www.dn.ptMark Leonard - 14 ago 01:00

Opinião - O novo poder financeiro da Alemanha

Opinião - O novo poder financeiro da Alemanha

Na semana passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Sigmar Gabriel, interrompeu as suas férias no mar do Norte para responder à prisão de um ativista alemão de direitos humanos na Turquia. Gabriel alertou os turistas alemães sobre os perigos de visitar a Turquia e recomendou que as empresas alemãs pensassem duas vezes antes de investir num país onde o compromisso das autoridades com o Estado de direito é cada vez mais duvidoso.

Isso equivale a uma nova política alemã em relação à Turquia, e ainda confirma o estatuto da Alemanha como uma grande potência económica. O anúncio de Gabriel fez sentir as ondas de choque em todo o governo turco, porque recordou a resposta do presidente russo Vladimir Putin ao abate de um avião de guerra russo em 2015 pela Turquia. As sanções que a Rússia impôs custaram à economia turca, já em dificuldades, 15 mil milhões de dólares e acabaram por forçar o presidente turco Recep Tayyip Erdogan a um humilhante pedido de desculpas.

A resposta agressiva de Putin não foi nenhuma surpresa. Em contrapartida, a decisão da Alemanha de responder de forma semelhante marca uma rutura com o seu estilo diplomático geralmente mais conciliador.

O diplomata alemão aposentado Volker Stanzel disse-me que a recente jogada de Gabriel está de acordo com a sua personalidade e o seu talento para o cálculo político. Em antecipação às eleições nacionais da Alemanha em setembro, Gabriel sabe que o seu Partido Social Democrata (SPD) não tem nada a perder ao enfrentar Erdogan, que tem alienado os alemães com a sua personalidade autoritária, inclinações islamitas e alusões inoportunas ao Holocausto.

Stanzel salienta também que Gabriel, que é influenciado tanto pela comunicação social como por outros diplomatas, quer criar um estilo de diplomacia mais voltado para o público no século XXI. E, como o seu cargo anterior no governo foi no Ministério da Economia e da Energia, é natural que ele use a pressão económica como medida de primeiro recurso.

Ainda assim, a mudança da posição global da Alemanha é anterior a Gabriel, que é relativamente recém-chegado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Durante a crise do euro, a Alemanha implantou meios económicos para fins económicos na Europa. Mas, nas suas políticas em relação à Rússia, Turquia, China e Estados Unidos, a Alemanha tem vindo cada vez mais a usar a sua força económica para fazer avançar objetivos estratégicos maiores.

Depois de Putin anexar a Crimeia em março de 2014, a resposta do Ocidente não foi conduzida pelos EUA, mas pela Alemanha, que liderou a diplomacia com a Rússia e a Ucrânia para desacelerar o conflito. A Alemanha convenceu então o resto da União Europeia a aceitar sanções sem precedentes contra a Rússia para impedir novas agressões.

A Alemanha tem mantido essa frente europeia unida nos últimos três anos, desafiando todas as expectativas. E agora que os escândalos relacionados com a Rússia se destacam em relação ao governo do presidente dos EUA, Donald Trump, os europeus esperam cada vez mais que a Alemanha continue na liderança nesta questão.

A Alemanha também negociou um acordo com a Turquia para reduzir o fluxo de refugiados do Médio Oriente para a Europa, reformulando efetivamente a relação UE-Turquia. Em vez de manter a ficção de que a Turquia ainda é um candidato viável para a adesão à UE, a Alemanha forjou uma relação bilateral estratégica mais realista. A Europa ainda pode trabalhar com a Turquia para promover interesses comuns, mas também pode levantar objeções ao crescente autoritarismo de Erdogan.

É claro que a vontade da chanceler alemã, Angela Merkel, de enfrentar Trump pode ser a mais surpreendente de todas as mudanças de política externa. Pouco depois de se encontrar com Trump na cimeira do G7, na Sicília, em maio, ela fez um discurso em que pedia à Europa para "tomar o nosso destino nas nossas próprias mãos". Só isso já marca uma diferença em relação a décadas da diplomacia alemã.

Até agora, a rutura nas relações entre os alemães e os EUA tem sido principalmente retórica. Mas Merkel também está a reforçar a posição geopolítica da Alemanha, diversificando as suas parcerias globais, especialmente com a China. De acordo com Stanzel, que anteriormente serviu como embaixador da Alemanha em Pequim, "Merkel não tem ilusões sobre a China, mas vê-a como parceira nas questões climáticas, comerciais e das políticas da ordem".

A nova abordagem de grande potência da Alemanha evoluiu gradualmente e em resposta a acontecimentos aparentemente não relacionados. Mas, mesmo que a Alemanha não esteja a seguir um plano mestre, os seus pontos fortes fundamentais permitiram alavancar o seu poder económico, usar instituições e orçamentos da UE como um multiplicador de força e construir coligações internacionais na busca de objetivos estratégicos. Além disso, a diplomacia em mudança da Alemanha representa uma continuação do processo de "normalização" que começou com a reunificação alemã em 1989, gerando grandes debates internos sobre o uso da força militar e a importância das relações da Alemanha com os EUA, a Rússia e outras potências europeias.

Tudo isso sugere que a Alemanha pode finalmente estar a libertar-se de dois "complexos" que desde há muito limitam o seu pensamento estratégico. O primeiro é o seu complexo psico-histórico, que obriga os líderes alemães a curvarem-se para tranquilizar os estrangeiros sobre as suas intenções. Isso explica a tradicional insistência alemã em "contribuir sem liderar" ou "liderar a partir do meio", e que agora adote a ideia de "liderança servidora".

O segundo complexo diz respeito à postura militar do país. A Alemanha ainda gasta uns modestos 1,2% do seu PIB na defesa, e os seus debates internos sobre o poder tendem a ser motivados por preocupações sobre orçamentos militares, implantações de tropas e intervenções estrangeiras.

Ao mesmo tempo, o consenso dentro do aparelho de segurança alemão sobre o uso da força está a mudar. A Alemanha tem vindo a construir laços militares bilaterais com países que vão da Noruega e da Holanda ao Japão. Também começou a desempenhar um papel mais ativo em vários teatros de operações, ao implantar tropas no Afeganistão e no Mali e ao apoiar combatentes curdos na Síria e no Iraque. E tem liderado uma campanha, ao lado da França, para criar um fundo de defesa da UE.

Tudo isto são desenvolvimentos importantes. Mas nem de perto tão importantes quanto a decisão da Alemanha de usar o seu enorme poder económico no cenário mundial. A recente resposta de Gabriel à Turquia é um passo nessa direção. Para quê enviar tropas para o exterior, quando se pode ter um impacto maior ao manter turistas e empresas de nível mundial em casa?

Diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores

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