www.jn.ptAfonso Camões - 17 set 00:01

Porque hoje é domingo

Porque hoje é domingo

Porque hoje é domingo, ocorre-me que os fins de semana são um pouco como os salários: tardam em chegar e acabam num instante. Pois é de salários, no entanto, que vamos ouvir falar e discutir nos próximos meses. Vejamos.

Portugal vai crescer este ano e nos três seguintes acima da União Europeia, coisa (a chamada convergência) que não se via desde o início do século. A atividade económica dá sinais de reanimação, com o turismo a servir de motor, mais o acréscimo de investimentos potenciado pelo ano de autárquicas. E o desemprego, embora alto, está a cair de forma consistente para o valor mais baixo desde 2008.

Não, não é porque o Governo diz. As contas e as previsões são do Banco de Portugal e, por ironia, agora também, do FMI e de uma dessas agências de notação financeira que há anos nos colocavam no "lixo", receitando políticas exatamente inversas, porém, às que nos trouxeram para resultados positivos. Lembram--se das previsões apocalípticas de quantos previam que o aumento do salário mínimo significaria mais desemprego? Está a acontecer o contrário.

Nada de milagres: o que há é mudança de políticas e uma melhoria de clima económico nalguns países para onde mais exportamos. Mas não tenhamos ilusões. O que a macroeconomia nos diz é que o rendimento disponível, que mede aproximadamente o bem-estar dos portugueses, levará pelo menos uma década a recuperar os níveis anteriores à crise. Porque a recessão cavou novas desigualdades e prevalece, em geral, um modelo (esgotado) de baixos salários e emprego precário.

Sendo certo que o crescimento reclama estabilidade social, o mercado de trabalho precisa de um pacto que garanta a recuperação do poder de compra dos assalariados. De preferência, abrangendo outras áreas: da formação, aos horários e duração da jornada. É claro que os limites e advertências que devem ser impostos a esse crescimento salarial são discutíveis e negociáveis. Mas devem sê-lo em sede de concertação social e não na rua. Não por acaso, a reanimação da atividade económica coincide com um período de inédita paz social. 2016, por exemplo, foi o ano desta década em que o país teve menos greves, cinco vezes menos que a média dos anos anteriores.

O tema tem escala continental. Não por acaso, a proposta de Jean-Claude Juncker, na última quarta-feira, perante o Parlamento Europeu, recoloca a centralidade da agenda social como não se ouvia desde o tempo do saudoso Jacques Delors: a criação de uma autoridade laboral comum, que assegure equidade do mercado interno da União, e que garanta aos trabalhadores um salário igual para trabalho igual, em igual lugar. Veremos.

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