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O barão do Reich

O barão do Reich

Oswald Hoyningen-Huene, aristocrata nomeado embaixador da Alemanha nazi em Portugal, enfrentou os casos mais delicados da II Guerra Mundial: da invasão japonesa de Timor à presença do duque de Windsor no Estoril. Um livro recente revela novos dados sobre a sua vida e também sobre o xadrez diplomático jogado em Lisboa

O barão Oswald Hoyningen-Huene, que representou, entre 1934 e 1944, o III Reich em Lisboa, fazia parte da aristocracia alemã que não se identificava com Adolf Hitler mas que o tolerava em nome da pátria. Durante este período, o diplomata, com quem Salazar estabeleceu laços de grande cordialidade, enfrentou vários desafios. Teve de saber gerir as pressões políticas exercidas sobre a delegação pela hierarquia do Partido Nacional Socialista sem afrontar as idiossincrasias portuguesas e rebater a propaganda aliada que encontrava eco na maioria dos portugueses. Além disso, teve de lidar com a questão do “rapto” do duque de Windsor — que os alemães queriam reter na Europa a qualquer custo. E ainda evitar a quebra da neutralidade portuguesa, que poderia ter decorrido da invasão de Timor pelos japoneses. E tentar evitar retaliações extremas do seu próprio país em resposta à cedência aos aliados de bases nos Açores e ao fim das exportações para a Alemanha do volfrâmio luso.

Qualquer destes três últimos dossiês era suficientemente escaldante para arrastar Portugal para a guerra, mesmo contra a vontade de Salazar. Contudo, a conjugação do malabarismo diplomático do ditador português e da habilidade de Hoyningen-Huene — a quem o embaixador de Inglaterra se referiria como “a gentleman” — conseguiu evitar o pior. Em 1944, Huene é chamado a Berlim e destituído. Em causa estava a “falta de confiança política” por parte das autoridades nazis. No final da guerra, foi interrogado várias vezes pelos aliados mas acabou por ser ilibado. Regressou então a Portugal onde a sua mulher continuara a viver, habitando no Estoril até quase à data da morte, numa casa com o sugestivo nome de Chalet Maravilha.

Apesar de ser uma personalidade bastante conhecida dos historiadores portugueses deste período, só recentemente lhe foi dedicado o livro “Dança Sobre o Vulcão” (edições 70) do embaixador jubilado José Manuel Duarte de Jesus, prefaciado pela historiadora Irene Flunser Pimentel. Ancorada numa profunda investigação em arquivos nacionais e alemães, a obra vem trazer novidades, não só sobre esta complexa e controversa personalidade como sobre o xadrez diplomático jogado em Lisboa nos trepidantes anos da guerra. Como nem na História nem na vida se pode conceber um universo a preto e branco, o caso Hoyningen-Huene é, um dos muitos que terão de ser analisados à luz de vários matizes.

A sua atuação sui generis, em Lisboa, parece configurar, em muitos aspetos, algum distanciamento relativamente ao nazismo, ideologia que rejeitará veementemente num memorando escrito no final da guerra. Em contrapartida, como refere o autor do livro, para todos os efeitos nunca se demitiu e aceitou representar, durante uma década, um dos mais sinistros regimes do século XX. Em setembro de 1938, uma aristocrata alemã, a condessa Schulenburg, durante uma festa em Colónia onde se dançava a Lambeth Walk, dança proibida pelo regime nazi, diria premonitoriamente sobre a situação na Europa: “Isto é a dança sobre o vulcão”. Um ano depois, o vulcão entrava em erupção e durante quase seis anos a lava alcançaria quase toda a Europa.

Aristocrata com sangue inglês

Filho de um barão alemão, Oswald von Hoyningen Huene (1884-1963) tinha mãe inglesa. Educado nos melhores colégios e universidades alemãs, era um aristocrata, culto, elegante e viajado. A sua formação em Direito, com um doutoramento em Direito Penal, fê-lo passar pelos serviços de justiça prussianos antes de ingressar, em 1920, no serviço diplomático. Oito anos depois, o Presidente alemão, marechal Paul von Hindenburg, também ele monárquico, chamou-o para o seu gabinete, promovendo-o, no ano seguinte, a diretor de serviços. Pouco tempo depois, Hindenburg designava-o para chefiar a delegação alemã de Lisboa, entretanto vazia com a saída do ministro Hans Freytag.

