www.dn.ptJoão César das Neves - 16 set 01:03

Não Há Almoços Grátis - O fim da ideologia

Não Há Almoços Grátis - O fim da ideologia

Quando PCP e Bloco promovem aquilo que, se estivessem na oposição, chamariam "políticas de direita" revela-se um traço curioso da mentalidade nacional.

Os portugueses não ligam a ideologias. Anseiam por subsídios e padrinhos, mas sem prestar atenção às teorias dos poderosos. Por isso, viram partir sem emoção o rei em 1910, o republicanismo em 1926, o corporativismo em 1974. Revoluções com cravos só em povos sem facções. Também por isso, nas questões fracturantes, Portugal tem hoje a legislação mais radical do mundo, com apatia generalizada da população. Noutros países há fortes controvérsias acerca da vida, da família, como da Europa ou do regime político. Por cá as pessoas querem que não as aborreçam com doutrinas, deixando-as viver a vida serenamente. Dêem-lhes aumentos, não conversas.

Claro que em compensação existem grupos muito empenhados na defesa de princípios, repudiando o desinteresse das massas. Alguns monárquicos ou marxistas, católicos ou liberais, salazaristas ou budistas, vivem os seus preceitos com fervor, talvez maior do que no estrangeiro, mergulhados numa cultura alheia a dogmas. Isto prova-se, por exemplo, no facto insólito de permanecermos há décadas o único país desenvolvido com um partido estalinista de expressão eleitoral.

Mas na política esse zelo tem esmorecido. Ninguém vê há muito a social-democracia do PSD, e o CDS já foi centrista, liberal, democrata-cristão, etc. Quanto ao socialismo do PS, não passa de capitalismo com sabor a morango, como no PSD tem sabor a laranja e no CDS a limão. Até a extrema--esquerda, mais ideológica, há muito esqueceu a revolução proletária e a sociedade sem classes. Mas faltava o teste final. Assim, o primeiro governo apoiado pela parte dogmática da esquerda é uma experiência fascinante. Aqueles que, durante décadas sem responsabilidade, fizeram críticas ferozes a tudo e a todos a partir de impolutos cânones doutrinais, finalmente enfrentam a realidade. Muitos temeram radicalismos populistas, nos estritos princípios revolucionários, mas estes dois anos foram um pífio anticlímax. Comunistas e esquerdistas engolem tudo, e até têm perdido a encenação de relutância e negociação.

A política do actual governo não difere de uma maioria PSD-CDS. A austeridade é mais forte do que nunca, com o défice em mínimos inauditos. Monopólios e capitalismo de compadres persistem incólumes. As reformas do mercado laboral, tão criticadas no tempo da troika, permanecem intocadas, o que permite descer o desemprego. O governo só sugere novidade pela distribuição dos benefícios, aliás magros, de um crescimento à boleia da recuperação europeia. Nenhum ponto dos manifestos eleitorais esquerdistas tem a menor atenção. "Política de direita", afinal, não tem a ver com conteúdo, mas com rótulo.

Claro que existem poses de crítica, mas sem ultrapassar a retórica desprovida de consequências. O Bloco de Esquerda apresentou ufanamente um cartaz dizendo: "Novo Banco. O Governo errou". Mas isso nada significou, com os seus votos servindo de muleta a todos os passos do processo. Agora jura severidade na condenação das cativações, o truque milagroso das Finanças na consolidação orçamental. Só que tais observações são genéricas e abstractas. Quando acontecem cortes reais nos serviços concretos, assiste-se ao mais sepulcral silêncio, contrastando com os urros de indignação em governos anteriores, aliás limitando o uso deste expediente pelos antecessores de Centeno.

A coroa de glória desta hipocrisia política, o caso que mostra em definitivo que a extrema-esquerda desapareceu em Portugal, é a venda do Novo Banco. Que pequenas poupanças credoras da instituição sejam roubadas e, pior, seja dada uma garantia pública, ameaçando inevitavelmente os bolsos dos contribuintes, para um fundo especulativo norte-americano poder ficar com o segundo maior banco português a troco de nada, é algo que choca qualquer pessoa, mesmo liberal. É difícil encontrar caso mais flagrante de negócio em que, se correr bem, ganham os agiotas; se correr mal, perdem os cidadãos. Álvaro Cunhal e Miguel Portas devem dar voltas no túmulo, mas os seus partidos assistem pacificamente ao processo, com tímidos e inócuos remoques. Não podem restar dúvidas de que PCP e Bloco, para se manterem na esfera do poder, abandonaram a sua natureza e a até a mais elementar decência. Quem quiser coleccionar as suas declarações deste período terá um festim quando eles voltarem à oposição militante.

Alguns respiram de alívio, mas este abandono da ideologia, mesmo radical, manifesta o principal problema do país, a eterna falta de reformas estruturais, à esquerda ou à direita. Uma vez no poder, todos vão com a corrente, endividando-se nos tempos de facilidade, apertando depois, quando são obrigados, sem rumo nem princípios. Quase era melhor suportar uma verdadeira política revolucionária, agora que está no poder, do que constatar, definitivamente, que somos um país sem ideologia.

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