www.cmjornal.ptEduardo Cintra Torres - 13 ago 01:36

O chefe de Estado e o país real

O chefe de Estado e o país real

O neocarisma de Marcelo é também fogo-de-vista. O país real não são selfies. O país real acordou em Pedrógão Grande.
Terá sido o comentador Marcelo quem, no ‘Expresso’, inventou a expressão "país real" para se referir ao divórcio entre a classe política portuguesa e o povo? Talvez. Sei que eu lia os comentários de Marcelo no ‘Expresso’ e lembro-me bem de a expressão me ficar gravada na memória.

É uma boa imagem para simplificar a distância entre o exercício da política nacional e a realidade do quotidiano de quem a sofre, mesmo que viva frente a S. Bento.

O antigo comentador ocupa agora o lugar institucional com o potencial máximo para contactar o país real. Foi eleito, não tem responsabilidades executivas, e a isso se juntam um à-vontade pessoal desenvolvido ao máximo, uma energia imparável e um voluntarismo que, no passado, teve momentos duma rebeldia infantil agora simpática.

Fez do à-vontade empatia com quem se cruza, elevando a arte da simpatia aos píncaros. Antigamente, comuns ou poderosos, ninguém precisava de ser simpático para ser admirado. Mas a apresentação do Eu no espaço público tornou-se um valor social muito considerado. Pode essa simpatia confundir-se com o carisma, a relação que faz os dirigentes serem amados e seguidos pelos dirigidos? Marcelo consegue transformar a simpatia e o Marcelfismo numa espécie de carisma da sociedade contemporânea, a sociedade do espectáculo. Como qualquer outro carisma, dura enquanto dura. Cavaco teve durante décadas uma relação carismática austera com a maioria da população, mas o seu medo de enfrentar Sócrates desfez o encanto em desencanto. Também ele procurava a relação com o país real. O seu discurso "antipolíticos", dele, o mais político dos políticos, fazia parte dum lançar a corda para se ligar ao povo por cima dessa Lisboa que não liga aos "reais anseios da população", etc.

Acontece que o neocarisma de Marcelo é também fogo-de-vista. O país real não são selfies. O país real acordou em Pedrógão Grande.

As chamas lamberam os palácios do poder lisboeta. Marcelo procurou a relação com o país real durante e após a tragédia. Depois de enganado pelo governo, depois de ver que a onda "optimista" morreu na praia da opinião pública, não mais voltou aos elogios hiperbólicos da governação nem às cenas aviltantes como a do guarda-chuva em Paris ou o braço dado nos Açores com o presidente do PS. Mas mantém o Marcelfismo. Em Tavira, marcelfizou-se com quantos o abordavam, recebeu bolinhos de Costa e foi com ele para a pastelaria — enquanto, como bem titulou o CM, os fogos cortavam o país ao meio. Qual país? O país real. Se o país real chegar a ver uma diferença entre simpatia e carisma, Marcelo terá um problema, como Cavaco.


RTP "politicamente correcta" 
Os militantes antitourada são muito activos. São um movimento social que usa formas de expressão pública e de pressão sobre as instituições para conseguir o seu objectivo. Talvez comam carne o ano inteiro, mas não vêem o sofrimento da bicharada que lhes chega ao prato. Já a tourada é um espectáculo público e, na televisão, com visibilidade nacional. Como não gostam de ver e não conseguem proibi-las, querem proibir outros de ver. Toca de pressionar a RTP. O director de programas da RTP cedeu. Disse que passará menos touradas, porque ele não gosta e tem autonomia para programar. Tem. A decisão é legítima.

O operador público é, por malformação neonatal, a casa do "politicamente correcto". Agora é a oposição à tourada; a RTP acomoda-se. O director diz que as audiências não contam para nada. Aqui mente, porque na RTP contam e muito. A sua programação não maltrata animais, mas maltrata os espectadores com conteúdos sem qualquer interesse público.

Isso dos precários   é só para a "privada"
Que bom! A RTP terá em breve mais 344 funcionários, precários metidos sem concurso pelos amigos chefes que agora passam a trabalhadores eternos da casa pagos por nós na conta da luz. Alguns antigos receberam altas indemnizações para saírem. Agora entram os novos amigos dos chefes actuais. Daqui a uns anos, pagamos as novas indemnizações.
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