No final do verão de 1934, Huene é recebido no palacete da delegação em Lisboa, na Rua do Sacramento à Lapa, 58, pelo seu pessoal que entoou, em jeito de boas-vindas, “Horst Wessel Lied”, canção adotada como hino do partido nazi… Periférica e sem o espectro da guerra no horizonte, a capital portuguesa não era, então, um posto muito exigente. Não é pois de estranhar que, numa primeira fase, a ação diplomática de Hoyningen-Huene, como se refere no livro, procurasse sobretudo “desmontar a imagem do III Reich, como ditadura militarista hegemónica, brutal e antissemita, e substituí-la pela ideia de uma Alemanha capital de uma cultura europeia antiga”. Assim, o novo ministro alemão vai dedicar muito do seu tempo a organizar eventos culturais, como concertos e exposições para dar a conhecer aos portugueses a cultura alemã, e vice-versa. Foi o caso, por exemplo, de uma Mostra do Livro Alemão, em 1938, que contou com a presença do ministro da Educação António Carneiro Pacheco ou de um jantar de homenagem oferecido, nesse mesmo ano, pela delegação ao pianista Vianna da Motta que, subsidiado pela condessa d’Edla e pelo rei D. Fernando II, tinha estudado em Berlim.

Receção. O casal Hoyningen-Huene com o barão Moulin Eckart (à dir.) 
à chegada a Lisboa, em 1934

Receção. O casal Hoyningen-Huene com o barão Moulin Eckart (à dir.) 
à chegada a Lisboa, em 1934

FOTO arquivo nacional da torre do tombo

Por outro lado, como refere Irene Pimentel no seu prefácio, Hoyningen-Huene começou também a ser notado nos meios diplomáticos portugueses, “por apresentar queixas, junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros, contra notícias publicadas na imprensa portuguesa, em especial no ‘Diário de Lisboa’, que considerava prejudiciais à Alemanha”. É interessante verificar que não era só nalguma imprensa portuguesa que se encontravam críticas à Alemanha do III Reich. Por vezes, vinham de onde menos se esperaria.

Foi o caso da alocução de Natal de 1937 feita pelo cardeal-patriarca Manuel Cerejeira, que mereceu, do barão, uma extensa carta de protesto de sete páginas. Tanto quanto se percebe, o prelado ter-se-ia referido diversas vezes, durante a homilia, ao ateísmo germânico, condenando a política de eugenia promovida pela nova ordem e referindo-se a Hitler como um “César pagão”... Perguntava o ministro na sua carta: “O objetivo do seu discurso de Natal era atacar a Alemanha? O meu país foi aí mencionado 5 vezes e há mais 4 alusões indiretas. Várias vezes, V. Exª o colocou no mesmo pé de igualdade que o Comunismo ou com o ateísmo marxista. (...) com a leitura do seu discurso dir-se-ia que a Alemanha é o pais mais pagão do mundo, um país que só conhece o culto da raça e da força, que se entrega a um Moloch [deus dos amonitas e considerado um demónio para os cristãos] novo e desconhecido, que destrói a liberdade do homem e que diviniza um César humano (...)”

A carta de Hoyningen-Huene só mereceu de Cerejeira uma resposta lacónica quase um ano depois. Nesta, o cardeal reafirmava que existiam princípios que para ele eram condenáveis à luz da fé católica, pelo que não podia prometer não voltar a falar neles...

Além do antissemitismo, sem expressão em Portugal, e dos ideais da pureza da raça, a questão religiosa era um dos pontos em que os regimes de Salazar e de Hitler se afastavam. Numa carta datada de agosto de 1941 (consultada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo), o conde de Tovar, embaixador de Portugal em Berlim, informava Salazar sobre esta questão particular, referindo as diferenças de atuação entre o exército alemão e o Partido Nacional Socialista. “À mulher do governador militar de Berlim ouvi declarar há dias, diante de várias pessoas, que o exército alemão é decididamente favorável à Igreja, e o seu marido (general von Hase) apesar de protestante, tinha ido procurar, ainda há pouco tempo, o bispo católico de Berlim para lhe comunicar que podia contar com a dedicação do exército. (...) é também um sintoma característico da rivalidade que lavra entre as duas grandes forças do Reich: o exército e o Partido! Esta rivalidade data da subida ao poder do Nacional Socialismo (1933), mas ouço dizer que nos últimos tempos (especialmente desde o início da guerra) o antagonismo tem-se acentuado e que tem aumentado consideravelmente a influência política do Exército, diminuindo proporcionalmente a popularidade e a influência do Partido. Estas alterações nas posições respetivas das duas organizações é que explica o facto de o general von Hase, governador militar de Berlim, afoitar-se a procurar o bispo de Berlim para lhe manifestar a discordância do exército da política seguida pelo Partido em matéria religiosa e também o facto de a ‘generala’ se afoitar a falar tão livremente no assunto.”

