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À procura de artesãos no tempo dos ecrãs táteis

À procura de artesãos no tempo dos ecrãs táteis

Quase um quarto dos profissionais tem formação superior

Haverá sempre maior procura de engenheiros informáticos do que de marceneiros, profissionais do restauro, modistas e ceramistas. Mas, num mercado de ecrãs táteis e tecnologias da informação, ainda haverá quem saiba trabalhar com as mãos? Do Centro de Formação Profissional do Artesanato (CEARTE), que opera em mais de 80 pontos do país, saem todos os anos perto de 4000 pessoas formadas, 2500 das quais ligadas ao artesanato, incluindo atividades de conservação e restauro e recursos endógenos (produção de queijos, mel ou enchidos, por exemplo).

Muitas frequentaram cursos de curta duração (de dois a três meses) e não encaram a arte manual como profissão, mas sim como um complemento ou bolsa de oxigénio para os dias. No entanto, quem aposta com visão em segmentos como o têxtil, a carpintaria, a latoaria, a joalharia, a encadernação, a cerâmica, os bordados, o restauro ou a cestaria pode ter um futuro promissor pela frente, indicam as estatísticas do centro fundado em Coimbra há 31 anos, que conta com uma oferta de 280 formações, quase todas gratuitas. Contando com as áreas de turismo ou marketing (em que a organização também atua e cujos profissionais são facilmente absorvidos pelo mercado), a taxa de empregabilidade é de 72%, representando uma subida de dez pontos percentuais em relação ao ano passado.

“No caso do restauro, 100% dos alunos conseguiram emprego” nos seis meses após a conclusão do curso, indica Luís Rocha, diretor do CEARTE, apontando para outra área de forte procura: o trabalho artesanal em madeira. “Todos os dias chegam pedidos de marceneiros, profissionais de serralharia artística.” São cada vez mais, também, os casos de sucesso de novos negócios, sempre de nicho, que começam no risco, chegam à autossustentabilidade e culminam na exportação.

Imagem errada 
dos artesãos

Ao contrário do preconceito que possa persistir, de que o trabalho do artesão é pesado, sujo e moroso e de que a produção não se adaptou ao consumidor contemporâneo, “o artesanato não ficou estagnado”, sublinha Luís Rocha. O sector está a rejuvenescer e a qualificar-se. Há 30 anos, 26% dos artesãos tinham mais de 65 anos e metade tinha o 4º ano de escolaridade ou menos. Hoje, 70% têm menos de 50 anos, 27% frequentaram o ensino secundário e 22% têm formação superior.

O responsável do CEARTE (que integra a rede do Instituto do Emprego e Formação Profissional) acredita que a formação superior conjugada com a técnica adquirida nos cursos profissionais resulta na evolução criativa que tem dinamizado o sector. Ao mesmo tempo, “a procura [de produções artesanais] tem aumentado porque o mercado está cansado do produto massificado e quer, cada vez mais, objetos com forte cariz cultural, identitários e diferenciadores”. Cabe ao artesão “ganhar essa oportunidade”, analisa o diretor, que defende o investimento em marcas culturais com design de luxo.

Crescer no interior

Se nos domínios da carpintaria, marcenaria e costura, encontrar emprego por contra de outrem é relativamente comum, nos nichos da cerâmica artística, vidro ou bordados, muitos não esperam que o mercado chame por eles e criam diretamente oportunidades, uma situação que se terá acentuado nos últimos seis anos. “O desemprego fomentou o empreendedorismo e isso foi muito importante para dinamizar o sector”, descreve o gestor.

Entre pequenas e médias organizações, existem hoje 500 unidades produtivas artesanais com o selo “Portugal Sou Eu”, mas muitas outras operam no país. Algumas têm ajudado a combater a desertificação em zonas rurais, como na aldeia da Cerdeira, na Serra da Lousã, “onde vivem sete ou oito artesãos, que criaram o seu próprio emprego e com isso também atraem atividade turística”, relata Luís Rocha.

Foi, aliás, esta a motivação inicial do CEARTE. “Há 30 anos, a Cáritas [de Coimbra, que fundou o grupo] começou a perceber que as questões do emprego nos meios rurais eram muito importantes e que as artes e ofícios poderão ser uma boa resposta”, recua o atual diretor. “Hoje, felizmente podemos dizer que algumas aldeias não estão mais desertificadas porque o sector tem uma missão e um contributo importante.” Se é possível exportar peças de feltro do alto da Serra de Montemuro para toda a Europa, também “o Algarve tem centenas de encomendas de empreita, olaria e latoaria e não há quem as faça”, exemplifica Luís Rocha. No projeto TASA-Técnicas Ancestrais, Soluções Atuais, mais de 20 artesãos, dos 30 aos 70 anos, utilizam técnicas tradicionais e uma linguagem inovadora para trabalhar a cortiça, o barro ou a folha de palma. Faltam, neste momento, mãos para moldar ainda mais mundo ao saber algarvio.

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