Um dos grandes problemas da democracia, quase tão grave como a falta de seriedade de uma boa parte dos políticos, reside no abstencionismo eleitoral. Quando nos deparamos com taxas de abstenção na casa dos 30, 40 por cento, percebemos o divórcio claro que existe entre os cidadãos e, provavelmente, o momento mais nobre do exercício democrático, que consiste na participação eleitoral. Pelos vistos, o tema preocupa o Governo, e durante a semana foi noticiada uma iniciativa legislativa com vista a proibir a realização de jogos de futebol nos dias das eleições. Mas será o futebol o problema? Infelizmente, não. Os estádios portugueses têm, habitualmente, mais cadeiras vazias do que ocupadas, exceto anfiteatros dos três maiores clubes. Por outro lado, seguindo esta lógica, seria necessário proibir as sessões de cinema, as feiras, os casamentos, os aniversários (com mais de dois convidados) as matanças do galo, fechar as praias se o tempo estiver bom e, já agora, as estradas, não vá a malta lembrar-se de um dar passeio nesses dias. Destas cabeças que nos pensam as leis parece não ter saído, sequer, uma nesga de vontade de discutir a possibilidade de responsabilizar o voto, torná-lo um dever efetivo - como acontece, por exemplo, na Bélgica -, e não apenas um direito.