São por demais conhecidas as divergências entre exército alemão e o partido nazi, não sendo por isso de estranhar que muita da oposição ao regime hitleriano viesse a nascer entre os militares. Aliás, desde o início de 1933, após o incêndio do Reichstag, a oposição partidária, nomeadamente a comunista, tinha sido decapitada com a dissolução dos partidos, enquanto os seus dirigentes eram enviados para campos de concentração ou mortos. Os que conseguiram fugir a tempo ainda se organizaram no estrangeiro, constituindo uma rede de resistência que se veio a chamar Sopade. Contudo, e como se refere em “Dança Sobre o Vulcão”, sem a oposição dos partidos restavam, na Alemanha “o almirante Canaris da Abwehr [Wilhelm Franz Canaris, comandante dos serviços secretos militares] e o funcionalismo alemão, em particular na diplomacia, uma corrente conservadora e ligada à nobreza, profundamente anti-hitleriana”.

Apesar de integradas no sistema, estas figuras procuravam minimizar os danos do nazismo seguindo o lema de uma das principais figuras do Ministério dos Negócios Estrangeiros (AA) alemão, o barão Ernst von Weisaecker: “Manter-se em funções para evitar o pior”. Alguns, entre os quais o almirante Canaris, mais centena e meia de pessoas, incluindo oficiais e diplomatas, foram mais ativos, tendo organizado um grupo de oposição denominado Freundeskreis (Círculo de Amigos). Este grupo acabou por estar na génese do atentado falhado, em julho de 1944, contra Hitler. A resposta a esta “traição” foi brutal, tendo a esmagadora maioria dos conspiradores, Canaris incluído, acabado por ser executada.

Eventos. Hoyningen-Huene (à dir.) num jantar de homenagem ao pianista Vianna da Motta realizado, em 1938, no Hotel Avenida Palace.

Eventos. Hoyningen-Huene (à dir.) num jantar de homenagem ao pianista Vianna da Motta realizado, em 1938, no Hotel Avenida Palace.

FOTO arquivo nacional da torre do tombo

Hoyningen-Huene, amigo pessoal de Canaris, teria feito parte, como refere Duarte de Jesus, de uma “franja “ de simpatizantes deste Círculo de Amigos, desenvolvendo no seu posto de trabalho alguns atos de resistência. Percebe-se que Huene, em Lisboa, tomou algumas atitudes que não o deixaram muito bem visto junto das autoridades alemãs. Entre estas, conta-se, por exemplo, a proibição do uso de fardas pelos membros do corpo diplomático e o facto de, em 1940, durante as cerimónias fúnebres de Julius Claussen (chefe do partido nazi em Portugal), ter colocado sobre o caixão a bandeira nazi — mas também a bandeira tradicional alemã, o que lhe valeu um reparo de Berlim.

Por outro lado, Hoyningen-Huene fez frente a muitas das pretensões da Auslands-Organisation (AO, organização formada para controlar as comunidades alemãs fora do país) tendo mesmo dado cobertura e apoio oficial à atuação do seu cônsul Hollberg, cuja lealdade para com o nazismo era, pelo menos, duvidosa. Entre outras acusações, o responsável da AO, Graeser, dizia que Hollberg tratava os judeus alemães como quaisquer outros cidadãos do seu país. O que levava Graeser a afirmar: “Não admira pois que entre os emigrantes judeus se diga que são tratados corretamente no Consulado e que até se pode falar livremente, pois os senhores ali não são da situação”.

Bernardo Jerosch-Herold, filho do diretor do Hospital alemão Carl Jerosch-Herold, que sempre residiu em Portugal, lembra os contactos com o embaixador. “Hollberg que tinha uma bela voz de tenor e era maçom, sendo visita frequente de meus pais e participando em muitos saraus musicais em nossa casa. Quando chegava pedia sempre para taparmos o telefone com almofadas para não haver possibilidade de sermos escutados.”

