Em 1976, as primeiras autárquicas em liberdade, a abstenção foi de 35,4%. Em 2013, nas últimas, subiu para 47,4%. Ou seja, em 37 anos a tendência para não votar foi sempre a subir. Os dados, da Pordata, são claros e dizem, por exemplo, que, há quatro anos, na Grande Lisboa 57,2% dos votantes não quiseram saber e que o Norte se ficou pelos 41,7% (contra 31,2% em 1976). Preocupante? Muito. O poder local é o alicerce da democracia. O autarca é o rosto com que nos cruzamos, a pessoa que conhecemos, a esperança que tenha soluções. Sempre achei piada à palavra "fregueses" quando alguém se refere a quem vive em freguesias. Porque o morador é isso: bate à porta da Junta para pedir ajuda. E para pedir contas. E para cobrar promessas. E para pedir responsabilidades. Que legitimidade terá um freguês que não vota para reclamar seja o que for? Pois. Dir-me-ão: tem tanta como os outros. Digo eu: não tem. O voto é um direito. E um dever. "Então e a liberdade de escolha?". Sem voto? Fica em causa. Não votar não é uma escolha. É irresponsabilidade. Há anos que andamos com este discurso. Por isso, acredito que esta crónica é das mais chatas que escrevi. Porque sinto que escrevo, se calhar, para moucos. Mas admitir que é preciso proibir seja o que for para levar as pessoas a votar é algo tão mau que só posso terminar assim: há 37 anos, ganhamos o voto. Se ele deixou de valer, ora bolas. De nada valeu ir à luta.