os cursos de engenharia deviam "abrir-se à sociedade" e reservar alguns dos seus lugares elitistas para analfabetos a matemática – e com óbvia prioridade para a ala feminina. O resultado pode ser desastroso?
Entendo a pergunta. E entendo que as "ciências exactas" não se confundem com o circo reinante na maioria das "ciências sociais": afinal de contas, é preciso fazer contas.

Porém, se as pontes caírem e os aviões se despenharem, poderemos sempre repetir as imortais palavras de Catarina Martins e dizer às famílias das vítimas que os engenheiros responsáveis sabiam pouco de engenharia; mas foram felizes na universidade.

ainda ME LEMBRO desses tempos heróicos em que os especialistas da bola imploravam pelo "vídeo-árbitro". Na peculiar cabeça destes seres, o vídeo-árbitro colocaria um ponto final nas conversas insidiosas que envenenam o futebol. Se a "verdade desportiva" estava em causa, quem era eu para defender a "mentira desportiva"?
Exacto. Eu defendo a "mentira desportiva". Que o mesmo é dizer: defendo um futebol humano, e não maquinal, onde o acaso, o erro e até a esperteza saloia têm o seu lugar. Será preciso dizer que os saudosos mergulhos de Futre na área eram perfeitamente comparáveis a certos movimentos de bailado?

Sem esta teatralidade, o futebol é uma espécie de jogo de computador, onde os autómatos, encerrados nas respectivas "tácticas", cumprem o seu algoritmo.
Acontece que, para sermos rigorosos, as coisas não são exactamente assim. Os jogadores têm momentos de génio (normalmente, quando fogem ao guião) e a tecnologia, qualquer tecnologia, em qualquer época histórica, depende sempre dos seres humanos que a usam. O fogo serve para cozinhar – ou destruir. O cavalo serviu para encurtar distâncias – ou promover massacres. O automóvel é, simultaneamente, conforto e tragédia.

No fundo, os defensores do vídeo-árbitro esqueciam-se do factor humano – e o esquecimento está à vista: em jogo do campeonato nacional, um lance (irregular) que deu golo (idem) alimentou polémicas e insultos. Por causa do vídeo-árbitro – ou, melhor dizendo, por causa do árbitro que interpretou o vídeo. Não foi caso único. A ambição era diminuir as polémicas? Azar. O vídeo-árbitro, com os seus erros, esquecimentos e ambiguidades, é apenas mais um contributo para a gritaria.
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ESCREVO ANTES DO LANÇAMENTO OFICIAL DO NOVO IPHONE. Mas, tomado por uma ansiedade histérica, implorei a uma amiga com bons contactos que me fizesse chegar o dito cujo de forma oficiosa.
Estou sem palavras. Aparentemente, é mais um iPhone para alegria de adultos retardados que procuram resgatar a infância com brinquedos caros.

Depois, descobrimos que não é: para além de permitir reconhecimento anatómico (sim, não é apenas facial; o novo produto reconhece qualquer parte do corpo, excepto axilas), vejo com agrado que, no mesmo objecto, há corta-unhas, varinha-mágica e, para ambos os sexos, a possibilidade de depilação a laser.

Infelizmente, constato com tristeza que o pessoal ainda não adaptou os seus modelos às necessidades culturais de cada país. A ausência de um palito, por exemplo, parece-me imperdoável.

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