www.dinheirovivo.ptRicardo Reis - 16 set 02:00

Opinião. O futuro de Juncker

Opinião. O futuro de Juncker

A economia europeia praticamente não recuperou nenhum do terreno perdido entre 2008 e 2011.

O discurso de Jean-Claude Juncker sobre o estado da UE é um momento político importante, por muito que Bruxelas pareça distante. Embora a cobertura da imprensa tenha sido dominada por um descuido geográfico de Juncker, o seu discurso revelou três intenções económicas mais profundas.

Primeiro, Juncker argumentou que a economia europeia está hoje no bom caminho: a taxa de desemprego está no nível mais baixo dos últimos nove anos, o crescimento é positivo há cinco anos, e nos últimos dois excede o crescimento americano. É bom estar optimista, mas não eufórico. A taxa de crescimento voltou ao normal, mas o nível de riqueza continua bem abaixo do que teria sido sem a crise. Ao ciclista que tropeçou da bicicleta, e perdeu minutos a remontar, não basta voltar ao ritmo que tinha antes: tem de andar mais depressa para recuperar o tempo perdido.

Segundo, Juncker defendeu que todos os membros da UE deveriam adoptar o euro o mais cedo possível. Embora esta seja uma ambição antiga, a discussão sobre o alargamento da zona euro não se pode fazer como se fazia há 30 anos. A moeda única já não é só um símbolo político, mas vem com imposições na regulação financeira e com consequências na reacção e consequências numa próxima crise. Agora que a crise já passou, mas ainda está fresca, devíamos antes discutir os custos e benefícios do euro com análise e reflexão, antes de cair num europeísmo voluntarista. Por exemplo, alargar ou aprofundar o euro sem criar uma obrigação europeia segura seria um erro que tornaria a próxima crise mais provável e mais profunda.

Terceiro e por fim, Juncker propôs uma autoridade do trabalho europeia que imponha padrões de trabalho uniformes. A seu favor, tem dois argumentos importantes. Primeiro, a harmonização permitiria uma mais livre circulação de pessoas, pois de momento elas sabem que perdem alguns dos seus descontos para a protecção social se mudarem de país quando mudam de emprego. Segundo, ela permite uma competição “justa” entre os estados membros, evitando que alguns países subsidiem as suas empresas exportadoras, por exemplo cortando a TSU, como foi defendido em Portugal há uns anos. No entanto, também existem argumentos fortes contra esta harmonização. Primeiro, muita competição entre países é boa, sobretudo se ela consiste em ter um código laboral melhor para as pessoas e para as empresas que atraia imigração e capital. Segundo, as condições de trabalho são um tema sobre o qual, em praticamente todos os países, as populações têm opiniões muito diferentes e muito fortes. Talvez a diversidade seja melhor do que impor o mesmo a todos.

A UE pós crise e pós Brexit tem de ser diferente. Juncker faz bem em estimular o debate, concorde-se ou não com as suas propostas. Todos nos temos de investir mais tempo neste tópico; ele é bem mais importante do que praticamente todas as discussões políticas nacionais.

Professor de economia na London School of Economics

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