Também é interessante verificar que, em documentação por nós consultada no âmbito de outro projeto, se confirma a política facilitadora relativa aos judeus do consulado da Alemanha em Lisboa. Como revela uma carta de Albert Nussbaum, responsável da Comlux em Lisboa (organização de apoio aos refugiados luxemburgueses) ao ministro dos Negócios Estrangeiros luxemburguês no exílio, de 25 de janeiro de 1941 e pertencente ao Arquivo Nacional do Luxemburgo. “Tenho de o informar que o consulado da Alemanha prorroga, por seis meses, sem qualquer dificuldade, os títulos de identidade do Luxemburgo (de judeus luxemburgueses) contra um pagamento de 10 escudos e as autoridades portuguesas reconhecem esse prolongamento”.

Hoyningen-Huene não partilhava efetivamente dos ideais antissemitas que vigoravam no seu país, mesmo depois da proclamação, em 1935, das Leis de Nuremberga, que, entre outras coisas, decretavam que os judeus eram sub-humanos. Assim, e por muito estranho que pareça, será este representante da Alemanha quem proporá, nesse mesmo ano, uma condecoração da Cruz Vermelha Alemã a Moisés Amzalak, presidente da Comunidade Israelita de Lisboa e acionista do jornal “O Século”, que se distinguia por ser pró-germânico. Mas se é curioso que Huene tenha querido homenagear Amzalak, ainda é mais o facto de este último não só ter aceitado a distinção de um regime que perseguia os seus irmãos de fé, como, mais tarde, ter pedido a miniatura da condecoração para a usar…

Igualmente revelador é outro episódio referido por Bernardo Jerosch-Herold, citado no livro, que envolveu Gudrun, baronesa von Hoyningen-Huene. A mulher do ministro foi operada no Hospital Alemão na Palhavã e tinha sido anestesiada pelo doutor Carl Jerosch-Herold. Nessa época a maioria das anestesias eram feitas apenas com éter, sem administração prévia de tranquilizantes. Assim, antes de os pacientes perderem a consciência, o primeiro efeito do éter era levá-los a um estado de excitação tal que, em regra, tinham de ser amarrados à marquesa. A baronesa teria sido um dos casos em que isto se manifestou de uma maneira particularmente violenta, vociferando contra Hitler e o seu regime, o que levou o médico, para a proteger, a fazer as enfermeiras jurarem sobre a Bíblia que jamais falariam no que ali tinha acontecido.

Eventos. Pormenor da exposição comemorativa dos 10 anos do Reich realizada em Lisboa na sede dos Caminhos de Ferro alemães — Secção de Turismo

Eventos. Pormenor da exposição comemorativa dos 10 anos do Reich realizada em Lisboa na sede dos Caminhos de Ferro alemães — Secção de Turismo

FOTO Mário Novais. Fundação Calouste Gulbenkian — Biblioteca de Arte

Já antes do início da guerra, a baronesa instituíra umas tardes de tric�� na delegação, onde as senhoras da comunidade alemã podiam tricotar agasalhos para os necessitados do seu país. Com o avanço da guerra, os agasalhos passaram a destinar-se aos soldados alemães expostos aos rigores do inverno russo. Durante essas tardes, a chefe da Frauenschaft (uma associação feminina) tinha o hábito de pôr as senhoras a cantar hinos nazis do tipo: “Estremecem os ossos podres/ do mundo perante a guerra vermelha./ Nós rompemos o horror./ Para nós foi uma grande vitória” — a que se seguia o refrão “porque hoje pertence-nos a Alemanha/ e amanhã o mundo todo”. A versão original era mais suave usando-se no refrão o verbo escutar em vez de pertencer. A baronesa, como forma de discordância, respondia batendo com força com os pés no chão ao passar no corredor e atirando com as portas...

Voltemos ao ministro da Alemanha em Lisboa e às situações complicadas que teve de enfrentar em Lisboa. A primeira seria o próprio início da guerra, que levou Huene a entregar pessoalmente a Salazar, logo a 1 de setembro de 1939, um documento com uma posição firme. “Em respeito pelas relações amigáveis existente entre os dois países, a Alemanha, em caso de guerra, abstém-se de qualquer ato de agressão contra o território português bem como contra as suas possessões ultramarinas se Portugal, em caso de um eventual conflito, mantiver em relação à Alemanha uma estrita neutralidade.” No dia seguinte, Salazar fazia publicar na imprensa a sua nota oficiosa declarando a estrita neutralidade de Portugal, a qual também agradava aos ingleses.

