www.dn.ptAnselmo Crespo - 14 ago 01:00

Opinião - Seja consciente. Fuja

Opinião - Seja consciente. Fuja

Imagine um náufrago que não sabe nadar, já engoliu vários pirolitos e vai esbracejando, aflito, na eterna dúvida: será que alguém me salva? Ou será que morro afogado? É esta a imagem que me vem à cabeça quando vejo a ministra da Administração Interna, quase dois meses depois, a explicar ao país o que correu bem e o que correu mal em Pedrógão Grande.

Eis Constança Urbano de Sousa, cheia de si (ou não), a anunciar um conjunto de medidas para que "a maior tragédia a que o país assistiu nos últimos anos" não se volte a repetir. Ela mandou fazer relatórios, estudos, inquéritos, auditorias, ordenou inspeções, fez perguntas, pediu pareceres, ela mandou fazer tudo. Dois meses e 64 mortos depois, a ministra da Administração Interna decidiu exercer o cargo para o qual tomou posse há ano e meio. A mesma ministra que antes da época de incêndios também foi cheia de si (ou não) ao Parlamento garantir que o país estava preparado para o que aí vinha.

Das resmas de papel que a ministra encomendou a tudo o que é entidade, há, garante Constança Urbano de Sousa, algumas conclusões preliminares que é possível retirar. Traduzido por miúdos, há já um "culpado". E adivinhem lá? Não, não é a ministra.

A culpa foi do SIRESP. Ou da PT, segundo António Costa. Pronto. É isto. Satisfeitos? E agora, preparem-se, que a ministra encheu o peito de ar e decidiu ir para a guerra, jurídica, bem entendido, com esses "sacanas" que nos custaram uns valentes milhões e nunca conseguiram garantir aquilo para o qual foram contratados: comunicações em situações de emergência.

SIRESP - Gestão de Redes Digitais de Segurança e Emergência: garante todo o tipo de comunicações - exceto numa situação de emergência. É que, num incêndio, os cabos de fibra ótica podem arder. É uma coisa que acontece. Ah, e pelo amor de Deus, não pode estar toda a gente a falar ao mesmo tempo, que não há rede que aguente. Não vale a pena dramatizar. É o que é. Além disso, as falhas do SIRESP também não são assim tão recorrentes. É "só" uma vez por ano, nada de especial.

Constança Urbano de Sousa descobriu a pólvora e agora prepara-se para a fazer explodir na cara dos gestores do SIRESP. Mas calma, que a ministra não dá o assunto por encerrado. Entre a papelada toda que Constança Urbano de Sousa "encomendou" para tentar descobrir porque é que morreram 64 pessoas em Pedrógão Grande, vêm outras conclusões que podem atirar mais uns cordeiros para o sacrifício fatal.

De acordo com a auditoria da IGAI - Inspeção-Geral da Administração Interna, o representante do Estado na gestão da rede SIRESP - nunca apurou se os requisitos de redundância previstos no contrato estavam ou não a ser cumpridos. Mais: sempre que atuou, foi de forma pontual e reativa. Das várias insuficiências e deficiências detetadas ao SIRESP, a grande maioria continua por resolver. É, no fundo, uma auditoria arrasadora para a Secretaria-Geral da Administração Interna e, sobretudo, para o seu secretário-geral adjunto, Francisco Gomes, um dos "cordeiros" que corre o sério risco de ter de se sacrificar para salvar a ministra-náufraga. Lá está ela, a esbracejar em busca de auxílio, enquanto engole mais uns pirolitos.

Acontece que a Secretaria-Geral da Administração Interna é da dependência direta da ministra e os cargos de topo são de confiança política. Se esta entidade falhou, como diz a IGAI, foi também a ministra que falhou. Mas se isto é óbvio para muitos, não é, seguramente, para Constança Urbano de Sousa.

Entretanto, no terreno, aprenderam-se algumas lições. As aldeias agora são evacuadas com duas horas de antecedência, cortam-se as estradas todas que forem precisas, meteu-se uma rolha na boca dos comandantes (o governo ainda deve estar a estudar uma forma de o fazer com os presidentes de câmara, mas é ano de autárquicas, é capaz de ser chato) e a Autoridade Nacional de Pro-teção Civil fala a uma só voz - depois da rebaldaria que foi a comunicação desta entidade durante o mês de junho.

Ainda bem que o país estava preparado para enfrentar a época de incêndios. Imaginem se não estivesse. O secretário de Estado Jorge Gomes (que parece mais ministro do que a própria ministra) é que tinha razão quando, em maio, antecipou a época de incêndios deste ano: "Eu, se fosse um pouco consciente, fugia." Vou passar a estar muito mais atento ao que este secretário de Estado diz.

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