observador.ptMiguel Alvim - 16 set 11:02

Os feiticeiros de nós

Os feiticeiros de nós

Escondido na manga do frentismo comunista que nos coordena colectivamente existe um contrato social torcido à façon só de uns tantos.

Como por feitiço, temos geringonça governativa desde a curiosa data de 26 de Novembro de 2015.

Um frentismo de esquerda colado à pressa conseguiu falar mais alto e mais forte do que o resultado das eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015 e do que a maioria relativa alcançada pela coligação formada pelo PSD e pelo CDS (que nos salvou da última bancarrota).

Mas os livros da especialidade dizem que as manifestações mágicas são sempre perigosas quando conduzidas por um mago que não seja firme nas suas convicções e se operadas por indivíduos que iniciam as suas práticas furtivas só para cobrar vantagens para a sua tribo de apaniguados.

É disso mesmo que fala o “vudu” ocultista da actual maioria parlamentar – sem carisma e ligada pelo fio miúdo dos interesses –, que não pretende servir, nem serve o bem comum.

Que tem de durar esta legislatura e o mais que puder ser.

O resto são papas e bolos, que hoje chamam-se reposição de rendimentos, redução histórica do déficit das contas públicas ou economia “a crescer um dígito”.

Maioria e governo fazem candomblé mole todos os dias da semana no espaço mediático e ilusionam permanentemente o povo.

Trabalham por detrás de uma cortina comunicacional cerrada que funciona sem falhas, sem escrutínio e sem contraditório – à voz do dono.

Daí que não se fale do crescimento imparável da dívida pública.

O tal monstro que aumentou 1,8 mil milhões de euros até Junho, somando agora perto de 250 mil milhões de euros (dados divulgados em Agosto pelo Banco de Portugal).

Que se esconda que a taxa de poupança das famílias portuguesas voltou a cair para os níveis mais baixos pelo menos desde há 18 anos.

Que se iluda que o saldo da nossa balança comercial está outra vez negativo.

Ou que se negue que o verdadeiro motor da economia é o dinamismo do investimento e das exportações e que o binário desse motor se chama criatividade e produtividade (não, não era a procura interna, nem a baixa do IVA).

Na capital do país – ao lado de algumas (poucas) obras úteis que demoraram demasiado tempo a fazer – engana-se o pagode com muitas outras só de encher o olho.

Façanhas que um dia alguém irá pagar com língua de palmo e muitos juros.

Às vezes, contudo, mesmo nos mais eficientes teatros de ilusões os fumos mágicos desvanecem-se e os braços dos “artistas” falham.

As peças que giravam muito rápidas no ar caem todas com estrondo no chão do palco.

É assim com a inquietação que vai crescente suscitada pela miserável rixa de controlo sindical-partidário travada na Autoeuropa pelas duas alas comunistas da geringonça (a do PCP e a do BE), contra a sã e eficiente convivência laboral e o interesse geral dos trabalhadores e da economia nacional.

É assim com o clima de guerra surda entre as comadres da união governativa que medra a propósito de alguns dos temas cruciais da discussão orçamental.

Porque essas duas alas comunistas não estão dispostas a recuar nalguns persistentes despropósitos “revolucionários”

Querem carregar ainda mais, se possível, no IRS dos trabalhadores mais preparados, mais capazes e mais produtivos (e portanto de maior rendimento), e avançam com propostas de aumento das taxas do imposto que podem ir até dos 50% aos 75%.

Pretendem alargar o número dos beneficiários da RSI e afrouxar os mecanismos de controlo e verificação na sua atribuição.

Porque sim.

A utopia baça e horizontal de um país que pretendem irremediavelmente atrasado, de pouca exigência, de pouca escolaridade e de má preparação, levado pela trela do emprego no Estado e em todas as administrações públicas, sem rasgo, feito de reduzida responsabilidade pessoal, de baixa autoestima e de poucas expectativas, e portanto, de menor produtividade, de parcos rendimentos e escassa mobilidade social.

Um país que se engana a si próprio e pensa que é moderno e vai mais à frente só porque galopa e legisla de forma imparável (e irresponsável) sobre todas as fracturas.

Um Portugal que se vai afeiçoando deploravelmente ao arquétipo marxista de exaltação moralista e conflitual, de falso altruísmo de directório e pura dominação oligárquica, de brida bolchevique e sindical.

Um paraíso só para alguns e uma baderna a prazo.

Miguel Saldanha Alvim é advogado e membro da Comissão Política Nacional do CDS

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