Um dos grandes méritos da tecnologia é a capacidade infindável de criar dependência com soluções ou objetos que, em circunstâncias normais, não nos fariam falta. De certo modo, somos usados pelas coisas antes de usarmos as coisas. A nossa relação com o telemóvel, por exemplo, evoluiu para patamares absolutamente impensáveis há meia dúzia de anos. As teclas são do século passado, os visores cada vez mais generosos e os níveis de funcionalidade tantos que nos esquecemos de que aquele prolongamento da mão também faz chamadas. A nova moda obsessiva chama-se reconhecimento facial. No fundo, é um regresso high-tech ao universo tamagotchi. O iPhone X só nos obedece se o olharmos nos olhos. Ora, todo o salto tecnológico comporta uma dose de risco. O telefone que conhece o dono (como o cão, mas sem abanar os chips e sem dar a patinha) pode colocar à mercê de gente sinistra os dados pessoais do utilizador, alertou um senador norte-americano. Pois eu acho que esta descoberta que fez inundar o meu mail com ofertas de crédito (30 meses sem juros!) só pecou por tardia. Já andamos há tanto tempo de retinas cravadas nos telemóveis, que haveria de chegar o dia em que eles nos retribuíam o gesto. A mim, só me deixam de queixo caído quando inventarem um que tire finos, passe camisas a ferro e vá passear o meu labrador. Tim Cook, estás a apontar?