www.jn.ptInês Cardoso* - 14 ago 00:10

Máquinas burocráticas

Máquinas burocráticas

O telefone tocou e era uma funcionária de um serviço centralizado da Administração Pública. Explicou que iria enviar um despacho em resposta ao requerimento enviado, mas que fazia sempre um contacto telefónico prévio para explicar o que estava em causa, para que as pessoas não fossem surpreendidas pelas decisões e pela documentação exigida. Quando lhe agradeci a atenção, respondeu com uma simplicidade desarmante: "Eu preciso da senhora para fazer bem o meu trabalho. E a senhora precisa de mim para encerrar o processo. Se nos ajudarmos, ambas ganhamos".

Num país que tem a sua Função Pública em tão má conta e em que a burocracia é uma doença crónica (por mais Simplex que se façam, precisamos de papéis e de certidões autenticadas para tudo e mais alguma coisa), os funcionários como a Helena Santos, que comunicam e agilizam soluções deviam ser premiados. E este princípio tão basilar de que todos ganhamos com a eficácia dos serviços merecia fazer escola e multiplicar-se por repartições, tribunais, serviços municipalizados e todos os balcões de atendimento.

Dentro de cerca de um mês começa a campanha eleitoral para as autárquicas. Terminado o prazo para a entrega das listas, o balanço final mostra milhares de candidatos que vão mostrar-se aos eleitores: só o PS e o PSD juntos totalizam 124 mil. A 1 de outubro são entregues nada menos do que 35 561 mandatos. Um mundo de eleitos que será a primeira linha no contacto com as populações e a quem cabe descomplicar o que tantas vezes a máquina administrativa complica.

Nas autarquias replica-se o que de melhor e pior existe na política nacional. Há compadrios, caciquismo e os vícios que a opinião pública se encarrega de generalizar. Mas há também quem vista a camisola e sinta os problemas da população como se fossem seus, sobretudo em meios rurais onde todos se conhecem e é fácil bater à porta da junta ou da câmara para pedir até o que não é da sua competência.

A 1 de outubro, quando formos votar, não termina a nossa possibilidade de participação. Quantos consultamos as atas das sessões de câmara? Quantos já fomos a uma reunião da Assembleia Municipal ou de Freguesia? Quantos fazemos ouvir-nos em iniciativas como orçamentos participativos? A queixa e a crítica são fáceis. Difícil é a consciência de que as máquinas burocráticas só se destroem com quem faz. Do lado de lá e do lado de cá.

*SUBDIRETORA

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