No verão do ano seguinte, a chegada inesperada dos duques de Windsor a Lisboa iria, por sua vez, criar uma situação diplomática delicada e inesperada. O duque, que visitara a Alemanha de Hitler em 1937, fizera algumas declarações polémicas no início da guerra e, era, para Churchill uma personalidade a afastar da Europa o mais rapidamente possível. Nesse sentido, nomeara-o governador das Baamas, para onde insistia que partisse rapidamente. Para o Führer, em contrapartida, era primordial que o ex-monarca britânico não saísse da Europa, tendo em vista, a possibilidade de vir a ter um rei para uma Grã-Bretanha vencida. O ministro alemão Joachim von Ribbentrop chegou mesmo a dar ordens para, caso o ex-monarca não aceitasse as condições extraordinárias que a Alemanha lhe oferecia, ser retido em Lisboa mesmo contra sua vontade.

É sobre este episódio rocambolesco que tem particular interesse um telegrama secreto apresentado pelo autor de “Dança Sobre o Vulcão”. Enviado por Ribbentrop a Hoyningen-Huene, na mensagem o ministro alemão pedia ao barão que falasse confidencialmente a Ricardo Espírito Santo — em casa de quem o casal Windsor se encontrava instalado em Cascais — para lhe pedir que tentasse impedir a partida dos duques. Contudo, se esta fosse inevitável, Ribbentrop queria saber se o duque estaria disponível para se manter em contacto com a Alemanha através do banqueiro português, que era um homem da total confiança do Reich. No final do telegrama, e à maneira dos filmes e séries de espionagem, era pedido a Huene que em caso de alguma indiscrição “negasse totalmente o teor desta mensagem”, só faltando dizer-lhe, como em “Missão Impossível”, que o documento se desintegraria em 30 segundos...

Apesar das ótimas relações entre Salazar e Huene, houve alturas em que a neutralidade portuguesa chegou a estar em perigo. Segundo Huene, em fevereiro de 1942, quando tropas japonesas invadiram Timor, na sequência de uma ocupação de forças australianas na parte oeste da ilha, foram precisas várias conversas com Salazar para evitar que Lisboa tomasse uma atitude mais drástica.

Mas as questões mais problemáticas foram a cedência das bases dos Açores aos aliados em 1943, ao abrigo da velha aliança com a Inglaterra, e finalmente o fim da venda de volfrâmio aos alemães, por pressão aliada. Em relação aos Açores e mal a notícia foi conhecida Huene escreveu um protesto que entregou pessoalmente a Salazar. O ditador português responde-lhe, como refere Duarte de Jesus, “no seu estilo muito próprio que por vezes ronda a intenção de forçar a quadratura do círculo”. Nessa resposta, Salazar alegava que a neutralidade portuguesa “era sempre condicionada e limitada no âmbito da sua aplicação pelas exigências da dignidade do país, pelos seus superiores interesses e pelas obrigações eventualmente emergentes da aliança de Portugal com a Grã-Bretanha celebrada não com vista à atual guerra”. “Não obstante a concessão feita, o Governo português, como eu já disse a Vexa, não se afasta do seu desejo e propósito de manter a neutralidade em todos os territórios portugueses”, concluía o governante português. Perante esta resposta, a Huene, que muito admirava Salazar, não lhe restou senão a difícil tarefa de minimizar os efeitos desta cedência e tentar, perante os seus superiores hierárquicos, defender a opção portuguesa.

Se este incidente foi um sério revés para o Eixo, ainda mais grave viria a ser fim da exportação de volfrâmio para a Alemanha, tão necessário à continuação da guerra. Sobre estes dois acontecimentos informaria o conde de Tovar, ministro português em Berlim, o presidente do Conselho, num ofício de fevereiro de 1944. “O nosso país continua a gozar aqui de grande estima e simpatia. Pode dizer-se que a cedência das bases dos Açores não chegou a alterar as boas disposições anteriores para connosco. Mas nos últimos tempos noto uma grande inquietação no que respeita ao fornecimento de volfrâmio.”

Com a invasão da Rússia, a Alemanha cometera um enorme erro estratégico, ampliado com a entrada dos americanos no conflito após o ataque japonês a Pearl Harbour. Confiante na sua boa estrela e nas vitórias fáceis de 1940, Hitler acabara por se meter numa verdadeira camisa de onze varas, não tendo nem homens nem capacidade bélica para lutar em tantas frentes. Esse cenário era já bastante claro no início de 1944, como se pode ver por outra passagem da mesma carta do conde de Tovar, na qual o diplomata, além de descrever o efeito devastador dos bombardeamentos aliados sobre 23 cidades alemãs, descreve a situação no país. “O desânimo e o descontentamento são gerais. Nos jornais suíços apareceram há dias rumores de uma conspiração em que teriam entrado Himmler e alguns generais do exército, com o objetivo de destituir Hitler e de entabular negociações de paz. A notícia deve ter algum fundamento (…) não é fácil descortinar quais possam ser os planos ou as esperanças de Hitler para sair da situação em que se encontra. É manifesto que o exército alemão não consegue aguentar a pressão dos russos. É manifesto que a campanha submarina falhou. É manifesto que a destruição das cidades alemãs prossegue a um ritmo cada vez mais violento e que a defesa, longe de intensificar-se, vai enfraquecendo, e que a desorganização provocada por estes bombardeamentos torna-se cada vez mais sensível (…) como explicar então a obstinação de Hitler em prolongar a luta? Só lhe encontro uma explicação de que se desmembre a coligação inimiga.”

Contava a falecida Heta Jerosch-Herold, amiga de Hoyningen-Huene, que quando este, após se ter apresentado em Berlim para tomar conhecimento da sua destituição, chegou ao aeroporto de Estugarda, tinha dois carros à sua espera. Um era da Gestapo e o outro era o Rolls-Royce do conde Karl Graf Douglas, de origem sueca, segundo marido da princesa Victória Augusta, viúva do rei D. Manuel II. Ao que parece, o prestígio deste conde e a sua ligação à casa real sueca terá levado a Gestapo a permitir que levasse consigo Hoyningen-Huene para o seu castelo de Langenstein, em Orsingen, perto do Lago Constança, onde ficou em residência fixa até à ocupação francesa. Entretanto, a mulher, Gudrun, ficara no Estoril e aí continuaria a viver, aproveitando para se inscrever na Escola Nacional de Belas-Artes.

Terminada a guerra, o barão seria por diversas vezes interrogado pelos americanos em Nuremberga. Talvez preparando a sua futura defesa, tinha escrito logo a 3 de julho de 1945 um extenso memorando de 70 páginas, cujo leitmotiv era “onde reside a minha culpa?” e no qual afirmava que se a houvesse seria coletiva. O barão Von Hoyningen-Huene esquivara-se durante anos a filiar-se no Partido Nacional Socialista, só o vindo a fazer depois da guerra iniciada e sob grande pressão, e escreveria, para memória futura: “Gosto de comparar o meu posicionamento face ao Partido ao de um pacífico passeante que, a meio da estrada perto da aldeia, encontra um grande cão a ladrar e que, para o manter à distância, sorrindo lhe vai dizendo ‘sim, és um bom e bonito cão’ e até talvez, em vez de falar, lhe diga isso um pouco como a ladrar. O efeito desta medida será na maioria dos casos que o agressor se desinteresse dele e se ocupe com outro assunto.”

No final do documento e em jeito de conclusão escreveria: “Culpado? Não! Mas cem vezes sim quanto à vontade de ajudar e colaborar para reparar o passado e restaurar a honra do nome da Alemanha”. Ilibado pelos aliados, regressaria ao Estoril e ao seu Chalet Maravilha. Apesar da morte da mulher, pouco tempo depois voltaria a casar-se e continuaria pacificamente a viver aqui até 1963, altura em que, já doente, regressou à Suíça para morrer.

Hoyningen-Huene pode não ter sido culpado das atrocidades levadas a cabo por um líder demente. Poderá mesmo ter tentado contrariar o regime que representava e ter permitido, sob a sua tutela, uma atuação decente nos consulados. Mas os que efetivamente fizeram mais do que isso não tiveram a sorte de terminar em paz as suas vidas nem ver o fim de tão tenebroso período. Há justificações que, bem vistas as coisas, acabam por nada justificar.

*Investigadora do Instituto de História Contemporânea

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